Assim, o Evangelho constata o último suspiro de Jesus na cruz. Coincidiu com o sacrifício dos cordeiros da Páscoa, no Templo de Jerusalém. O sangue dos cordeiros imolados lembrava a libertação do povo no passado. O acontecimento envolvera então o sacrifício de um cordeiro, sem defeito e sem lhe quebrar nenhum osso. Cada casa teve sua porta tingida com o sangue dele. Isso foi o sinal da proteção do Senhor ao seu povo até ali escravizado. O sacrifício do cordeiro pascal perpetuava a memória do fim da escravidão do povo hebreu no Egito (Êxodo, capítulo 12). Era o preparativo da grande festa anual da Páscoa. São João refere-se a Jesus como o cordeiro messiânico, vítima pascal da Igreja.
O sangue dele, derramado na cruz por causa de nossos pecados, conferiu-nos o perdão divino. Recuperou para todos um coração justo. A morte de Jesus crucificado selou a Nova Aliança de Deus com a humanidade. No capítulo 19 do Evangelho, São João dá ênfase ao golpe de lança do soldado romano transpassando o coração de Jesus. A ferida feita pela lança garantia a certeza de sua morte. E o Cordeiro inocente foi imolado sem lhe quebrar nenhum osso! São João testemunhou: “da ferida no coração imediatamente saiu sangue e água (v. 34)”.
O detalhe dá ao sangue e à água símbolos para reflexões teológicas desde os primeiros tempos da comunidade cristã. Pode significar a vida comunicada aos homens pela morte de Jesus, no seu amor ao extremo! Saiu água? É o extremo das forças vitais humanas. Pode significar a vida no Espírito: a fonte da vida e libertação pela Redenção do Senhor. Na cruz, seu coração transpassado dá-nos o poder de glorificar a Deus e de ser por Ele amados.
Os escritores antigos da Igreja têm outras interpretações simbólicas do texto joanino. O sangue e a água que escorreram do coração de Jesus ferido pela lança representam os dois sacramentos que sustentam a Igreja. O sangue representa a Eucaristia, e a água o Batismo. Batismo e Eucaristia são as fontes da Igreja. Jesus é água viva. Ele dá-nos sua própria vida. Por isso, a morte de Jesus faz do Calvário o novo Santuário, local do encontro garantido entre Deus e nós. Do coração transpassado pela lança, jorra a vida eterna. São João escreveu em sua carta: "Jesus Cristo é aquele que veio pela água e pelo sangue”.
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