Por Côn. José Wilson Fabrício da Silva, crl Em Catequese Atualizada em 02 OUT 2017 - 12H09

A VIRGEM MARIA: Uma pessoa ESSENCIAL que contribui na FÉ e na VIDA DA IGREJA

 Mariologia

No cumprimento piedoso dos exercícios do culto público que a Igreja prescreve para honrar a Virgem Maria, como a celebração de suas festas, o canto de seus louvores, o reconhecimento de suas aparições e a elevação à dignidade de basílicas menores, igrejas a ela dedicadas, nos obrigam a mirarmos o Trono de Deus e a elevarmos nossos corações em forma de agradecimento pelo tão grande dom (a Virgem Maria) que o Senhor deu a humanidade decaída.

A história dos dogmas e da teologia testemunham a fé e a atenção incessante da Igreja em relação à Virgem Maria e sua missão na economia da salvação. Tais fatos manifestam-se já em alguns escritos do Novo Testamento, e, em não poucas páginas nos autores da Patrística.

Os primeiros símbolos da fé e, sucessivamente, as fórmulas dogmáticas dos Concílios de Constantinopla (d.C. 381), de Éfeso (d.C. 431) e de Calcedônia (d.C. 451), testemunham o progressivo aprofundamento do mistério de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, e paralelamente a progressiva descoberta do papel da Virgem Santíssima no Mistério da Encarnação; uma descoberta que conduziu à definição dogmática da maternidade divina de Maria[1].

Podemos nos perguntar: onde achamos o exemplo e o teor do respeito e da honra devida a Maria dentro do cristianismo? Não exageramos em afirmar que devemos partir da Santíssima Trindade mesma; Deus Pai honra-a como sua digníssima filha por ser ela ordinariamente filha de Eva; Deus Filho honra-a e trata-a como sua mãe por meio do seu santíssimo nascimento em Belém; Deus Espírito Santo honra-a como digníssima esposa quando fecunda o seu ventre com a Graça.

A atenção da Igreja em relação a Virgem Maria continuou em todos os séculos, com muitas declarações. Recordamos aqui o grande Santo Agostinho de Hipona, pai e legislador de uma grande família religiosa que atua na Igreja até hoje. Ele dedica em algumas de suas alocuções ou escritos à Mãe do Senhor, certas afirmações que merecem ser pontuadas aqui. Vejamos:

Crê-se comumente que Cristo foi concebido no dia 25 de março e que veio a morrer nessa mesma data. O sepulcro novo no qual ninguém havia sido sepultado é como o seio virginal de Maria, no qual, nem antes nem depois, nenhum mortal haveria de nascer, por contato de varão. (A Trindade IV, 5,9)[2]

 Ainda não se tinha uma sistematização da teologia no século V, tal como a conhecemos hoje, mas graças a atenção especial dada ao Mistério do nascimento, paixão, morte e ressurreição de Cristo, e a Trindade que são pontos centrais de nossa fé, a Igreja à luz da cristologia permite que aconteça um florescimento da reflexão mariológica que foi crescendo na Idade Média, ganhando vigor no século XX, depois do Concílio Vaticano II.

Com a Igreja dizemos que a Virgem Maria é digna de honra e louvor, por causa dos méritos de Cristo, de sua humildade e grandeza, de sua eminente santidade a que chegou, por causa de uma vida colocada a serviço do Reino de Deus. São João Paulo II refletindo sobre as diversas representações da Mãe do Senhor por meio das imagens, afirmou: Maria está representada como trono de Deus, que leva o Senhor e o apresenta aos homens.[3] Chegar a proclamar tão grande afirmação é para a teologia cristã algo revolucionário, pois, pode soar aos ouvidos dos não católicos como inadmissível, mas o santo padre não estava fora de si, ao escrever tal coisa, nem estava contrário à revelação bíblica. O próprio evangelista Mateus registrou em seu evangelho este fato histórico para a fé (Mt 2, 11) que Wojtyla interpreta utilizando a ótica da teologia espiritual.

A Mariologia passou a ser criticada por aqueles que não acompanharam a evolução positiva da teologia cristológica, porque, segundo os críticos, tentou sistematizar uma “teologia” que não condiz com a “Maria da bíblia”. A “Maria da bíblia é uma simples serva do Senhor e uma mulher humilde apenas, que Deus escolheu para conceber e dar a luz a Jesus”, afirma algumas vozes. Mas, sabemos que no plano salvífico da redenção, a Mãe de Jesus ocupa um lugar singular, pois o Filho de Deus é “carne da carne de Maria e sangue do sangue dela”.

