Por Dom José Carlos de Souza Campos Em Artigos

Maria, Senhora e auxílio da Igreja

5º Dia da Novena Solene - Foto Thiago Leon- Festa da Padroeira 2016

"A primeira verdade da Igreja é o amor de Cristo, e,
deste amor que vai até o perdão e o dom de si mesmo,
a Igreja faz-se serva e mediadora junto dos homens."
(Misericordiae Vultus, 12)

Dom José Carlos de Souza Campos, Bispo de Divinópolis-MG
Novena de Nossa Senhora Aparecida - 07/10/2016

Mt 16, 13-19

Querido irmão Cardeal Raymundo Damasceno, pastor desta Igreja, a quem já agradeço pelo convite para presidir esta noite do novenário; estimados filhos de Santo Afonso, tão abundantes aqui nesta noite, guardiães deste Santuário, e demais religiosos e religiosas; prezados sacerdotes de muitos lugares e Igrejas Particulares, que circundam nesta noite este altar; caras autoridades civis e outras aqui presentes; irmãos e irmãs, que transformam este grande santuário numa bela construção de "pedras vivas" e de fé vibrante; irmãos e irmãs que nos acompanham pelas mídias católicas e suas repetidoras, que estão em comunhão conosco pelo radio, pela TV e pela Internet; uma saudação especial e afetuosa aos que estão aqui, vindos de lá, e aos que nos acompanham de Iá, da nossa Igreja diocesana de Divinópolis, no centro-oeste da nossa Minas Gerais, que também se prepara para celebrar sua Mãe padroeira. São 250 anos de devoção a Mãe de Jesus no alto da Serra da Piedade.

O texto evangélico que acabamos de ouvir nos apresenta Jesus depois de um certo tempo de missão e de convivência com a multidão e com seus discípulos. Jesus agora quer um feedback, uma reação dos que estiveram com Ele neste pedaço do caminho. "Quem sou eu para o povo? Quem sou eu para vocês?" Não se trata de urna pergunta qualquer, mas de urna pergunta essencial. Aquele tempo de proximidade com Jesus, os seus atos, as suas palavras, o seu jeito, a sua autoridade, os seus milagres... o que isso plantou no coração do povo e dos discípulos? Esta pergunta e esta resposta fundam a fé verdadeira em direção a Jesus. Esta pergunta funda nossa fé pessoal: quem é Jesus para mim? E sobre a resposta a essa pergunta que deveremos construir nossa identidade humana e religiosa no mundo. E sobre esta resposta que colocamos o sentido da nossa vida e da nossa morte. A nossa resposta deve tocar o eixo de nossas decisões e valores, deve definir nosso ser mais profundo, deve nortear todas as opções de nossa vida, deve afugentar nossa angústia diante do fim. E uma resposta que definirá nossa existência. Nossa fé é encontro com uma pessoa, que dá sentido e horizonte novos a nossa vida, disse o Papa Bento XVI.

Nesta noite, irmãos e irmãs, recolocamos, como devemos fazer sempre, a centralidade da nossa fé em Jesus Cristo, o filho da Virgem Maria. Nossa fé é cristocêntrica, isto é, tem Cristo como centro, como eixo, como "pedra fundamental e angular". E nele que o edifício da fé encontra seu ponto de consistência e credibilidade. E nossa fé é também cristológica, isto é, tem Cristo como chave de leitura e de compreensão de todas as coisas, de todas as realidades, de todo mistério, de todo futuro, de toda esperança. E sobre a fé em Cristo, o filho do Deus vivo, que Pedro constrói sua missão, sua vida, sua morte. Ligar e desligar não e decisão humana arbitrária, mas é a exigência que cabe a Pedro de pensar e discernir segundo Cristo, de ligar e desligar como Cristo o faria. A Igreja não é de Pedro, e de Cristo. "E sobre esta pedra edificarei a minha (a minha) Igreja...... Pedro e seus sucessores precisam pensar como Cristo, julgar como Cristo, desejar como Cristo, a fim de que aquilo e aqueles que foram criados por Cristo e para Cristo, de fato não se percam, como é desejo d'Ele próprio e garantia assegurada por Ele: "Os poderes do inferno jamais conseguirão dominá-la".

5º Dia da Novena Solene - Foto Thiago Leon- Festa da Padroeira 2016

 

Interessante perceber que todo pensamento acerca de Maria, ao longo do caminho da fé, foi em vista de dar identidade a Jesus, de dar razões para se crer nele.

