Por Dom Raymundo Damasceno Assis Em Artigos Atualizada em 26 MAR 2019 - 14H02

VII Congresso Mariológico: Palavra do Presidente, dom Raymundo Damasceno

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Caríssimos irmãos e irmãs,

Minhas cordiais boas vindas a todos vós. É uma alegria acolher-vos, aqui no Santuário Nacional de Aparecida, para o VII Congresso Mariológico da Academia Marial de Aparecida.

Com grande satisfação nota-se que as cinco conferências deste Congresso estão tematicamente contextualizadas pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, cujos cinquenta anos estamos comemorando de 2012 a 2015. Após a primeira delas, que aborda propriamente a mariologia no Concílio, as demais aprofundam a recepção e o aprofundamento que essa importante temática teve após o Concílio. É causa de alegria também notar que a dimensão ecumênica da mariologia ocupará um espaço privilegiado das reflexões deste evento, são dedicadas a ela duas conferências.

Com este programa, irmãos e irmãs, se abre diante de nós o panorama do Congresso. De minha parte, quero estimular-vos a prosseguir com dedicação na reflexão teológica a respeito da presença de “Maria na vida da Igreja”, sinal de “graça e esperança”, como nos recorda o tema do Congresso.

A correlação de Maria com a Igreja é um dos dois aspectos fundamentais da perspectiva histórico-salvífica a partir da qual o Concílio Vaticano II repensou e repropôs a mariologia. De fato, o oitavo capítulo da Constituição Dogmática Lumen gentium, sobre a Igreja, se intitula “A Virgem Maria, mãe de Deus, no mistério de Cristo e da Igreja”. Essa perspectiva histórica salvífica na qual se inseriu a mariologia é uma aquisição do aprofundamento da reflexão teológica realizado durante a primeira metade do século XX. Em consonância com a nova abordagem das fontes da teologia possibilitada pelos movimentos Bíblico, Litúrgico, Patrístico, Ecumênico – para citar apenas alguns dentre eles –, ocorre na mariologia um aprofundamento radical que é plenamente acolhido e desenvolvido pelo Concílio.

As suspeitas de que a reflexão católica sobre a Virgem Maria e a piedade mariana popular lançassem sombras sobre o mistério de Cristo são completamente superadas à luz da reflexão conciliar e do belíssimo texto mariológico que ele nos legou. A reflexão teológica e as manifestações devocionais à Virgem Maria, que seguem as diretivas do Concílio, são iluminadas pelo mistério de Nosso Senhor e servem para compreender melhor os efeitos da graça em todos os discípulos de Cristo. Desse modo, após o Concílio e como consequência dele, como afirma o eminente mariólogo que é o Pe. Stefano De Fiores, “o caminho conciliar de renovação leva a colocar novamente a mariologia no coração da teologia e a reabrir o dossiê ecumênico sobre Maria” (“María en la teología postconciliar”, in R. LATOURELLE (ed.), Vaticano II: balance y perspectivas, Salamanca: Sígueme, 1990, p. 313).

Os aspectos mais fundamentais da vida de fé dos discípulos de Cristo e da Igreja são esclarecidos em profundidade quando colocados diante da Virgem Maria. A primazia absoluta de Deus, ao qual se deve a obediência da fé, como se manifesta na Anunciação; a necessidade de conservar com perseverança a Palavra de Deus no coração, como faz Maria logo após a perda e o reencontro de seu Filho no Templo de Jerusalém; a atenção às necessidades dos irmãos e o serviço a eles, como na visita a Santa Isabel e nas bodas de Caná; a centralidade da cruz e da ressurreição na experiência cristã, como se revela na presença da Virgem Maria aos pés da Cruz; a importância da oração perseverante, como é manifesta no Cenáculo, onde a Virgem estava entre os discípulos aguardando a manifestação de seu Filho ressuscitado. Estes são aspectos centrais na vida de fé. Em Maria eles encontram uma vivência de qualidade e profundidade tais, que fazem dela uma modelo permanente para a Igreja, a qualificam como o protótipo da Igreja.

 

a Igreja é Mãe, Esposa e Virgem

Essa afirmação, segundo Yves Congar, um dos maiores teólogos do século XX, significa que “Maria é, na Igreja, mais Mãe do que a Igreja, mais Esposa do que a Igreja, e, pela exceção do pecado original, mais Virgem do que a Igreja [...]. Maria é Mãe, Esposa, Virgem antes que a Igreja e para a Igreja; nela, sobre tudo, e por meio dela, a Igreja é Mãe, Esposa e Virgem” (L’Église de saint Augustin à l’époque moderne, Paris, 1970, p. 465).

Assim como é verdade que uma compreensão da Igreja e da vida cristã precisam desse defrontar-se com Maria para se compreenderem em toda a sua profundidade, é igualmente verdade que o fundamento dessa relação se encontra no próprio Cristo. K. Rahner, outro grande teólogo, nos recorda que “só se pode compreender Maria partindo de Cristo. Quem não partilha a fé católica, segundo a qual o Verbo de Deus se fez homem na carne de Adão, para inserir neste mundo a vida de Deus e para redimi-lo, não pode compreender o dogma mariano católico. Pode-se, inclusive, afirmar que a aceitação do dogma mariano – continua Karl Rahner – indica se se toma realmente a sério o dogma cristológico. [...] Este Jesus, nascido de Maria em Belém é, de modo unitário e indissolúvel, homem verdadeiro e verdadeiro Verbo de Deus, igual ao Pai em sua essência. Por isso Maria é verdadeira mãe de Deus. Só com quem professa sincera e claramente esta verdade a Igreja católica pode continuar falando, com pleno sentido, dos outros dogmas marianos” (“La inmaculada concepción”, in Escritos de teología I, Madrid: Taurus, 1963, p. 224).

Este Congresso aprofundará sobretudo a dimensão eclesiológica da mariologia, como se pode entender pelo tema geral e pelo programa. No entanto, é preciso termos presente a nossa mente essa dimensão cristológica para que o enfoque eclesiológico encontre seu pleno significado.

Uma vez mais, agradeço a todos pela presença, desejo que o Congresso seja uma oportunidade para o crescimento na fé e em Deus, bem como no amor e na devoção pela Virgem Maria. Reunidos aqui neste Santuário Mariano, para o qual peregrinam anualmente milhares de romeiros e romeiras, vos possais sentir estimulados pela oração de nosso povo a prosseguirdes com dedicação a reflexão mariológica. Este é um serviço que prestais à Igreja e ao povo brasileiro.

Agradeço na pessoa do Pe. Antonio Clayton, Diretor Executivo da Academia Marial; do Pe. Domingos Sávio, Reitor do Santuário Nacional, e do Pe. Everton dos Santos Carvalho, Diretor-Geral da Faculdade Dehoniana, todos os organizadores e colaboradores que trabalharam para a realização deste VII Congresso Mariológico.

A todos, muito obrigado!

 

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