Elevar Maria à dignidade de ser respeitada e louvada no seu devido lugar depois de Deus, justamente por causa de seu sim ao Senhor e de sua humildade, não foi uma invencionice da Igreja Pós-era Apostólica, mas partiu do próprio tempo em que Deus fez conhecer a sua manifestação a Zacarias e Isabel. A mãe do Batista perguntou a Deus de onde viria a honra que a “Mãe do seu Senhor” a fosse visitar (Lc 1, 43). Dizer e nem permitir que a Virgem Maria não deve ser honrada com o culto da dulia, é negar a própria divindade de Jesus que fora reconhecido por Isabel como o Kyrios humanado.

Todos têm o direito de não rezar para Maria, nem honrá-la com a devida dignidade que os cristãos católicos orientais e latinos fazem, porém, negar que ela seja a “Mãe de Deus” é pecar contra o próprio Deus. A teologia joanina nos assegura que “Jesus é Deus”: E o Verbo se fez Carne e habitou entre nós (Jo 1, 14).

Não esquecemos a humildade de Maria quando dedicamos a ela como “padroeira” de uma catedral, de uma igreja ou capela; de uma cidade, Estado ou Nação. Ser padroiro(a) é sinônimo de guarda, cuidador, defensor, porque “aquele lugar tem um dono, um proprietário”. Então, o verdadeiro dono ou proprietário daquele lugar é Deus. É Ele o único digno de adoração! O(a) padroeiro(a) apenas cuida, escuta, conserva a unidade em um lugar que já tem Dono.

 

A Virgem Maria não foi um simples “instrumento de Deus”

Quando ouvirmos a expressão de que “Maria não passou de um instrumento de Deus para trazer Jesus ao mundo”, não devemos responder à altura de tal afirmação. Somos convidados a ir mais adiante, pois nossa fé cristã nos ensina que não é só isto. É certo de que no livro de Atos dos Apóstolos, na Igreja Católica iniciante, Lucas procurou não dar destaque a figura de Maria como “Senhora dos Apóstolos”, porque o fato mais importante ali era a vinda do Espírito Santo em Pentecostes, festa da inauguração da Igreja; o testemunho do Ressuscitado; a alegria da Comunidade pela conversão de Paulo e a riqueza do exemplo daqueles que passaram a ser chamados de cristãos pela primeira vez na história (At 11, 16). Porém, o autor sagrado fez questão de dizer que a Mãe de Jesus estava ali (At 1, 14). Ela acompanhava a Igreja com suas preces, pois Aquilo que iria acontecer ali com os apóstolos e algumas mulheres, já havia realizado grandes coisas, primeiro na vida da Virgem Maria no dia da Anunciação. Então, para a “Mãe de Jesus” aquilo não seria nenhuma novidade. Lucas ao citar a presença de Maria no meio dos Apóstolos quer dizer-nos que não podemos separá-la da Igreja.

 

Como Maria se tornou a “Nossa Senhora”?

Dados históricos:

O culto à Virgem Maria está presente já no início da era cristã. Segundo a arqueologia, em Éfeso na Turquia, encontramos perto de uma das sete igrejas do Apocalipse um templo dedicado a Mãe de Jesus no século III (a IV?). Em Roma, onde a história aponta como lugar do martírio de São Pedro e São Paulo, a primeira basílica a ser construída foi dedicada ao Santíssimo Salvador do mundo, logo em seguida a basílica liberiana ou a Santa Maria Maior no século V, dedicada à Mãe de Deus, tornando-se o templo a Maria mais visitado e querido da época, marco histórico do grande Concílio de Éfeso que afirma a unidade da humanidade e divindade de Jesus no ano 431.

Em 1317, o Papa João XXII reconhece a riqueza da oração da “Ave Maria”. Pelo seu valor doutrinal, não podemos deixar de recordar a Bula dogmática Ineffabilis Deus (8 de Dezembro de 1854) do Papa Pio IX que reconhece e proclama o Dogma da Imaculada Conceição. Em 1 de novembro de 1950 o grande Pio XII entrega a Constituição Munificentissimus Deus que definitivamente, assistido pelo Espírito Santo, reconhece e proclama o Dogma da Assunção da Virgem Maria ao céu de corpo e alma. No ano de 1964 a Igreja promulga a Constituição Dogmática Lumen Gentium, cujo capítulo VIII constitui uma síntese mais ampla e autorizada da doutrina católica sobre a Mãe do Senhor, até agora realizada por um concílio ecumênico, nos apontando como devemos olhar para a Virgem Maria.

