Por Carmen Novoa Silva Em Palavra do Associado Atualizada em 03 OUT 2017 - 08H39

RESSURREIÇÕES

Perdeu-se definitivamente o sentido de Páscoa neste mundo secularizado? Semana Santa hoje, é sinônimo de férias e viagens. A alegria das agências de turismo, hotéis e centros turísticos. As fábricas de chocolates multiplicam cifrões confeccionando milhares de ovos que crianças e adultos consumirão. Coelhinhos sobem ao pódio para o êxtase da criançada e proprietários de “shoppings” auferem o lucro da data paganizada. O bacalhau e o peixe regional a preços estratosféricos. Tudo por conta da abstinência de carne da sexta-feira santa. Por isso a própria Igreja libera da obrigação aos de situação financeira difícil. As revistas e jornais mostram a cores o Cardápio da Páscoa com iguarias inacessíveis aos bolsos de muitos em época de campanha Fome Zero.

Podemos assegurar que nesta época consumista e mercantilista o cardápio pascal mudou e muito como o fizeram com o Natal, onde o aniversariante fica esquecido em meio a trenós e noéis abarrotados de presentes. O poder midiático insere nos cérebros os símbolos comerciais do coelho e do ovo a significar fertilidade e vida renovada, anulando o Cristo, personagem principal que tem que suportar o fato de ser mediocrizado, edulcorado, caramelizado, marionete de “marketing” e digerível todas as Semanas Santas para que não nos assuste demasiadamente a dor. Não só o martírio da Via Crucis de Jerusalém, mas a dos que nos rodeiam em nossa Manaus dos dois milhões de habitantes e infinitos miseráveis.

Páscoa é Passagem. “Pesach” etimologicamente do hebraico. Passagem da escravatura para a libertação. O Antigo Testamento celebra o povo judeu imolando um cordeiro e livre da escravidão do Egito pelas mãos do Senhor. O Novo Testamento, o cordeiro sem defeitos que derrama o sangue para redenção da humanidade de seus vícios e erros foi Jesus, ao ser crucificado. Páscoa é uma dimensão de vida cristã inaugurada no batismo quando nos unimos ao destino salvífico de Cristo. Não é só uma recordação arcaica, senão o dinamismo da salvação e de libertação desde o dia em que Deus entrou em nossa história de modo irreversível com a encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus. Ele o centro da história humana. Quer queiramos ou não tanto os crentes quanto os agnósticos. É importante sim festejarmos a Páscoa da Ressurreição com ovos, coelhos e...reflexão.

 

É necessário ressuscitar o ser solidário com as vítimas de nosso tempo.

Mas há quem reúna muitas pessoas para saborearem um menu pascal competindo com requinte e sofisticação dos restaurantes franceses cinco estrelas. Há quem pense ser a vida confeitada com glacê colorido. Que o cristianismo tem que ser descrucificado, descafeinado e anestesiado (Formas que a humanidade inventa para não enxergar a dor ao seu redor). Há quem pense que o poder e orgulho (tão grandes!) impedirão a vinda, da doença, da velhice, da morte, dos sete palmos de terra, da carne pútrida ou daquele pó insignificante das ânforas que os crematórios “chics” entregam aos parentes dos ex-senhores do poder e do orgulho. O homem tem que ser um ressuscitado. Desses que sabem tirar ressurreições de suas próprias dores. E rumar aonde existem ressurreições. Como a dos toxicômanos, ali na “Fazenda Esperança”. Ressurreições dos adolescentes e ex-meninas de rua na casa “Mamãe Margarida”. Ressurreições feitas nas creches ou casas dos menores abandonados, deficientes ou excepcionais. É necessário ressuscitar o ser solidário com as vítimas de nosso tempo. Do contrário seremos multidões solitárias porque não partilhamos. Por isso insatisfeitos. Ressuscitar o sumo do amor encontrado na solidariedade. Deixar de viver na casca de nós mesmos! E cascas... essas, não alimentam.

 

*Carmen Novoa Silva é membro da Academia Amazonense de Letras e da Academia Marial

 

 

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