Por Dom Murilo S.R. Krieger, SCJ. Em Artigos

Maria: olhar que liberta

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1. Quem nos acolhe esta noite, neste Santuário, é Maria, a Mãe de Jesus, que nos reúne em sua casa. Todos nós nos sentimos à vontade na casa de nossa mãe. Aqui, nos preparamos para a sua festa, no próximo dia 12 de outubro. O texto do Evangelho desta terceira noite da Novena, e que acabou de ser proclamado, é do evangelista Lucas (Lc 4,14-22). Ouvimos o que o evangelista nos disse: depois que Jesus terminou a leitura da passagem do profeta Isaías, “os olhos de todos, na sinagoga, estavam fixos nele”. Também nós queremos, nesta noite, fixar nossos olhos em Jesus. Aliás, essa é uma das principais lições que Maria nos dá nesta sua casa: muitos vêm aqui atraídos por ela. Ela, por sua vez, nos ensina a fixar os olhos em seu Filho. Seu Filho nos fala na Mesa da Palavra; seu Filho Jesus se oferece em sacrifício ao Pai cada vez que, neste Santuário, é celebrada a Eucaristia; seu Filho se identifica com os padres redentoristas que aqui trabalham; seu Filho está em cada peregrino que aqui chega, vindo de algum recanto deste nosso país.

2. Fixemos nosso olhar em Jesus. Ele está em Nazaré, cidade onde morou a maior parte de sua vida. Na casa de Nazaré, Jesus viveu dia por dia, ao longo de trinta anos, com Maria, sua mãe. Trinta anos, dia por dia! Quantos momentos de oração, de convivência e de intimidade entre Jesus e Maria, entre Mãe e Filho! Em Nazaré, Jesus trabalhou numa oficina com aquele que era julgado seu pai, José. Em Nazaré conviveu com vizinhos e amigos. Em sua pequena cidade, segundo nos afirma Lucas, ele costumava frequentar a sinagoga, aos sábados. Sinagoga é a casa de oração dos judeus; é o local onde a comunidade judaica se reúne para ouvir a Palavra de Deus e cantar salmos.

3. “Deram-lhe o livro do profeta Isaías”. Nas reuniões dos judeus nas sinagogas, depois da leitura do livro da Lei – uma passagem de um dos cinco primeiros livros da Bíblia, isto é, do Pentateuco -, era lida a passagem de um profeta. A convite do presidente da Sinagoga, qualquer adulto podia ler um texto e fazer um comentário a respeito, para a comunidade.

4. Nessa ocasião, Jesus tinha cerca de 30 anos. Feita a leitura do profeta Isaías, “os olhos de todos… estavam fixos nele”. Jesus começou a dizer que “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Hoje se cumpriu… Que momento histórico aquele! Mas, o que se cumpriu? O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu… para dar liberdade aos oprimidos. Perceberam que destaquei apenas uma das finalidades por que Jesus foi ungido? Ele foi ungido para dar liberdade aos oprimidos.

5. O tema desta terceira noite da Novena da Padroeira do Brasil é: Maria, olhar que liberta! Esse tema nos remete a um fato acontecido em meados de 1850 : um escravo chamado Zacarias, preso por grossas correntes, ao passar pela igreja onde se encontrava a imagem de Nossa Senhora Aparecida, pede ao feitor permissão para rezar. Recebendo a autorização, o escravo se ajoelha diante de Nossa Senhora Aparecida e reza fervorosamente. Durante a oração, as correntes, milagrosamente, soltam-se de seus pulsos, deixando Zacarias livre. Jesus foi ungido para dar liberdade aos oprimidos. Jesus, que em Caná atendeu a um pedido de sua Mãe – Eles não têm vinho! -, em Aparecida atendeu a outro pedido, que deve ter sido mais ou menos assim: Meu filho! Tu vieste para dar liberdade aos oprimidos; veja, este teu irmão escravo que está algemado! Liberta-o, pelo teu poder!

 

Maria, olhar que liberta!

6. Maria, olhar que liberta! Os Bispos que participaram do Concílio Vaticano II (1962-1965) preocuparam-se em nos apresentar qual o papel da Virgem Maria na obra da Redenção, na obra de salvação de seu Filho Jesus. E escreveram: “Os fiéis ainda têm de trabalhar para vencer o pecado e crescer na santidade; por isso, levantam os olhos para Maria” (Lumen Gentium, 65). Levantam os olhos para Maria! Realmente, há séculos o Povo de Deus olha para ela e lhe pede, confiante: Rogai por nós, pecadores.