 Recordarmos aqui por seu significado teológico e pastoral, outros documentos como a Professio fidei (30 de Junho de 1968); as Exortações apostólicas Signum magnum (13 de Maio de 1967); a Marialis cultus (2 de Fevereiro de 1974) do Papa Paulo VI, e a Encíclica Redemptoris Mater (25 de Março de 1987) de São João Paulo II. Com todos estes documentos formam-se uma ótica mariológica na Igreja, capaz de ver a história de Maria entrelaçada com a vida do povo de todas as nações que foram alcançadas pela mensagem do Evangelho de Cristo Jesus.

 

 Dados teológicos:

O senso comum da fé dos fiéis que tem Jesus como o seu Senhor (Fl 2, 11), passou com o tempo a chamar a mãe de Cristo como a sua “senhora”, tendo como base bíblica o ato de entrega que aconteceu a João no alto da cruz (Jo 19, 27).

A Virgem Maria foi escolhida de modo especialíssimo por Deus para cooperar no Plano de Salvação do gênero humano[4]. Chamada a ser a Mãe do Redentor, respondeu a este apelo com seu “sim” (cf. Lc 1,38). O Evangelho nos mostra como ela está presente junto Jesus, indicando-lhe a ocasião para que fizesse seu primeiro milagre, nas bodas de Caná[5]. Por aquele milagre, seus discípulos chegaram à fé no Filho de Maria (cf. Jo 2,11). Porém, repito, foi na cruz que esta Mulher recebeu a missão de ser mãe do discípulo de Jesus, mãe da Igreja (cf. Jo 19, 26), tornando-se a “Nossa Senhora”. Por isto ficou junto aos discípulos, rezando com eles na espera de Pentecostes (cf. At 1,14). Sua missão não sessou! Até a segunda vinda de Cristo, na consumação do Reino de Deus, Maria continua realizando seu papel de mãe amorosa para com toda a Igreja e por cada um de seus filhos.

 Muitos chamam a Virgem Maria de Co-Redentora. Pode soar aos nossos ouvidos como querer forçar demais, colocar a Mãe de Jesus em um posto extremamente elevado, no meio da ação salvadora de Deus que não condiz com a sua dignidade de criatura. Seria igualá-la à divindade de seu Filho que esvaziou-se de si mesmo, chegando a ser sacrificado como um cordeiro (I Pd 1, 18-21) por amor à humanidade. Todo sacrifício que podíamos fazer, jamais chegaria a perfeição. Por isso, Deus preparou uma Vítima perfeita, gerada no ventre de uma mulher: Ele mesmo. Tornou-se um homem (Jo 1, 14) e passou por tudo que nós passamos, mas sem pecar (Hebreus 2, 14-15), oferecendo-se em sacrifício único e perfeito pelos nossos pecados.

O mais importante aqui é compreendermos que não existe nenhuma competição entre Nosso Senhor Jesus Cristo e sua mãe a Virgem Maria. A Igreja entendeu no decorrer da história que dando amor a Mãe de Deus, não estamos diminuindo em nada o amor ao próprio Senhor que morreu, mas vive para sempre.

A Igreja, desde a Era Apostólica creu e proclamou que não há salvação em outro nome a não ser em Jesus (cf. At 4, 12). Quando chamamos a Virgem Maria de Co-Redentora não estamos dizendo que Cristo salvou metade ou 95% da humanidade e Maria salvou a outra parte. Não é isto! Nosso Senhor salvou toda a humanidade, 100%. Deus poderia fazer com que redenção viesse ao mundo por um decreto, um estalar de dedos, mas ele não quis isto. Seria humilhante demais para o homem, e, ao mesmo tempo, não saberíamos como fazer para vencer as batalhas do dia a dia. Se o pecado entrou no mundo por um homem[6], era necessário que essa culpa fosse retirada também por um homem de igual modo.

