Por Pe. Antonio Clayton Sant’Anna, C.Ss.R. Em Grão de Trigo Atualizada em 26 MAR 2019 - 12H48

O que interessa na vida é a opinião de Deus

lazaro

LC 16,19-31

Nesse Dia da Bíblia é oportuno relembrar o significado espiritual do domingo. O papa São João Paulo II preocupado com a vivência da mística pascal falava da urgência da comunidade cristã redescobrir o valor do Dia do Senhor. Na sociedade secularizada, o cristão corre o perigo de viver o domingo apenas segundo a mentalidade de consumo da cultura atual. Aí o domingo é somente o “fim de semana”. Mas, na cultura da Igreja e da Bíblia, o domingo deve ser a “Páscoa da Semana”. É o reencontro com o mistério do Cristo Ressuscitado. Ele continua derramando em nós a força do seu Espírito. Com ela podemos discernir os sinais de vida e os sinais de morte presentes em nosso tempo. O contexto cultural não nos ajuda a viver o 3º mandamento da Lei de Deus que é Guardar os domingos e dias santos. Deve-se cultivar o domingo como dia da páscoa, ou seja, o gozo da “independência espiritual”.

As leis civis tem pouca força para educar os instintos grosseiros do coração humano. Elas apenas regulamentam os conflitos ou harmonizam os interesses. As leis injustas (e quase sempre o são) produzem e mantém as diferenças econômicas e sociais, é certo. Mas nós também, com atitudes egoístas e mesquinhas, nos apegamos tanto aos bens econômicos e à sua posse, dando origem às injustiças de uma sociedade que tão somente explora e consome. O brilho dos bens materiais cega às vezes nosso juízo interior. E a posse, ou pior, o acúmulo ambicioso das coisas fecha o nosso coração à solidariedade com os irmãos necessitados. Sem o discernimento espiritual, sem os valores éticos, haverá de um lado, cada vez maior ganância e ambição; e de outro, um número crescente de excluídos e pobres.

Então, é-nos impossível separar o ensino de Jesus das questões sociais, as suas palavras dos problemas por nós vividos, como no caso do conflito entre pobres e ricos. Pobreza e ou riqueza não garantem por si mesmas o futuro bom, a certeza da felicidade. Sem a luz da Palavra de Deus um grande abismo se abre e separa a vida humana e social do Reino inaugurado por Jesus. Em si e por si o progresso, mesmo admirável, é incapaz de atravessar esse abismo. A parábola do rico injusto e do Lázaro excluído é um alerta às estruturas sociais injustas. Por ela Jesus faz severa advertência sobre o esquema social de ganância e ambição inerente às injustiças políticas e sociais. Vão acumulando os bens materiais nas mãos de poucos à custa do sofrimento e exclusão de muitos. Daí surge a desigualdade, a discriminação das pessoas por classes, posição social, riqueza e poder. Daí vem a divisão insuperável entre ricos e pobres. Daí nasce a insensibilidade humana e moral desatenta à distribuição justa dos direitos de cidadania. Ler: LC 16,19-31.

A finalidade da parábola é provocar o discernimento. Ou seja, a capacidade para fazer um juízo claro sobre uma situação ética. Aqui, uma situação ética restrita às relações sociais injustas e desumanas. No caso, a parábola ajuda a discernir como e porque a atenção aos necessitados condiciona a nossa felicidade. Antes, desenha-se o problema do contraste social imoral: a separação entre ricos e o pobres. O pobre tem nome: Lázaro. O rico não. Já começa nisso o discernimento, pois Lázaro, nome do pobre para o qual o rico nem ligava, significa: Deus está ajudando. E o rico sem nome imaginava ser ajudado por suas riquezas e estilo de vida, esbanjando sua vida no luxo e no prazer... “banqueteando-se todos os dias” (v.19). De fato; a situação do Lázaro na terra era bem triste: ao corpo cheio de feridas; ou, um homem detestável, impuro socialmente. Visto igual aos cães, misturado com eles que lhe lambiam as feridas. (v.21). Na Bíblia o cão é mal visto: animal impuro. Faminto, Lázaro só comia, ou melhor, desejava comer as sobras de pão que os convidados do rico jogavam em baixo da mesa, após enxugar os dedos ou limpar os pratos. Enfim, era um representante da exclusão social extrema!

Continuando o exercício do discernimento, a parábola iguala o rico e o pobre com a morte, mas os separa na sorte final. Inferno para o rico sem compaixão. Céu (seio de Abraão) para o pobre Lázaro. Sorte que é impossível mudar! Apesar de todas as imaginações e poder com dinheiro, segurança e prazer, os ricos não garantem a felicidade futura. E perdem tudo. Por quê? Por que impossibilitam a comunhão de vida, a justiça e a convivência fraterna já aqui na terra. Quando mais na outra vida! E tudo o que acumularam gananciosamente não os ajudou a discernir o objetivo final da vida! O diálogo imaginário entre o rico agora infeliz para sempre e Abraão cujos méritos beneficiavam o pobre Lázaro, apenas confirma a lição. Riqueza, prazer e poder acumulados ao máximo prejudicam fatalmente o discernimento para uma vida boa, aqui e no futuro.

Que Maria, integrante da categoria social bíblica: a pobre de Javé, nos ensine e ajude a administrar o “Dia do Senhor” com sabedoria, bom senso e vivendo na alegria de quem pratica a misericórdia ensinada por seu Filho e, assim, aguarda o prêmio da felicidade eterna com Ele.

Seja o primeiro a comentar

Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.

0

Boleto

Anterior
Próximo
Reportar erro! Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou
de informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:

Por Pe. Antonio Clayton Sant’Anna, C.Ss.R., em Grão de Trigo

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente.