Palavra do Associado

Cristofania – Do Antigo Testamento às Aparições da Virgem Maria

Escrito por Academia Marial

05 MAR 2022 - 00H00

“No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus. No princípio estava ela com Deus. Tudo foi feito por ela e sem ela nada se fez de tudo que foi feito. Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens”. (Jo 1,1-4)



Cristofania é entendida pela Santa Igreja como uma manifestação não física de Jesus Cristo. A palavra Cristofania “vem do grego Χριστός (Christos) e a desinência "-phany", que vem do verbo grego φαίνειν (phainein), "trazer à luz, fazer aparecer, mostrar". Este substantivo é derivado por comparação direta com o termo Teofania”.¹ Na sua forma mais tradicional o termo se refere às visões ou aparições de Cristo que ocorreram logo após sua Ascensão ao Céu (Mc 16,15-20). Um grande exemplo de Cristofania após a Ascensão é a luz brilhante que Paulo de Tarso (Turquia, séc. 1º) vislumbrou no momento de sua conversão: “Ora, aconteceu que, na viagem, estando já perto de Damasco, pelo meio-dia, de repente uma grande luz que vinha do céu brilhou ao redor de mim. Caí por terra e ouvi uma voz que me dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Eu perguntei: Quem és tu, Senhor? Ele me respondeu: Eu sou Jesus, o Nazareno, a quem tu estás perseguindo”. (Atos 22,6-8)

Mas não somente após a Ascensão. Algumas aparições de Anjos no Antigo Testamento são identificadas por alguns cristãos como sendo prefigurações cristológicas, nas Teofanias do Antigo Testamento, e frente a essas Teofanias alguns dos santos padres fizeram uma analogia com a Encarnação do Verbo.

Justino Mártir (100-165), que é considerado um dos primeiros apologistas e filósofos cristãos, identificou o “Anjo do Senhor”, citado em algumas passagens do Antigo Testamento, como sendo o “Logos” (Logos: grego koiné para "Verbo"). Justino escreve que: “Aquele que é chamado Deus e apareceu aos patriarcas é chamado de Anjo e Senhor... A palavra de Deus, portanto, registrada por Moisés, quando se refere a Jacó, o neto de Abraão, fala assim"² e que "nem Abraão, nem Isaque, nem Jacó, nem qualquer outro homem viu o Pai ... mas viu Aquele que era segundo a Sua vontade, Seu Filho, sendo Deus e o Anjo porque ministrou à Sua vontade".³ Santo Irineu também foi um defensor desta opinião ao dizer: “quando o Filho fala a Moisés, Ele diz: 'Eu desci para libertar este povo”.

Vejamos algumas aparições do “anjo do Senhor” onde alguns comentaristas da Bíblia afirmam serem prefigurações de Cristo no Antigo Testamento:

Gênesis 16,7-14 - O anjo do Senhor encontrou Agar junto a uma fonte no deserto;

Gênesis 22,11-18 - O anjo do Senhor chama por Abraão;

Juízes 5,23 - O anjo do Senhor amaldiçoa Meroz e seus Governantes;

2 Reis 19,35 - O anjo do Senhor feriu cento e oitenta e cinco mil homens no acampamento assírio.

Alguns Teólogos sugerem que o anjo com quem Jacó luta em Gênesis trata-se de uma aparição prefigurada de Cristo na forma de um homem: “Nessa noite, Jacó se levantou, pegou suas duas mulheres, suas duas servas, seus onze filhos e atravessou o vau do Jaboc. Jacó os pegou e os fez atravessar a torrente, com tudo o que possuía. E Jacó ficou sozinho. Um homem lutou com Jacó até o despertar da aurora. Vendo que não conseguia dominá-lo, o homem tocou a coxa dele, de modo que o tendão da coxa de Jacó se deslocou enquanto lutava com ele. Então o homem disse: “Solte-me, pois a aurora está chegando”. Jacó respondeu: “Não o soltarei, enquanto você não me abençoar”. O homem lhe perguntou: “Qual é o seu nome”? Ele respondeu: “Jacó”. O homem continuou: “Você já não se chamará Jacó, mas Israel, porque você lutou com Deus e com homens, e você venceu”. Jacó lhe perguntou: “Diga-me o seu nome”. Mas ele respondeu: “Por que você quer saber o meu nome”? E aí mesmo o abençoou”. (Gn 32,23-30)

Romano, o melodista (490-560), interpretou a figura com quem Abraão falou em Gênesis como sendo o próprio Cristo:4 “O Senhor apareceu a Abraão junto ao Carvalho de Mambré, enquanto ele estava sentado à entrada da tenda, pois fazia muito calor. Levantando os olhos, Abraão viu na sua frente três homens de pé. Ao vê-los, correu da entrada da tenda ao encontro deles e se prostrou por terra, dizendo: “Senhor, se alcancei o seu favor, não passe junto ao seu servo sem fazer uma parada. Vou mandar que tragam água para que vocês lavem os pés e descansem debaixo da árvore. Vou trazer um pedaço de pão e vocês poderão recuperar as forças antes de partir; foi para isso que passaram junto ao servo de vocês”. Eles responderam: “Está bem. Faça o que está dizendo”. Abraão entrou correndo na tenda onde estava Sara, e disse a ela: “Depressa! Tome vinte e um litros de flor de farinha, amasse-os e faça um pão grande”. Depois Abraão correu até o rebanho, escolheu um vitelo novo e bom, e o entregou ao empregado, que se apressou em prepará-lo. Pegou também coalhada, leite e o vitelo que havia preparado, e colocou tudo diante deles. E os atendia debaixo da árvore enquanto eles comiam” (Gn 18,1-8).

Orígenes (+253 ou 255) e teólogos que vieram posteriormente acreditaram que outro grande exemplo de Cristofania seja o "Homem" que apareceu para Josué. O “Homem” se identifica como sendo "o comandante do exército do Senhor": “Estando perto de Jericó, Josué levantou os olhos e viu em pé diante de si um homem com a espada desembainhada na mão. Josué se aproximou dele e perguntou: “És a nosso favor ou a favor dos nossos inimigos?” Ele respondeu: “Eu sou chefe do exército do Senhor, e acabo de chegar”. Então Josué prostrou-se com o rosto por terra e o adorou. A seguir perguntou: “O que diz o meu Senhor a seu servo?” O chefe do exército do Senhor respondeu: “Tire as sandálias dos pés, porque o lugar onde você está pisando é lugar sagrado”. E Josué assim o fez”. (Js 5,13-15). “O argumento padrão de que este era de fato Cristo é que ele aceitou a adoração prostrada de Josué, enquanto os anjos recusam tal adoração. Além disso, ele declarou que o solo era sagrado; em outras partes da Bíblia, apenas coisas ou lugares reservados para Deus ou reivindicados por ele são chamados de santos. Comentaristas judeus lendo o mesmo texto não aceitam que essa figura fosse Cristo (ou mesmo Adonai), mas sim o Arcanjo Miguel”.5

O livro de Daniel nos apresenta outro grande exemplo de Cristofania ao descrever a figura do quarto homem na fornalha: “... e a forma do quarto é como o Filho de Deus” ou “como um filho dos deuses”.6 A visão de Isaías (Isaías 6) também pode ser considerada uma Cristofania. Parece ter sido visto como tal pelo evangelista João, que, seguindo uma citação deste capítulo, acrescenta “Isaías disse isso porque viu a sua glória e falou dele” (Jo 12,41).7

Algumas Cristofanias também são identificadas no Novo Testamento. Vejamos algumas passagens para nível de conhecimento, o assunto será abordado com mais ênfase em um momento oportuno:

Atos dos Apóstolos 22,6-8 (Conversão de Paulo de Tarso) - “... de repente uma grande luz que vinha do céu brilhou ao redor de mim”;

Atos dos Apóstolos 6,55-56 (Martírio de Estevão) – “Repleto do Espírito Santo, Estêvão olhou para o céu e viu a glória de Deus, e Jesus, de pé, à direita de Deus”. Então disse: “Estou vendo o céu aberto e o Filho do Homem, de pé à direita de Deus”;

Apocalipse 1,13 (Visão de João na Ilha de Patmos) – “No meio dos candelabros estava alguém: parecia um filho de Homem...”.

As aparições de Cristo não é um fato descrito somente nas Sagradas Escrituras. Ao longo dos séculos, muitos videntes afirmam ter tido visões, onde se alega não só o contato visual, mas também o físico além do dialogo travado com o Cristo. Tais aparições tiveram a intervenção da Igreja para a Aprovação ao seu culto uma vez que as mesmas não fazem parte do depósito da fé, mas nos convidam a "discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja". Vejamos duas das mais importantes Aparições de Cristo pós-ascensão:

Aparições de Jesus a Santa Maria Faustina Kowalska – Em 22 de fevereiro de 1931, Irmã Faustina relatou, em seus diários (diário I, sessões 47, 48 e 49), ter tido a primeira revelação de Jesus enquanto Rei da Divina Misericórdia em seu quarto. Segundo ela, Jesus apareceu vestido de branco e de seu coração emanava feixes de luz vermelho e branco. Entre outras coisas, Jesus pediu-lhe que pintasse uma imagem sua fiel à imagem que se mostrava a ela, tal imagem deveria conter a inscrição: “Jesus, eu confio em vós”.8

Aparições de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque – Em 24 de junho de 1673, aos 25 anos, Margarida Maria teve sua primeira visão do Sagrado Coração de Jesus, fato que se repetiria por mais dois anos, a cada primeira-sexta feira do mês. Em 1675, nas oitavas de Corpus Christi, Jesus apareceu-lhe então com o peito aberto e coração ferido, fora do corpo. 9

No artigo “Teofanias: a manifestação de Deus no Tempo” identificou-se que em três aparições marianas a manifestação de Deus (Teofanias) se fez presente através de símbolos Teofânicos e Luz Natural. É possível identificar “Cristofania” nas Aparições marianas? As aparições de Nossa Senhora em Fátima é um grande exemplo desta presença de Cristo:

Fátima, Portugal (1917) – Aparição de Jesus no Milagre do Sol

"Desaparecida Nossa Senhora na imensa distância do firmamento, vimos, ao lado do sol, São José com o Menino e Nossa Senhora vestida de branco, com um manto azul. São José com o Menino parecia abençoar o Mundo, com os gestos que faziam com a mão em forma de cruz. Pouco depois, desvanecida esta aparição, vi Nosso Senhor e Nossa Senhora que me dava a ideia de ser Nossa Senhora das Dores. Nosso Senhor parecia abençoar o mundo da mesma forma que São José. Desvaneceu-se esta aparição e pareceu-me ver ainda Nossa Senhora em forma semelhante a Nossa Senhora do Carmo." 10

Tuy, Espanha (1929) – Aparição de Jesus no seio da Santíssima Trindade à Irmã Lúcia de Jesus (última vidente de Fátima).