Quanto ao título Co-Redentora dado a Virgem Maria, reflete toda a participação intensa que ela teve no mistério da Salvação. Certamente, o sofrimento da Mãe do Senhor ao pé da cruz é o motivo mais forte para entendermos este título. A alma dessa Mulher foi transpassada simbolicamente pela imagem de uma espada predita por Simeão na apresentação de Jesus no templo (cf Lc 2, 35). Essa “dor” profetizada sobre a esposa de José por um homem temente a Deus é a ótica teológica necessária para o “senso comum dos fiéis” na Igreja entenderem a co-redenção de Maria. São Bernardo de Claraval, em um dos seus sermões proclamou:

Verdadeiramente, ó santa Mãe, uma espada traspassou tua alma. Aliás, somente traspassando-a, penetraria na carne do Filho. De fato, visto que o teu Jesus – de todos certamente, mas especialmente teu – a lança cruel, abrindo-lhe o lado sem poupar um morto, não atingiu a alma dele, mas ela traspassou a tua alma. A alma dele já ali não estava, a tua, porém, não podia ser arrancada dali. Por isto a violência da dor penetrou em tua alma e nós te proclamamos, com justiça, mais do que mártir, porque a compaixão ultrapassou a dor da paixão corporal. E pior que a espada, traspassando o corpo espiritual, não foi aquela palavra que atingiu até a divisão entre a alma, não foi aquela palavra que atingiu até a divisão entre o espírito: Mulher, eis aí o teu filho? (Jo 19, 26). Oh! Que troca incrível! João, Mãe, te é entregue em vez de Jesus, o servo em lugar do Senhor, o discípulo pelo Mestre, o filho de Zebedeu pelo Filho de Deus, o puro homem, em vez do Deus verdadeiro.[7]

Maria esteve ao lado de Jesus na Manjedoura e na Cruz, do presépio ao calvário, participou de sua oferenda ao Pai em expiação de nossos pecados. A Igreja define efetivamente que nenhuma criatura se pode equiparar ao Verbo encarnado e Redentor; mas, assim como o sacerdócio de Cristo é participado de diversos modos pelos ministros e pelo povo fiel, com a bondade de Deus sendo uma só, se difunde variamente pelos seres criados, assim também a mediação única do Redentor não exclui, antes suscita na humanidade cooperações diversas, que participam dessa única fonte. A criatura mais eminente e subordinada a Cristo é a Virgem Maria. Esta função inferior da Mãe de Jesus, não hesita a Igreja em proclamá-la; sente-a constantemente e inculca-a aos fiéis, para mais intimamente aderirem, com esta ajuda materna, ao seu Mediador e Salvador [cf. Lumem Gentium 62].[8]

 Olhar para Maria com a ótica da co-redenção é crer sem incorrer no erro herético, que ela sofreu o martírio do coração ao mesmo tempo em que Cristo sofria na carne as dores da Paixão. Não é somente porque ela é mãe biológica de Jesus, mas pela fé depositada nEle; não por seus próprios méritos, mas nos de Cristo, Carne de sua carne, Sangue de seu sangue. Repetimos, negar a co-redenção é negar que nós tenhamos méritos de condigno, que possamos nos unir a Cristo e sofrer com Ele pela humanidade.

Novamente insistimos que não há nada de estranho no título de Co-Redentora se analisarmos as palavras de São Paulo ao escrever aos Romanos (8,17), onde somos chamados de “co-herdeiros com Cristo, pois, uma vez que, tendo participado dos seus sofrimentos, também participamos da sua glória”. Veja que nenhum de nós tem condições de ser comparado a Jesus, mas mesmo assim o Apóstolo diz que somos co-herdeiros com Cristo, ou seja, juntos com Jesus receberemos a recompensa, porque também nós participamos de seus sofrimentos. Sabemos que nossa herança não é exatamente a mesma de Cristo e que nem participamos da mesma forma nos seus sofrimentos (de morrermos crucificados), mas mesmo assim ganhamos o título de co-herdeiros. O mesmo acontece com a Virgem Maria: sua Co-Redenção não é a mesma Redenção realizada pelo Filho, mas o título deve ser este por causa da sua singular participação neste mistério. Isto a teologia pode exaustivamente nos ajudar na compreensão. Santo Agostinho no sermão 72 vem afirmar:

Cristo quis assumir para si o sexo masculino, e dignou-se honrar, em sua mãe, o sexo feminino. (...) Caso Cristo se tivesse feito homem sem ter consideração pelo sexo feminino, a mulher teria perdido a esperança, tanto mais, tendo-se em conta que por ela o homem havia caído. Por isso, Cristo honrou a um e a outro sexo, e cuidou de um e de outro. Ele nasce de uma mulher. Não vos desespereis, ó homens: Cristo dignou-se nascer de uma mulher! À salvação que vem de cristo acorram todos. Venha o sexo masculino e o feminino. Na fé, não há distinção alguma.[9]

O Doutor da Graça, mais do que qualquer outro Padre da Igreja, insistiu sobre o papel incomparável de Maria, na redenção da humanidade. Volto ao episódio da Crucifixão de Jesus para dizer que no coração da Mulher tomada por João como mãe (Jo 19, 27) podemos ver o ícone da misericórdia de Deus. Pois somente na Cruz é que entendemos com clareza o cântico de Maria quando aclama no seu Magnificat: Sua misericórdia se entende de geração em geração (Lc 1, 50).

