Por Pe. Antonio Clayton Sant’Anna, C.Ss.R. Em Grão de Trigo Atualizada em 26 MAR 2019 - 12H51

Igreja em saída para as águas profundas

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Homilia: 5º Domingo Comum Ano C- 07-02-16 

Lucas 5, 1-11

                                                                                          

São dois os ciclos fundamentais da Liturgia: Natal e Páscoa. O ciclo da Páscoa é o mais importante. Para ele convergem o Natal e todas as celebrações cristãs. O Natal celebra a encarnação, e a Páscoa a vitória de Jesus sobre a morte e o pecado. Entre o Natal e a Páscoa intercalamos os domingos (páscoa da semana) que ao longo do ano avançam conosco para as “águas profundas” do ser e agir cristão. É o itinerário de contemplação e ação no qual procuramos reviver a prática de Jesus Cristo. Chamados ao discipulado missionário na hora presente, compomos as fileiras da Igreja numa comunidade evangelizadora. Perseverança na prática da caridade e da justiça. Audácia nas iniciativas e avançando sempre para as águas mais profundas, ou seja, os desafios que o mundo faz à Igreja e à sua presença missionária e profética numa sociedade desigual. Reunidos na mesa eucarística para a “partilha do pão”, dela saímos instruídos no anúncio e fortalecidos no testemunho fundamental da fé: o kérigma, ou seja, a vida nova do Cristo ressuscitado.

 Chegamos ao 5º domingo do tempo comum, ano C. O evangelho proclamado nas missas e nos cultos da Palavra em nossas comunidades é a narrativa de Lucas sobre a pesca milagrosa. Não se trata apenas de um milagre. Lucas faz do episódio uma moldura catequética na qual expõe a formação da Igreja santificada pelo mistério de Deus (1ª leitura). E confirmada na História pela Páscoa de Jesus. Ele chamou e enviou os primeiros seguidores, chamado e envio renovados a nós no tempo atual. Leia: Lucas, 5, 1-11.

 A intenção do autor Lucas é descrever aqui as circunstâncias da pesca extraordinária inserindo nela o chamado de Jesus a Pedro e a outros discípulos que tinham a profissão de pescadores. Tiago e João eram sócios de Pedro nessa tarefa. Faz aos três um convite para segui-lo. Não é apenas o registro histórico de um fato. A redação literária expressa dois temas teológicos ou catequéticos. O tema da atividade, missão ou ministério de Jesus. E o 2º tema: o do discipulado. A questão da natureza e essência da vocação cristã. O que é seguir Jesus como discípulo? É assumir a sua missão. É continuá-la no meio dos homens. Lucas quis ensinar a seus leitores que é preciso aprender a ser discípulo. Isso é o “discipulado”: trata-se de um processo de aprendizado para associar-se a Jesus, abraçar a sua causa. No fundo, é a santidade do próprio Deus que Nele chegou ao mundo. (1ª leitura).

Por isso Liturgia da Palavra fala da vocação do profeta Isaías. Ele tem os lábios purificados e abraça a vocação do anúncio. Lucas nos mostra Jesus em ação: pregando, ensinando ao povo. A barca do pescador Simão é o púlpito. Sentado nela à margem do lago de Genesaré, Jesus instrui as pessoas reunidas em grande número. Depois disso, como se fosse dono da barca, manda Simão e seus companheiros avançarem lago adentro e lançarem as redes para a pesca. Esta já fora tentada em inútil esforço. E não era mais a hora certa. Entretanto, Pedro e seus sócios atendem Jesus. Então, aconteceu o inesperado: abundância de peixes. À primeira vista, nossa atenção fica nisso. Houve a pesca fora do comum, tanto pela quantidade de peixes, quanto por suas circunstâncias. Uma pesca feita de dia quando o costume dos pescadores profissionais do lago de Genesaré era trabalhar à noite, como tinham acabado de fazer. Os pescadores conheciam bem sua tarefa e profissão. Mesmo assim confiam em Jesus, que não era um pescador. “Em atenção à tua a palavra, vou lançar de novo as redes” (v.5), lhe diz Pedro.

Ora, os peritos na interpretação da Bíblia acham que a intenção de Lucas não é tanto narrar um milagre. Veem no episódio uma catequese sobre o sentido da atividade de Jesus, a sua missão junto às pessoas e o seu projeto sobre o futuro dos discípulos ou da Igreja. Coisa que já se procurava viver quando Lucas escreveu o Evangelho para comunidades que ele dirigia. Eles se sentiam “igreja”: barca de Jesus e continuidade da sua missão. O diálogo de Jesus com Pedro realça essa interpretação com o chamado vocacional. Impressionado vivamente com o que tinha acontecido, Pedro lançou-se aos pés de Jesus se confessando indigno de estar com ele. Jesus lhe disse: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens” (v.10). E aí ato contínuo acontece o discipulado, o seguimento: “Eles levaram as barcas para a margem do lago, deixaram tudo e seguiram a Jesus” (v.11).

 

Enfim, na barca de Simão e companheiros pescadores Jesus comunga com eles a luta, o cansaço do trabalho e o espaço do chamado vocacional. Inicia-se a comunidade-igreja.

Enfim, na barca de Simão e companheiros pescadores Jesus comunga com eles a luta, o cansaço do trabalho e o espaço do chamado vocacional. Inicia-se a comunidade-igreja. Um grupo pequeno, unido por um objetivo novo totalmente diferente: a missão! Objetivo do qual a pesca abundante é o melhor símbolo. A missão é a tarefa da Igreja e o ministério dela lhe é dado por Jesus: promover uma vida abundante para todos, a partir da palavra animadora e libertadora: “avançar para as águas profundas”. Ou seja, enfrentar desafios acreditando nele, com a humildade e confiança de Pedro, presente na pessoa do Papa Francisco.

 

Olhando para Maria!

 Ela não é personagem da barca no contexto. Ou é? Não foi em seu útero virginal imaculado (santificado pela brasa viva do Espírito) que “aportou” o ser divino-humano do Verbo feito carne? Não pode ela ser comparada à barca, ou o espaço, onde a humanidade descobriu o Messias-Salvador? Não foi ela a Virgem Orante que nos tempos angustiantes e medrosos após a morte de Cristo, esteve no Cenáculo, e ali confortou o pequeno grupo que restava dos discípulos? (Atos, 1, 14). Parece bom e oportuno meditarmos em nossa própria vocação na Igreja e no mundo. Seguir Jesus hoje! Com todas as dificuldades postas a nós pelo mundo atual! Mas, entregues confiantes à intercessão materna da primeira discípula do Senhor, nossa mãe espiritual.

 

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