Por Pe. Antonio Clayton Sant’Anna, C.Ss.R. Em Grão de Trigo Atualizada em 26 MAR 2019 - 12H50

Só o amor constrói um novo céu e uma nova terra

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Homilia 5º Domingo Páscoa- Ano C
João, 13, 31-35 

À mesa com seus discípulos na Última Ceia Jesus chamou-os de ‘filhinhos’. Na tradição judaica o pai devia explicar aos filhos o sentido do ritual pascal. O clima era de despedida e Ele deixou aos seus como que um “testamento espiritual”: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. Qual seria a diferença desse amor, chamado novo, daquele vivido no dia a dia por nós?

O coração humano deseja receber glórias e honras. Ter importância e distinção perante os outros. Vivemos na “cultura do sucesso”. Alcançar sucesso em tudo, o mais rápido possível e a qualquer preço! Colocado como objetivo do viver isto incentiva mais o egoísmo que o amor, pois não contribui para a autêntica formação do caráter e falseia as relações de fraternidade e pode minar o amor até levar ao fracasso um casamento. A cultura egoísta do sucesso tem comprometido os direitos da cidadania. Basta observar o exemplo deprimente de muitos políticos, hábeis em buscar a própria glória através das funções públicas. Defendem-se das suspeições de desvios de verbas e dinheiro público invocando uma conduta ilibada e honesta a toda prova. Mas, o Brasil naufraga cada vez mais na corrupção política, sequela da corrupção ética e moral fruto podre do egoísmo cevado na ambição de glória, prestígio social, privilégios e dinheiro.

 O Evangelho todo e particularmente a Última Ceia registram a cultura do serviço por amor inculcada por Jesus. No Lava-pés, no ministério, nas relações com os outros e com Deus. Ensinou que o sucesso e a grandeza do homem estão em glorificar a Deus no jeito de viver. Conhecer e abraçar o seu projeto divino salvador promovendo a vida em todos mediante a prática da caridade, da justiça, da acolhida a qualquer pessoa por ela mesma e não por sua importância social. Viver o amor a Deus é profundo humanismo. Mas, só acontece em linha indireta, ou seja, amando Deus nos outros. Sem interesses de retorno social, econômico, sem o “toma lá, dá cá”. Jesus viveu ao máximo esse amor e o revelou possível a nós. Ele, o homem perfeito, legou-o como herança aos discípulos o seu próprio jeito de amar que faz nascer e sustenta as comunidades cristãs no mundo inteiro. Leia: Jo 13, 31-35.

 

O “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, é o legado de amor vivido por Jesus

O “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, é o legado de amor vivido por Jesus e deixado aos seus antes de partir. Partir, no texto de São João, significa doar-se por amor na renúncia de si, até mesmo a vida no sofrimento. Mas, Jesus anunciou que a hora de sua morte seria o momento máximo da manifestação de Deus e sua misericórdia à humanidade inteira. A revelação plena do projeto divino dado a conhecer na pessoa e no ensino dele, Jesus. Ficaria manifesto o poder soberano de Deus que salva exatamente quando parecia total e irreversível o fracasso. Estava tramada a traição por Judas e era iminente a condenação à morte na cruz. “Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele. Se Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo.” (v. 31s), assim o prevê Jesus.

Tais palavras de do Senhor deixam-nos entrever um triunfo, mas avesso ao dos homens, à glória humana. O prestígio dele é estar em plena sintonia com o querer de Deus. O máximo triunfo se verificará na máxima derrota: a cruz! Essa será a “hora do Filho do Homem”. Isto quer dizer, todo homem obediente a Deus amando os outros até o extremo sem nenhum tipo de interesse, vai se realizar plenamente porque acontece para a glória de Deus.

Assim pensava a comunidade cristã desde o começo da Igreja. Temos aqui a reflexão teológica dos primeiros tempos da Igreja trabalhando em comunidade os dados da fé. Fé em Jesus transmitida por seus fiéis apóstolos. A reflexão reorientava a prática. Era preciso ser fiel ao amor de Jesus livrando-se e purificando-se de todo amor egoísta e interesseiro. O critério absoluto capaz de proteger e salvar o amor humano de interesses suspeitos por sexo, vaidade, beleza, glória, dinheiro e poder é este novo mandamento de Jesus: “Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”. (v.34).

As atitudes de Nossa Senhora acenadas nos Evangelhos nos revelam uma pessoa totalmente despojada de si porque dócil ao que Deus queria dela. Maria está ao lado do Filho nas horas mais difíceis, desde o nascimento na gruta em Belém. Não há uma única menção a uma possível presença dela quando Jesus é o centro do entusiasmo do povo. A grandeza da Mãe foi percebida implicitamente pela sensibilidade feminina. O elogio simples e espontâneo de uma mulher anônima que no meio do povo ouvia a Palavra do Filho exaltou Maria: “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram” (Lc 11,27). O melhor testemunho da presença cristã na sociedade tão seduzida, insegura e decepcionada por amores inconsistentes é acreditar e viver o jeito de Jesus amar. Nele está o verdadeiro culto a Deus e o perfeito humanismo.

 

O “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, é o legado de amor vivido por Jesus
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