Para nós cristãos, deixar de afirmar que Maria é co-redentora não diminui em nada a sua grandeza diante de Deus. O fato de que ela participou do plano divino da salvação de forma singular é o suficiente para amá-la e honrá-la também de forma especial. Todos nós sabemos que o verdadeiro amor se manifesta na capacidade de doar-se sem medida[10], e ninguém mais do que a Mãe do Senhor pode ser colocado como modelo para a Igreja. Ao lado de Maria colocamos São José pela sua humildade e silêncio. Pois, quase sempre tem ficado escondido na pregação sobre as “glórias de Maria”. Até nisto São José continua dando-nos o exemplo do seu cuidado, para que Jesus e Maria apareça, e ele diminua.

 

São José, o maior pregador do silêncio        

Os cristãos católicos têm grande carinho por São José porque foi depois da Virgem Maria, o homem que viveu humanamente com a Graça de Deus, o próprio Cristo Jesus.

Se desde a eternidade a Mãe do Verbo foi escolhida e predestinada no coração de Deus, assim também, não é perigoso afirmar que José recebeu a mesma missão antes de todos os séculos. Vejamos:

Maria não podia ser mãe de Deus independentemente de José. Essa Virgem, acariciada pelo Eterno antes dos séculos, cantada pelos Profetas, representada por Rainha e heroínas da antiga Lei, necessitava de um companheiro à sua altura; e este esposo não foi outro, além de José, como consta nos Evangelhos. Se dado decreto divino, o Verbo deveria nascer de uma virgem desposada, isto não era possível sem José. (...) No Plano da Redenção entra São José como fator necessário e condição indispensável para o nascimento de Cristo. (...) Como São José é inseparável do seu Filho Adotivo e personagem necessária na obra da Encarnação, podemos afirmar que para esse fim, foi predestinado em união de sua amada esposa.[11]

 

O que vemos aqui é algo grandioso demais para uma criatura, se não fosse pelo próprio desejo do Senhor e aceitação espontânea da pessoa escolhida. Sem José não seria possível falar da Sagrada Família, nem diríamos que o Filho de Deus teve um Custódio e Nutrício tão especial, capaz de pregar sem falar uma só palavra. Nesse sentido, Santo Alberto Magno o exalta dizendo: Fez de seu coração e de seu corpo um templo ao Espírito Santo, no qual ofereceu a si mesmo a Deus e, em si mesmo, a mais perfeita castidade de corpo e alma, no mais aceitável e agradável sacrifício a Deus.[12]

    

Maria sempre presente, inclusive em terras brasileiras

Somos convidados a fazer de nossa casa um território que pertença a Cristo, tendo a Virgem Maria como modelo de vida na fé.

Já ouvimos falar da famosa “Escola de Maria”, nela devemos ser educados na esperança, fé e caridade, afim de vivermos em constante estado de missão, segundo nos pede a Igreja. Peçamos a Mãe do Senhor que nos faça por sua intercessão, sermos apaixonados pela Sagrada Escritura. Para Maria, trilhar o singelo caminho do dia a dia, não significava perder de vista a meta já alcançada, está em Deus.

Toda mãe é a psicóloga da família, assim podemos dizer, pois é aquela que ouve, aconselha, enfrenta o problema de frente. A mãe, quer seja biológica ou do coração, por autoridade de Deus é aquela que dar ordens, que impõe regras e limites. Com Maria não foi diferente. Quando viu que era possível sim, uma intervenção milagrosa de seu Filho, não pensou duas vezes. Apenas deu a ordem: “faça tudo o que ele vai mandar vocês fazerem” (cf. Jo 2, 5).

