O nome de Deus é compaixão. No livro do Êxodo, que narra, sobretudo, a libertação dos israelitas da escravidão do Egito, Deus age por compaixão, ou seja, ao ver o sofrimento de seu povo, é capaz de “padecer com”, de padecer ao lado do povo, de sentir suas próprias misérias. “O Senhor disse a Moisés: ‘Eu vi, eu vi a miséria de meu povo no Egito e ouvi o clamor que lhe arrancam seus opressores; sim, conheço suas aflições. Desci para libertá-lo das mãos dos egípcios e levá-lo daquela terra para uma terra boa e espaçosa, terra onde corre leite e mel [...]. O clamor dos israelitas chegou até mim; e vi também a opressão com que os egípcios os oprimem” (Êx 3,7-9). Deus não se deixa mover por “sentimentos”; na verdade, Ele se move diante da dor e do sofrimento, da injustiça e da falta de cuidado, situações que O levam a agir com amor, ternura e doação. Deus quer libertar seu povo e dar-lhe a conhecer seu imenso amor de Pai. É justamente isso que Deus faz conosco: uma vez libertos da escravidão do pecado, Seu amor nos alcança e nos faz plenamente livres.
O trecho bíblico acima nos brinda com três verbos de ação, que expressam claramente o “agir compassivo” do Senhor: “ver”, “ouvir” e “descer”. Deus, antes de tudo, viu o sofrimento de seu povo; depois, ouviu seu pedido; e, por fim, desceu para libertá-lo da “casa da escravidão” do Egito. O nosso Deus não se sujeita à acomodação: do alto, Ele tudo vê, tudo escuta, e nada faz... Não! Ele nos enxerga, ouve-nos e vem a nosso encontro. A prova disso está no grandioso e sublime mistério da Encarnação: Deus se aniquila, esvazia-se por completo e assume nossa condição humana (cfr. Fl 2,6-13). Nas palavras de Santo Afonso Maria de Ligório, em seu poema de Natal “Tu scendi dalle stelle”, nosso Deus desce das estrelas e vem morar no meio de nós, vem ser um de nós, vem nos salvar, vem nos amar com amor eterno: “Tu desces das estrelas, ó Rei do céu e vens a uma gruta no frio e no gelo [...]”. Santo Afonso canta o amor d’Aquele que se fez tudo para todos: Jesus Cristo!
Sendo o Deus encarnado, Jesus é exemplo de pastor compassivo. Nos Evangelhos sinóticos, o pastoreio de Jesus é pleno de compaixão, porque Ele sempre esteve no meio dos pequenos e humildes. “Jesus viu uma grande multidão e encheu-se de compaixão por eles, porque eram como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34). Assim deve ser nossa vida cristã: ver o sofrimento, ouvir o clamor e ir ao encontro daquele que sofre, à semelhança de Jesus, o “Bom Samaritano”, que não só curou as feridas daquele que estava no caminho, mas também o levou para um lugar seguro, para uma hospedaria, e ali cuidou pessoalmente dele (cfr. Lc 10,30-37). Isso é ser compassivo, é “padecer com”, é ser para o outro, é identificar-se totalmente com o outro. Não nos esqueçamos do Mandamento do Senhor: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,39).
Neste mês de fevereiro, celebramos o 34º Dia Mundial do Doente. Essa comemoração é uma ocasião especial, pois nesse mês damos início ao tempo quaresmal, momento oportuno para um bom exame de consciência: estamos sendo próximos aos doentes? Estamos sendo “outro Cristo” na vida dos enfermos, não só daqueles que se encontram internados nos leitos de hospitais, mas também daqueles que vivem na casa ao lado, nossos vizinhos, parentes que, devido às suas condições, estão configurados a Cristo sofredor? Nunca é tarde para recordar que a visita aos doentes é uma das sete obras de misericórdia corporais. Que sejamos misericordiosos para com aqueles que, por vezes, sentem sua enfermidade se agravar devido à dor da solidão e do abandono. Somos todos chamados ao encontro, à escuta e à compaixão! O “bom samaritano” viu o sofrimento daquele homem caído e machucado, teve compaixão, aproximou-se dele e cobriu-o de cuidados. Hoje, a cada um de nós, Jesus repete aquilo que disse ao doutor da Lei: “Vai e faze o mesmo!” (cfr. Lc 10,37).
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