Por Dom Darci José Nicioli, C.Ss.R. Em Homilias

Homilia da Missa de Reinauguração da Matriz Basílica

Restauro Matriz_1 - Deniele Simões JS

 

Já vai longe no tempo o trabalho de restauração da Matriz Basílica. Estamos labutando desde fevereiro de 2004 e hoje, com alegria, celebramos a conclusão parcial das obras… Parcial, porque ainda faltam o corredor de passagem para a veneração da imagem e a sacristia. Mas o trabalho da restauração propriamente dita – de trazer à luz o templo edificado entre os anos de 1844 e 1888, a chamada Igreja do Frei Joaquim de Monte Carmelo – celebramos hoje sua feliz conclusão.

A História da devoção à Senhora Aparecida pode ser contada a partir das Igrejas que lhe foram construídas, nesses quase 300 anos de história. Podemos afirmar que o primeiro oratório que acolheu a imagem foi o coração e as mãos calejadas do pescador João Alves. Depois, aquela vila de pescadores, onde moravam os outros dois que participaram da pesca milagrosa, Domingos Garcia e Filipe Pedroso, iniciou atividades devocionais entorno a um oratório familiar. É sabido que aumentava o numero de devotos e Atanásio, filho de Filipe Pedroso, que havia acolhido a santa em sua casa, construiu-lhe uma primitiva capela de ‘pau a pique’, nas imediações da estrada do Itaguaçu. Por significativos 28 anos a imagem foi custodiada, tão somente, pelo povo devoto! Mas a devoção nesse tempo já havia conquistado o coração dos brasileiros, particularmente nos Estados de São Paulo e Minas Gerais, depois se espalharia para o Centro Oeste e para o Sul. Como a devoção e fluxo de peregrinos só aumentava, o zeloso vigário de Guaratinguetá Sp., Pe. José Alves Vilela, com licença do bispo do Rio de Janeiro, Dom Frei João da Cruz, construiu a primeira Igreja dedicada oficialmente a Nossa Senhora Aparecida. Assim, aqui no alto desse morro, chamado morro dos coqueiros, no dia 26 de julho de 1745, festa da Senhora Sant’Ana, aconteceu a solene benção do Templo. Importante ressaltar que, naquele dia, nascia também o povoado que deu origem a futura cidade de Aparecida. Até podemos dizer que o fundador desta cidade é o Pe. José Alves Vilela, no dia da inauguração da primeira capela oficialmente dedicada a Nossa Senhora Aparecida. Era uma Igreja simples, de ‘taipa de pilão’, e dela somente permaneceu os alicerces que sustentam esse atual Templo. Sobre esta Igreja, que abrigou a Imagem Milagrosa de Nossa Senhora Aparecida e o povo devoto por 101 anos (1745 a 1845), construiu-se o Templo que os trabalhos de restauração esmeraram –se por recuperar.

Ah! A Matriz Basílica ou, carinhosamente, Basílica Velha, tem mesmo uma longa história… Quanto trabalho, sacrifícios, renúncias e mesmo sofrimentos… Assim é a Obra de Deus! Já dizia o saudoso D. Antônio Ferreira de Macedo, bispo coadjutor de Aparecida e Missionário Redentorista, responsável pela construção do Santuário Nacional: “ A Basílica de Aparecida foi construída com o palpite dos abastados, a crítica dos homens de Igreja e a oferta do povo devoto!”. E assim é, até hoje!

NA origem da história humana está presente a dimensão do sagrado. O culto acompanha o homem e a mulher desde que eles se entenderam por gente. Os símbolos religiosos funcionam como agentes de comunicação entre Deus e o homem, entre o finito e o infinito, entre o eterno e o temporal… Os símbolos religiosos são uma força de mediação: uma pessoa, uma palavra, uma imagem, o Templo como lugar de oração, aproximam o homem de Deus. Deus fala ao homem… Deus age na história para fidelizar aqueles e aquelas que Ele criou como seus filhos e filhas… Deus não nos abandona à própria sorte e este Templo é uma prova irrefutável disso, da sua predileção amorosa por nós.

Ouvimos nos textos bíblicos apenas proclamados, desde o Antigo Testamento até os Evangelhos: Deus armou sua tenda entre nós! Não mais sacrifícios, mas um coração contrito… A renovação da aliança de amor – vós sois o meu povo e eu sou o vosso Deus! – agora se dá na aceitação de Jesus Cristo como nosso salvador, aquele que se fez altar e cordeiro, para resgatar o que estava perdido. O altar supremo é a Cruz de Cristo e, agora, atualizado no sacramento, é a mesa da Eucaristia. A Jesus, o Deus amor, devemos oferecer um ‘perene sacrifício de louvor’. E o culto verdadeiro não se restringe a um lugar, é universal e nos compromete como irmãos… Por isso cantamos: nosso altar tem um jeito de mesa e aqui somos um só coração… Que esta festa nos dê a certeza: não teremos mais mesas sem pão! A glória de Deus é o bem do homem! ( S. Irineu).  É preciso adorar a Deus com uma devoção sincera, inspirada pelo Espírito Santo.