Nossos olhos devem estar sempre fitos em Cristo, o filho de Maria. Interessante perceber que todo pensamento acerca de Maria, ao longo do caminho da fé, foi em vista de dar identidade a Jesus, de dar razões para se crer nele. Todas as perguntas e as respostas postas na direção de Maria e do seu papel na história de Deus conosco foram para assegurar a clareza e a certeza acerca de seu Filho Jesus. Não se pode negar o papel de Maria na vida de Jesus e na vida da Igreja. Nas páginas dos Evangelhos, ela está no início e no fim da vida de Jesus, na anunciação e no calvário; e está no inicio e no fim da Igreja, na sala do Pentecostes e, certamente, na sala do Cordeiro, na gloria, para onde caminha com pressa a Igreja, a bela e enfeitada noiva, clamando: "Vem, Senhor Jesus!"

No caminho da fé da Igreja, sempre houve lugar de especial afeto a Maria. Desde as primícias do Cristianismo assistido pelo Ressuscitado, esta mulher encontrou lugar e atenção. Ela está lá, nos escritos e nas pregações desde a aurora da fé crista; na fina arte dos mais requintados artistas, escultores e poetas; não faltam cantores cheios de devoção e piedade que souberam transformar seu amor em estrofes; não faltam teólogos de requintada inteligência que se debruçaram sobre esta mulher; não faltam santos e santas, pensadores, pastores, papas, homens, mulheres, consagrados e gente do povo; não faltam pessoas e povos em todas as partes do mundo que têm algo a contar, uma reza a ensinar, uma invocação a balbuciar... Maria deixou sua marca em muitos lugares e corações, em muitas formas de auxílio e socorro, em muitas intervenções extraordinárias e bondosas, em muitos eventos envolvidos de mistério, que não foram nem explicados nem negados.

É verdade que, infelizmente, a devoção mariana chega a ocupar, por vezes, um lugar que, para alguns mais críticos, obscurece o lugar próprio de Cristo e devido só a Ele. Se isso pode parecer ou insinuar um desvio num coração que crê, não corresponde à vontade e a missão de Maria junto à fé dos discípulos do seu Filho. Isso são olhares imperfeitos que cabe a Igreja purificar com o Evangelho. A fé é um dom e uma construção. Cabe a Igreja, através de uma sadia catequese, uma consistente pregação, uma madura devoção, apontar Maria como Mãe que conhece, mais que todos, o seu Filho Jesus, que convida a ouvi-lo e a fazer o que ele disse, como em Caná, que não deseja outra coisa senão tomar seus outros filhos semelhantes ao seu Filho do ventre. Numa palavra: uma Mãe que quer levar-nos ao seu Filho Jesus, único e eterno Senhor e Salvador, e n'Ele a comunhão com a Trindade.

Desde a primeira hora da comunidade cristã, Maria e a Igreja se põem uma diante da outra como defronte a um espelho. A mulher do Apocalipse é Maria e é a Igreja. A discípula e a esposa fiel do Cordeiro é Maria e é a Igreja. Receber o discípulo amado e ser recebida por ele sinaliza um vínculo que não se pode deixar de ver entre Maria e a Igreja. "Eis teu filho". "Eis tua mãe". Exatamente nesta ordem. A primeira palavra dirigida à Mãe. A segunda, ao discípulo. Como se o Crucificado quisesse insinuar que o empenho primeiro e maior devesse ser da Mãe, que recebe o "discípulo amado", que ali personifica a Igreja que crê no Crucificado e que com Ele seria uma "Igreja da Cruz", que aguarda tornar a veste nova da ressurreição. 0 discípulo amado, este capaz de crer ao longo de todo o caminho do seguimento, capaz de estar com seu Amado Senhor em todas as circunstâncias, capaz de ir o fim, este discípulo e todos os que cressem como ele, Jesus quer que sejam cuidados por Aquela que creu primeiro, creu mais, creu até o fim. Eis teus filhos. Nossa experiência de fé não nos deixa jamais na orfandade. Ternos Pai, temos um Irmão, temos urna Mãe, temos e somos uma familía.

