Revista de Aparecida

Maria, Mãe da Misericórdia

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Escrito por Guilherme Dias Viana

04 OUT 2026 - 08H00

Thiago Leon

A misericórdia de Deus é para nós não apenas um sentimento ou uma experiência de fé, mas uma pessoa concreta, pois com a encarnação do Filho a misericórdia assumiu um rosto, como afirmou o Papa Francisco na Bula Misericordiae Vultus, “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai”. Nessa expressão encontra-se uma das mais belas sínteses da fé cristã: em Jesus, a misericórdia de Deus deixa de ser apenas uma realidade contemplada pela fé e torna-se viva, visível e próxima. O Filho, imagem do Deus invisível, veio revelar-nos definitivamente o amor do Pai. Quem contempla Jesus, contempla o Pai; quem encontra o seu olhar, encontra o olhar misericordioso de Deus. Por isso, somos chamados a conhecer, contemplar e servir esse Amor que se fez carne.

É justamente aqui que podemos compreender Maria como Mãe da Misericórdia. Se Jesus é a Misericórdia do Pai feita carne, aquela que O gerou em seu ventre, o acompanhou e permaneceu de pé junto à cruz pode, com toda razão, ser invocada por nós como Mãe da Misericórdia. Na oração da Salve-Rainha, a Igreja dirige-se a Maria com uma das mais belas e consoladoras invocações: «Salve, Rainha, Mãe de misericórdia».

Santo Afonso Maria de Ligório, em seu livro Glórias de Maria, dedica precisamente o primeiro capítulo da obra à explicação dessas palavras. Para ele, Maria é Rainha de Misericórdia porque sua realeza não se manifesta no rigor, mas na bondade para com os pobres e pecadores. A misericórdia, afinal, nasce de um coração capaz de olhar para a miséria do outro e deixar-se tocar por ela. Nasce de um olhar que não permanece indiferente diante da fragilidade, da dor e do pecado, mas que se desdobra em amor e bondade.

Tal atitude encontra em uma mãe uma expressão particularmente profunda. A mãe não olha somente com os olhos da razão; olha com o coração (cordis). O olhar materno reconhece a ferida e a dor, antes mesmo que o filho consiga explicá-la e, diante do sofrimento, não abandona, mas se aproxima. Em Maria, essa ternura materna alcança uma dimensão singular, porque ela é Mãe daquele que veio precisamente para salvar o pecador. Santo Afonso afirma que podemos estar sempre cheios de confiança em Maria, pois “ela é poderosa perante Deus e cheia de misericórdia para com os homens”.

Por isso, Maria nos revela a face do Pai misericordioso. Seu olhar não substitui o de Cristo, mas nos conduz a ele. Ela nos recorda que o Pai está sempre pronto a acolher aquele que, arrependido, abre o coração ao perdão conquistado por Cristo no sacrifício da cruz. Maria permanece junto daquele que caiu para ajudá-lo a levantar-se e voltar para Deus.

É por isso que Santo Afonso deposita tamanha confiança em Maria. Sendo Mãe de Misericórdia, ela está sempre pronta a acolher e proteger até mesmo os maiores e mais abandonados pecadores que a ela recorrem. Quanto maior a miséria, maior deve ser a confiança na misericórdia. Assim, ao saudarmos Maria como Mãe de Misericórdia, não nos afastamos de Cristo, ao contrário, aproximamo-nos ainda mais dele, porque encontramos no coração materno de Maria um reflexo do próprio coração misericordioso de Deus.

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