7. Também nós, peregrinos no Santuário de Aparecida, queremos “levantar os olhos para Maria”. Queremos conhecer o que liga Maria a Jesus, para assim conhecer melhor o caminho que nos conduz a ele. Desejamos perceber com clareza “a presença ativa de Maria entre nós… aquela presença materna e cheia de desvelo, misteriosa, mas eficaz” (João Paulo II, 01.02.88).

8. Voltando o olhar para Maria, queremos aprender com a Igreja, que não acrescenta ou tira qualquer coisa à ação da graça divina em Maria, masapenas adora o misericordioso plano de Deus a respeito daquela que é “bendita entre as mulheres”.

9. Quero, agora, responder a duas perguntas: Por que queremos olhar para Maria? Por que o olhar de Maria liberta?

10. Por que queremos olhar para Maria? Queremos olhar para Maria porque ela nos oferece um caminho de espiritualidade, isto é, um modo de viver dia por dia, conduzidos pelo Espírito Santo. Para isso é necessário, em primeiro lugar, abandonar-nos à vontade de Deus. Abandonar-se não é uma atitude passiva; é uma decisão consciente; é uma entrega de si mesmo a Deus – entrega que ela expressou nas palavras ao Anjo, enviado de Deus: Faça-se em mim segundo a vossa palavra! Maria aprendeu e nos ensina que, para fazer a vontade de Deus, é preciso seguir Jesus Cristo. Por isso, colocou Jesus no centro de sua vida. Ela tinha uma verdadeira paixão pelo Filho de Deus, que era também seu Filho. Se ela própria fosse chamada a escolher um lema para sua vida, certamente escolheria este: Fazei tudo o que ele vos disser! Maria nos ensina, também, que temos Jesus na medida em que o oferecemos aos outros. Por isso, ela o ofereceu aos pastores de Belém; aos Magos do Oriente; a Simeão e Ana no Templo de Jerusalém… e, assim, de oferecimento em oferecimento, ela o ofereceu ao Pai, no Calvário.

11. Por que o olhar de Maria liberta? Poderíamos fazer essa pergunta aos milhões de peregrinos que vêm aqui, cada ano.

12. Cada um deles nos testemunharia que aqui veio porque se sentiu atraído por Maria, sua Mãe; aqui renovou seus compromissos com Jesus e, então, voltou para casa, disposto a ser um melhor discípulo missionário do Mestre. Bem havia afirmado o querido Papa João Paulo II: nos santuários marianos o Povo de Deus busca o encontro com a Mãe de Cristo, e aquela que acreditou; fortifica a fé dos que ainda caminham (cf. Redemptoris Mater, 28). O olhar de Maria liberta porque ela teve uma experiência única do Espírito Santo. Além de ter sido a primeira criatura humana a saber que Deus é Pai, e é Pai porque tem um Filho que com Ele vive desde toda a eternidade, foi também a primeira criatura a saber da existência do Espírito Santo, e a conhecer o poder de sua ação. Maria oferece à Igreja sua experiência da ação do Espírito Santo na Anunciação, quando o Verbo se fez carne em seu ventre, e da ação do Espírito Santo em Pentecostes. Ela nos mostra o que o Espírito Santo poderá realizar em cada um de nós, se nos deixarmos conduzir por ele, como ela o fez.

13. Por tudo isso, somos convidados a entrar na Escola de Maria. O primeiro aluno desta escola foi Jesus. O segundo, o evangelista João, que a levou para a sua casa. Há um lugar para você nesta Escola, porque você é irmão de Jesus. Porque você é filho de Maria.

14. Penso poder fazer, em nome de todos, um pedido à nossa Mãe: intercede por nós junto a teu Filho, Mãe Aparecida! Já que ele veio até nós para libertar os oprimidos, que Ele nos liberte do pecado e de todo mal, agora e sempre. Amém!

Dom Murilo S.R. Krieger, SCJ.

O autor, antes Arcebispo de Florianópolis-SC, foi nomeado e transferido como Arcebispo de Salvador-BA, consequentemente primaz do Brasil, tomando posse no dia 25 de março de 2011. A Academia Marial felicita o Sr. Arcebispo e agradece a presente colaboração, colocando a prédica no Portal A12, exatamente quando se comemora o seu aniversário de ordenação episcopal.

 

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