5º Dia da Novena Solene - Foto Thiago Leon- Festa da Padroeira 2016

É verdade que os pilares da Igreja são os apóstolos. Eles são as testemunhas fundantes da fé, os que beberam do cálice que Jesus bebeu e receberam o batismo que Jesus recebeu, como ensina a conversa de Jesus com os filhos de Zebedeu. Não nos esqueçamos, contudo, de que a primeira que creu e experimentou o Cristo de Deus foi uma mulher, em cujo ventre o Verbo foi gerado; e a primeira a reconhecer o Cristo da glória foi outra mulher, Maria Madalena. Por isso, a Igreja precisa conjugar bem, na sua natureza e na sua estrutura espiritual e histórica, estes dois tipos de presença e de testemunhas. Os pilares são os apóstolos. Sobre a fé e a pregação dos apóstolos, a Igreja se expandiu e cresceu; mas, há uma dimensão de cuidado, de proteção, de hospitalidade, que cabe bem à Mãe Maria. Se os apóstolos são os pilares, Maria garantiria seus cuidados a Igreja inteira na forma e na metáfora de um telhado, uma cobertura, uma cúpula, que nos abraça a partir do alto, do céu, do lugar de Deus e dos que são d'Ele (como esta grande cúpula acima de nos!!). Maria pode ser o telhado que cobre o edifício espiritual da Igreja, a cúpula que guarda a casa de Deus, que é a Igreja. Aí se garante a presença angular de Jesus, a firmeza dos pilares apostólicos e a materna proteção da Mãe, cuja metáfora do "manto que cobre" consegue garantir bem esse perfil feminino e esse lugar de Mãe que cuida dos seus filhos. E como numa construção, a ordem seria exatamente a mesma no edifício da Igreja: primeiro, o alicerce, a pedra, o Cristo; depois, os pilares, os apóstolos; e por fim o telhado, a cúpula, a Mãe que acolhe no abraço para guardar debaixo dos seus cuidados. Se se inverte esta ordem, não se poderia manter de pé a obra nem o Corpo Místico do Senhor. Não se constrói sem base, não se põe telhado sem pilares, não ha proteção sem telhado.

 

Se Senhora parece torná-la grande e do céu, a palavra Nossa a puxa para baixo e para perto. É Nossa, é daqui, é do céu, é minha, é da terra, é Mãe dada e recebida.

Como é bom sentir com a Igreja, num sentimento coletivo e firme, que temos uma Senhora e uma Auxiliadora. E para que o título de Senhora não a tomasse nem grande nem longe demais, aprendemos e acrescentamos urna segunda palavra: Nossa... Nossa Senhora. Se Senhora parece torná-la grande e do céu, a palavra Nossa a puxa para baixo e para perto. É Nossa, é daqui, é do céu, é minha, é da terra, é Mãe dada e recebida. E como uma Senhora Mãe, e ambas nossas, lhe cai bem e oportunamente o auxílio e o socorro que dela esperamos. É Mãe do perpétuo socorro. "Nunca se ouviu dizer que algum daqueles que tem recorrido à vossa proteção, implorado a vossa assistência e reclamado vosso socorro, fosse por vós desamparado", ensinou-nos a rezar São Bernardo. Ela é Senhora porque conheceu, penetrou e vive em profundidade o mistério de Deus, no qual está inserida como a Serva só do Senhor, como a cheia de graça, como a toda dele, a toda bela, a toda santa. E, por isso mesmo, nesta Mulher, que se expande em gestos de misericórdia, da qual lhe impregnou seu Filho, Ele que é a misericórdia, nesta Mãe é louvável e compreensível seu afã feminino e materno de cuidado e auxílio, seus títulos que expressam sua proximidade em todas as necessidades humanas, seus sinais de doçura e de zelo pela humanidade, suas palavras, misteriosamente ouvidas ou pronunciadas por bocas e ouvidos humanos, e que remandam com firmeza as palavras e apelos de conversão do seu Filho Jesus.

Maria e a Igreja são dois esplendores do mesmo mistério de Jesus, Filho da primeira e Senhor da segunda. Que a Igreja aprenda todos os dias de Maria a solicitude de "ir apressadamente" ao encontro de seus filhos, começando pelos menos cuidados pelo mundo; aprenda a curar as feridas do coração humano oferecendo o balsamo da misericórdia que é Jesus; aprenda a ser encarnação de um amor que ama ate doer, ate morrer, ate perder-se para salvar-se! (Amém!)

O Mãe Maria, Senhora Aparecida, do Perpétuo Socorro e do Rosário, não permitas que nossa fé se frágil e tímida a ponto de não querer tocar as chagas de Cristo neste tempo da Igreja, mas faze de cada um de nós discípulos capazes de misericórdia e de amor cuidador. Ajuda-nos, em meio a tanto sofrimento e desumanidade, a cuidar uns dos outros como irmãos, para assim podermos agradar-te e, antes ainda, agradar ao Pai comum. Ensina-nos a ser como Jesus, para que o mundo creia que a fé tem o poder de eliminar os falsos critérios que nos separam e de nos educar para a capacidade de sermos nós hoje e em toda parte as mãos cuidadoras de Deus e as tuas mãos femininas de Mãe, que continuam zelando pelos filhos que teu Filho crucificado quis que estivessem debaixo dos teus olhos misericordiosos, ó Virgem gloriosa e bendita. Amém!

:: 5º Dia da Novena da Padroeira: Confira as fotos

Fotos: Thiago Leon

 

Interessante perceber que todo pensamento acerca de Maria, ao longo do caminho da fé, foi em vista de dar identidade a Jesus, de dar razões para se crer nele.
Se Senhora parece torná-la grande e do céu, a palavra Nossa a puxa para baixo e para perto. É Nossa, é daqui, é do céu, é minha, é da terra, é Mãe dada e recebida.
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