SANTUÁRIO NACIONAL DE APARECIDA, 03/4/2015
Hoje, Sexta-Feira Santa, celebramos a Paixão e Morte de Jesus na cruz.
Hoje e amanhã não se celebra a eucaristia. São dias de silêncio, meditação, agradecimento, contemplação de Jesus morto na cruz, enquanto aguardamos a celebração da eucaristia na noite da Páscoa, mas podemos nesta celebração comungar do Corpo do Senhor entregue por nós.
O centro da celebração de hoje é a cruz de Cristo e a cor litúrgica é o vermelho, cor do sangue de Jesus, derramado, livremente, e por amor, por toda a humanidade.
As leituras que escutamos há pouco e a adoração da cruz que faremos, em seguida, nos convidam a meditar e a contemplar, silenciosamente, emocionados e agradecidos, Jesus pregado na cruz para nos libertar do pecado e nos reconciliar com Deus. Numa sociedade tão barulhenta em que vivemos, a Igreja nos convida, particularmente, neste dia, a valorizar o silêncio, o recolhimento e a contemplação.
“Deus tanto amou o mundo, que entregou seu Filho único não para julgar o mundo, mas para que o mundo se salve por meio dele” (Jo 3, 16-17).
O profeta Isaías anuncia um Servo sofredor que vai se entregar pelos pecados do mundo, sendo ele o santo, o justo, o inocente. “Foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes; a punição a ele imposta era o preço da nossa paz, e suas feridas o preço de nossa cura” (Is 52,5).
O autor da Carta aos Hebreus nos diz que este Servo sofredor, anunciado por Isaías é Jesus Cristo e nos descreve também a dor e o fracasso da morte de Cristo com palavras que os evangelistas não haviam utilizado. “Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte. E foi atendido por causa de sua entrega a Deus” (Hb 5,7).
A narração da Paixão que neste dia é sempre a do evangelho de João nos mostra que Jesus sofreu não só por nós, mas conosco e muito mais do que nós. Salvou-nos não permanecendo nas alturas, mas assumindo toda a nossa dor. “E por nós homens, e para a nossa salvação, desceu dos céus. Por nós foi crucificado, padeceu e foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia.” A paixão é apresentada por João como a hora de Jesus, o momento para o qual se dirige toda sua existência, o coroamento de sua obra salvadora. Consciente de ter cumprido perfeitamente a missão que o Pai lhe entregou, Jesus exclamou: “Tudo está consumado.” E inclinando a cabeça, entregou o espírito.” A presença de Maria e do discípulo amado, na narração de João, completa a identidade da comunidade cristã, que nasce da cruz e se alimenta dos sacramentos do batismo e da Eucaristia, simbolizados no sangue e na água, jorrados do lado traspassado de Jesus e em Maria como mãe.
Na cruz de Cristo está presente toda a dor da humanidade, a nossa dor. A paixão de Cristo se prolonga na solidão dos idosos; nas vítimas da violência e das guerras; nas vítimas da injustiça social; nos que sofrem discriminação pela etnia, pela religião, pela condição social; nas crianças e adolescentes vítimas do trabalho escravo ou de abuso sexual; nos mendigos e povo de rua; nos desempregados; nos encarcerados submetidos a condições desumanas de vida.
A morte de Jesus não foi fruto do azar, do destino. Pertence ao mistério de Deus, como o explica São Pedro aos judeus de Jerusalém, no dia de Pentecostes: “Jesus de Nazaré, entregue segundo o plano previsto por Deus, vós o crucificastes pela mão de gente sem lei, e o matastes” (At 2,23).
Ao entregar seu Filho por nossos pecados, Deus manifesta que seu desígnio sobre nós é um desígnio de amor benevolente que precede todo mérito de nossa parte: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas ele nos amou e enviou seu Filho para expiar nossos pecados” (I Jo 4,10). A prova de que Deus nos ama é que sendo ainda pecadores, Cristo morreu por nós” (Rm 5,8).
Ao contemplar Jesus cravado na cruz, devemos contemplar não só o seu sofrimento, mas a sua prolongação na humanidade e na nossa própria vida, mas sempre dentro da perspectiva pascal, do duplo movimento de morte e vida. A cruz foi a condição pela qual Jesus nos mostrou o seu amor e o sofrimento é caminho para nos unir a Ele e chegar a plenitude da vida.
A Sexta-Feira Santa aponta para a Vigília da noite de Sábado e para o Domingo da Ressurreição. A última palavra na vida Jesus, como também para nós, não é a dor nem a morte, mas a vida, a felicidade plena em Deus.
Diante de tua cruz: nós te recordamos Jesus, percorrendo a Palestina e aproximando-te dos pobres, abrindo os olhos aos cegos, renovando a esperança e chamando a mudar a vida e o mundo, anunciando o amor sem medida de Deus Pai.
Diante de tua cruz, Jesus, recordamos tua fidelidade até o fim, tua entrega sem limites. Contemplamos teu rosto dolorido, que reflete o rosto dolorido de toda a humanidade e junto a Maria, tua mãe, expressamos nosso agradecimento, nosso amor, nossa fé.
E com fé, Senhor Jesus, queremos te seguir, porque cremos que teu caminho é o caminho da vida. Cremos, Senhor Jesus, que teu amor venceu a morte e agora ressuscitado, estás conosco para sempre.
Dom Raymundo Cardeal Damasceno Assis
Arcebispo Metropolitano de Aparecida
Presidente da Academia Marial
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