Tendo recebido a autorização de suas superioras e do confessor para fazer a Hora Santa na Capela de quintas para sextas-feiras, na noite de 13 de Junho de 1929, Irmã Lúcia relata em suas memórias o que aconteceu naquela noite: “iluminou-se toda a Capela com uma luz sobrenatural e sobre o Altar apareceu uma Cruz de luz que chegava até ao teto” (Memórias, p. 195). Foi então que se revelou algo fascinante: “Em uma luz mais clara via-se, na parte superior da cruz, uma face de homem com corpo até à cinta, sobre o peito uma pomba também de luz e, pregado na cruz, o corpo de outro homem” (Memórias, p. 195). Era a visão da Trindade. Depois, conta a irmã, “um pouco abaixo da cinta, suspenso no ar, via-se um cálice e uma hóstia grande, sobre a qual caíam algumas gotas de sangue que corriam pelas faces do Crucificado e duma ferida do peito”.11

Concluímos afirmando que, “temos a nossa fé fundada na certeza de que Deus, na sua liberdade absoluta e gratuita, se comunicou conosco. Deu-se a conhecer em sua realidade íntima de amor transbordante, como Pai maternal, Filho e Espírito. Manifestou também seu projeto de levar a humanidade à comunhão com a Trindade e à mudança de todas as suas relações. A esse evento ímpar e original, decisivo para a nossa salvação, chamamos de Revelação. A teologia cristã denomina de “Revelação” ao processo segundo o qual Deus mostrou “seu rosto e seu coração”, ou seja: quem ele é e como nos ama, e que convoca a humanidade para realizar um inaudito projeto de criação, libertação e salvação no mundo”.12

Vinícius Aparecido de Lima Oliveira
Associado da Academia Marial de Aparecida

Bibliografia:

1. CONTEÚDO aberto. In: strigfixer – Cristofania Disponível em: < https://stringfixer.com/pt/Christophany >. Acesso em: 15 fev 2022.

2. Justin Maryr, Diálogo com Trypho (Capítulo 58).

3. Justin Maryr, Diálogo com Trypho (Capítulo 127).

4. Bunge, Gabriel (2007). The Rublev Trinity . St Vladimir's Seminary Press . p. 48

5. CONTEÚDO aberto. In: strigfixer – Cristofania Disponível em: < https://stringfixer.com/pt/Christophany >. Acesso em: 15 fev 2022.

6. As obras de Jonathan Edwards 1835 p564 "E o profeta Daniel, na parte histórica de seu livro, relata uma notável aparição de Cristo na fornalha de Nabucodonosor, com Sadraque, Mesaque e Abednego”.

7. CONTEÚDO aberto. In: strigfixer – Cristofania Disponível em: < https://stringfixer.com/pt/Christophany >. Acesso em: 15 fev 2022.

8. CONTEÚDO aberto. In: Canção Nova – Santo do Dia: Santa Maria Faustina Kowalska. Disponível em: < https://santo.cancaonova.com/santo/santa-maria-faustina-kowalska/  >. Acesso em: 15 fev 2022.

9. CONTEÚDO aberto. In: A12 Redação – Santa Margarida Maria Alacoque, a vidente do Coração de Jesus. Disponível em: < https://www.a12.com/redacaoa12/espiritualidade/santa-margarida-maria-alacoque-a-vidente-do-coracao-de-jesus >. Acesso em: 15 fev 2022.

10. Memórias da Irmã Lúcia I. 14.ª ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2010, p. 180-181 (IV Memória); a secção entre parênteses retos consta do interrogatório do pároco, de 16 de outubro de 1917, em Documentação Crítica de Fátima, vol. I. Fátima: Santuário de Fátima, 1992, p. 24, e a secção entre chavetas do interrogatório do Dr. Formigão, em Documentação Crítica de Fátima, vol. I, p. 142.

11. CONTEÚDO aberto. In: Padre Paulo Ricardo – 90 anos da Aparição de Tuy Disponível em: <https://padrepauloricardo.org/episodios/90-anos-da-aparicao-de-tuy > . Acesso em: 15 fev 2022.

12. CONTEÚDO aberto. In: Vida Pastoral – Visões e aparições. Por que e para quê? Disponível em: <https://www.vidapastoral.com.br/artigos/mariologia/visoes-e-aparicoes-por-que-e-para-que/ > . Acesso em: 15 fev 2022.

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