 Hoje, somos convidados a incluir na lista de milhões de devotos da Virgem Maria, alguns nomes de pessoas simples que se destacaram na história do povo brasileiro pela audácia da fé no poder suplicante da Mãe de Jesus. Falamos dos pescadores João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia. Estes homens nos ensinaram pela humildade e respeito para com a pequena Imagem retirada do rio Paraíba do Sul por suas redes, que a história da salvação precisou daquela “Senhora” representada naquela imagem que inesperadamente veio agarrada naquelas linhas.

Na rede veio a pequenina imagem da Imaculada Conceição, depois vieram os peixes, e desde o ano 1717 continuam a vir graças e milagres da parte de Deus, espalhando-se por todo o Brasil que pede o socorro dos Céus a Maria. Por isso já ouvi dizer, e ouso a repetir que a Imagem de Aparecida saiu do rio por meio de um instrumento de trabalho dos pescadores, para entrar no coração do Brasil, sendo sinal evangelizador sempre atual, de um valor incalculável para esta Nação.

Maria por vontade de Deus foi Lurdes e ao México. Em Aparecida não houve uma aparição a nenhum vidente, mas na pequenina Imagem retirada das águas, vimos a Filha de Deus Pai representada como grávida por obra do Espírito Santo, para dizer que ela nunca vem sozinha. Em outras palavras, Jesus está sempre com Maria e Maria está com Jesus.

Foto de: Thiago Leon

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Está a Virgem Maria em Aparecida de mãos postas
para nos dizer que a nossa meta é o céu.

Está a Virgem Maria em Aparecida de mãos postas para nos dizer que a nossa meta é o céu. Não nos cansemos de caminhar! Precisamos reaprender a ler o Mistério de Aparecida, não com os olhos da análise cética do mundo, mas com a ótica do povo simples que vai a capital da fé do povo brasileiro trocar olhares com a “Mãe do Céu” e derramar as lágrimas suplicantes. Na passarela que dá acesso ao nicho aonde está a Imagem da Padroeira do Brasil, reis e presidentes depõem suas coroas, ricos se igualam aos pobres, poderosos levantam a vista para o alto, tornando-se pequenos com os demais, e os simples são elevados, chegando a terem certeza de que podem ser ouvidos pela tão grande Moradora permanente daquele Santuário.

Ao chegarmos ao final de nossa reflexão somos convidados a olharmos as grandezas de Maria como a Mulher admirável pelo modo que se tornou mãe. Admirável pela autoridade que exerceu legitimamente sobre Jesus Cristo, seu filho e filho de Deus; admirável sobre o Calvário onde associou, de modo perfeito, ao grande sacrifício da Redenção. Neste momento, encerramos nossos argumentos com uma singela oração a Senhora de Aparecida, mãe do Cristo:

Rainha eu creio em vosso poder/ Ó Mãe Admirável eu creio sem ver.
Vossa soberania vitoriosa me dá/ Alento e confiança de que não falhará.
Eu vos amo ó Mãe que sempre me amais/ Eu vos amo também quando nada me dais.
Aumentai a minha fé, a confiança e o ardor/ Em tudo me daí conhecer o vosso amor. Amém.

 Cônego José Wilson Fabrício da Silva, crl

(Membro da Academia Marial de Aparecida)

[1]             Cf. CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA: A Virgem Maria na formação intelectual e espiritual. São Paulo: Edições Loyola, 1989, p.12
[2]             AGOSTINHO, Santo. A Virgem Maria: Cem textos marianos com comentários. 7ª Ed. São Paulo: Paulus, 2014, p. 45.
[3]             Cf. JOÃO PAULO II. Redemptoris Mater. São Paulo: Paulinas, 1970, p.53. num. 32.
[4]             Gêneses 3, 15.
[5]             João 2, 5.
[6]             Romanos 5, 12.
[7]             LITURGIA DAS HORAS: Segundo o Rito Romano. Tomo IV. Vozes: São Paulo, 1999, p.1281-1282.
[8]             CONCÍLIO VATICANO II. Mensagens, discursos e documentos. 2ª. ed. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 421.
[9]             AGOSTINHO, Santo. A Virgem Maria: Cem textos marianos com comentários. 7ª Ed. São Paulo: Paulus, 2014, p. 79.
[10]             GUIMARÃES, Valdivino (Org.). Maria trono da Sabedoria. Aparecida: Santuário, 2015, p. 134.
[11]             Cf. CANTER, R. P. Im. Santa Rita. San José en el Plan Divino. Madrid: Monachil, 1917, p. 47-48. Tradução nossa.
[12]             LLAMERA, Bonifacio. Teología de San José; Madrid: BAC, 1953, p. 160.

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