Por Ciro Leandro Costa da Fonsêca Em Palavra do Associado Atualizada em 03 OUT 2017 - 08H41

Sob o signo da resistência, a devoção dos negros à Nossa Senhora

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Neste ano de 2016, nós que compomos o Grupo de Estudos em Literaturas de Língua Portuguesa - GPORT da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN, Campus de Pau dos Ferros) realizaremos o nosso I Simpósio Nacional que tem como tema “Cartografias literárias e culturais africanas e afro-brasileiras”. Como o nosso foco é a interação entre os espaços literários e culturais Brasil- África, as trocas e misturas culturais entre as nações que falam a língua portuguesa e sofreram o processo de colonização por exploração. Dentre os temas abordados e com oferta de minicursos, conferências estão a produção de literaturas de caráter africano e afro-brasileiro, bem como as hibridizações culturais, a cultura e a religiosidade afro-brasileira que dialogou com o catolicismo e ambas se influenciaram.

Como um espaço conflituoso dessa hibridização estava à religiosidade do negro, proibido de viver a fé que atravessou o Atlântico e de frequentar os mesmos espaços que os seus senhores brancos. Já havia no Brasil a devoção a Nossa Senhora do Rosário, que adotado por eles como sua protetora se revestiu de uma nova identidade: Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, cujas irmandades fundadas pelos brancos no fim da colonização passaram a ser formadas por pessoas negras. Essas irmandades cultuavam a Virgem Maria, cuidavam dos doentes negros, compravam suas alforrias, enterravam os mortos e se constituía como uma forma de resistência identitária dos povos negros escravos e forros. Um símbolo dessa luta eram os rosários fabricados de sementes de capim cujas contas grossas eram chamadas de “Lágrimas de Nossa Senhora”, em um simbolismo em que percebemos a importância da fé como resistência, solidariedade e socialização desses povos que sentiam o apoio da Mãe de Deus a sua causa. Um acontecimento da nossa região que ilustra essa fase é o fato de os negros de Pau dos Ferros, impedidos de frequentar a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, tiveram que construir uma igreja para realizar seus cultos e de escolher um santo negro, no caso São Benedito. A capela é um símbolo dessa resistência a opressão branca herdada da colonização e da capacidade do povo afro-brasileiro de reelaborar sua cultura de forma a manter vivos os seus laços ancestrais e identitários. Mais tarde surgiram outros símbolos dessa resistência, como a histórica capela da Vila Aparecida construída na década de 1920 na divisa dos Estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba entre os municípios de Luís Gomes em terra Potiguar e Uiraúna em terra Paraibana. Fundada para abrigar uma imagem de Nossa Senhora Aparecida que era venerada na casa de uma família no Sítio Alívio, a devoção se iniciou de maneira conflituosa, pois as pessoas tinham uma forte resistência em cultuar a Virgem de Aparecida Negra, segundo populares as pessoas diziam que não rezariam para uma santa negra. Segundo a tradição, uma das antigas imagens teve de ser “clareada” para que houvesse uma maior aceitação do seu culto. Hoje a capela próxima do seu centenário, foi palco da passagem da Coluna Prestes em 1926 é um signo de resistência onde os povos negros e de sua fé, tão bem simbolizada na imagem de Aparecida.

O nosso grupo de pesquisa se concentra nessas relações, na herança africana para o Brasil e nas representações históricas, culturais e literárias. O nosso simpósio espera contribuir para o amadurecimento das relações para uma compreensão mais ampla da hibridização Brasil-África.

 

Ciro Leandro Costa da Fonsêca

Doutorando em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.

Associado da Academia Marial de Aparecida.

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