Para tanto este Templo foi levantado e agora recuperado, em todo o seu esplendor. Deus armou a sua tenda entre nós e, por Cristo, com Cristo e em Cristo, reúne sua família, a Igreja. Aqui é ‘morada de Deus’, ‘casa de Maria’, ‘encontro de irmãos’!

Observem a beleza… A beleza salva! Vejam os detalhes próprios do estilo barroco, o douramento das talhas em cedro, trazidas da Corte de então, no Rio de Janeiro: balcões, janelas e adornos sacros. No rico teto as pinturas que retratam os primeiros milagres! Contemplem as imagens em seus nichos, trazidas da Bahia… O belo altar mor importado da Itália, lavrado em mármore de Carrara. Sob o altar o significativo relicário retratando São Vicente, mártir romano, trazido de Fermo, na Itália, em 1910, por D. Duarte Leopoldo e Silva. D. Duarte foi o primeiro Arcebispo de São Paulo e sua efígie está reratada no medalhão fixado no Presbitério. Era grande devoto, consagrou esta basílica em 1909 e muito se esforçou para que Nossa Senhora Aparecida fosse declarada Padroeira principal do Brasil, como ocorreu por decreto do Papa Pio XI, em 1930.

Vejam o Gonfalone, símbolo que identifica uma basílica. Basílica é título dado a um Templo que se distingue pelo movimento de fiéis, pelo culto e pelo trabalho pastoral realizado. O Gonfalone, no formato de um ‘guarda sol’, indica que no Templo todos os fiéis estão sob a Graça de Deus e a intercessão dos Santos e de Maria, Mãe de Deus e da Igreja. Traz as insígnias da Arquidiocese de Aparecida, as Pontifícias e o emblema da Virgem Maria, a quem a basílica é dedicada.

Observem o Tintinablo, outro símbolo basilical, traz o emblema pontifício e um pequeno sino chamando-nos à comunhão: uma só fé, um só batismo, um só pastor… Um só Deus e Pai de todos. É a Igreja de Cristo, cujo vigário na terra é o Papa, sucessor do apóstolo Pedro, primeiro no colégio dos apóstolos, sinal da unidade e da catolicidade (universalidade) da Igreja.

No centro do Presbitério o ‘altar da celebração’, que está sendo sagrado no dia de hoje… A mesa do pão e a mesa da palavra… É Cristo presente! Por isso o altar é beijado, osculado, no início da celebração. Na Palavra e no Pão, ambos partilhados, a ação salvífica de Cristo é renovada, atualizada: fazei isto em memória de mim! É a Eucaristia, sacramento do amor maior! O Altar é Cristo: pedra do sacrifício e mesa da comunhão!

De todas essas belezas, a maior e a mais significativa, é a presença constante e expressiva dos fiéis devotos. Milhares e milhares, por anos a fio, devotos de todas as classes e etnias, abastados e pobres, imperadores e plebeus, letrados e incultos, absolutamente todos que aqui rezam, pedem e agradecem pelas mãos carinhosas da Mãe Aparecida… Esse é o maior encanto, a maior riqueza, a maior beleza dessa Igreja. Mais que riqueza pictórica, essas paredes estão impregnadas de oração! Bendito seja Deus e bendita seja sua grande Mãe, Maria Santíssima, a Senhora de Aparecida!

Esse é o Templo, a Matriz Basílica, a Basílica Velha, que hoje vemos restaurada: “Sinos que comovem… Música polifônica que eleva corações em preces… Torres que apontam para o infinito… Templo onde Deus habita… Casa de Maria, onde o peregrino encontra socorro e graça de que necessita!

Termino relembrando as Palavras de São João Paulo II, quando esteve em Aparecida, em 1980, atualizando-as para o dia de hoje:

Nossa Senhora Aparecida, abençoai este Santuário e os que nele trabalham. Abençoai este povo de Aparecida e a nação devota que aqui ora e canta. Abençoai todos os vossos filhos e filhas, especialmente a família Campanha dos Devotos, comprometida com a obra evangelizadora, a partir de Aparecida. Abençoai a Igreja, a Arquidiocese e o nosso querido Brasil. Amém!

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