Por Pe. Antonio Clayton Sant’Anna – CSsR Em Homilias

Homilia 27º Domingo Comum Ano A – A vinha saqueada

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Homilia 27º Domingo Comum Ano A

A vinha saqueada

(Mt 21, 33-43)

Expressamos nossos pensamentos, ideias, juízos, emoções e sentimentos com palavras que os descrevem no sentido direto ou com palavras simbólicas. Com linguagem normal ou figurada. Dizer as coisas, expressar os sentimentos de modo criativo em comparações, figuras, símbolos faz parte da literatura em todos os países, culturas e tempos. A Bíblia tem inúmeras passagens desse recurso literário usado pelos escritores sagrados quanto às ações divinas. Os profetas falavam em “vinha de Javé”, ou “vinha do Senhor”, realçando desse modo a Aliança entre Deus e o povo. Jesus empregou dezenas e dezenas de parábolas propondo aos ouvintes uma nova maneira de viver conforme o reinado de Deus. Se não estiver atento às imagens, figuras, símbolos e metáforas da Bíblia, dificilmente alguém fará uma interpretação correta da Palavra de Deus. E fechar-se no sentido literal ou ler tudo ao pé da letra é desfigura-la. É pura imaginação dizer que o sentido será aquele que Deus inspirar ao leitor ocasional num momento qualquer. Essa pretensão bem subjetivista anularia a utilidade comunitária das Escrituras. Mas, sempre é importante rezar antes da leitura e invocar as luzes do Espírito Santo para se chegar à boa interpretação do texto, pois nos aproximamos dele mais com a fé na revelação divina do que com a nossa fraca ciência. Sem oração a leitura, o estudo, a reflexão da Bíblia vai se tornar estéril. Vale perguntar-se: O que o texto diz por si mesmo? O que ele diz para nós hoje? O que o texto me faz dizer a Deus? A parábola de Jesus sobre os vinhateiros desonestos e homicidas, em Mateus, 21, 33-46 é uma rede de simbolismos. (É bom ler antes!)

O arrendamento de uma vinha a vários agricultores com a posterior divisão da colheita era um tipo de negócio muito em uso na Palestina bíblica. Ricos proprietários estrangeiros possuíam terras férteis e as arrendavam a moradores da região. No caso descrito por Jesus arrendatários inescrupulosos descumpriram o contrato e na colheita não entregaram os frutos ao dono, apesar de sua insistência. Não só isso. Agrediram com extrema violência e até com a morte os cobradores enviados, chegando ao ponto de matar o filho herdeiro da vinha, com a intenção de apossar-se dela. Ora, os líderes religiosos eram versados nas Sagradas Escrituras e as ensinavam ao público. Solicitados a opinar que tipo de justiça o caso exigia, os adversários de Jesus pensaram de imediato no castigo mais severo possível para os vinhateiros homicidas. A elite religiosa era formada por ricos proprietários que tinham negócios e contratos de trabalho. Mas, não atinaram na hora que a parábola lhes assentava como “carapuça”. Jesus denunciava os pecados e infidelidades deles. Versados nos profetas era-lhes familiar a figura do vinhedo bonito como símbolo da Aliança com Deus e da esperança messiânica. Logo, ao menos deviam conferir na pregação e no modo de ser de Jesus se estavam sendo cumpridas as profecias. Ao contrário! Havia confronto obstinado por parte dessa elite que tinha o controle do Templo, das sinagogas e da vida civil. A recusa raivosa dos mestres da Lei ou grandes proprietários (anciãos) mudou-se em ódio e daí ao plano de matar Jesus foi só um passo. Esse é o pano de fundo simbólico da parábola.

De um lado ela retrata a história da salvação presente na história do povo escolhido. No Antigo Testamento, Deus enviara mensageiros e tudo fizera por seu povo (sua vinha) e para levar os líderes a produzirem frutos de justiça. De outro lado, a parábola representa a profissão de fé vivida nos inícios da Igreja, nos tempos de Mateus. A comunidade cristã se tornara consciente de ser o novo povo de Deus. A fé em Jesus Cristo ressuscitado fizera da Igreja a vinha restaurada, substituindo o antigo Israel. Daí a citação do salmo 118,42 num tom catequético: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular: isto foi feito pelo Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos.”

Aplicação mariana

Deus quis “plantar sua vinha” no mundo através de um povo, em dada cultura, num determinado momento histórico (plenitude dos tempos- Gl 4,4). A revelação divina assumiu uma dimensão mariológica. A Virgem foi solicitada e aceitou encarnar e cuidar da “semente antropológica” do Senhor. Ela gerou o fruto bendito do Verbo. Na encarnação de Jesus, Maria é a representante de todos nós, chamados a formar na Igreja a verdadeira vinha do Altíssimo e produzir seus frutos neste mundo. Enquanto o Filho (dela e do Pai) não vem buscar aqueles frutos esperados, esta Mãe nos ensina e ajuda a imita-la na fidelidade a toda a prova. “Sem Maria não existe Jesus: nem em si mesmo, nem em nós”. “Nós não podíamos ser Jesus sem o “sim” de Maria, que aceitar dar-nos a carne de Jesus, e com isto, ela nos consagra”. (Chiara Lubich).

 

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