O curioso é que se não houvesse dúvida, não haveria fé. A dúvida faz parte de nós para garantir nossa existência. Quando envolve coisas graves, se mostra no medo e ansiedade. Não ter dúvida é ignorância, falta de precaução, ou simples ingenuidade. O instinto, a opinião do grupo e os costumes resolvem a maioria das dúvidas, mas pensando um pouco aparecem os alertas, vêm as dúvidas e busca de decisão. É um processo. De qualquer modo, a dúvida não é inimiga das decisões, ao contrário, ela mostra as alternativas que se tem para se escolher um lado. As tentações de Jesus no deserto são claras nesse sentido.
O contrário da dúvida seria a certeza. Mas aqui entra outra surpresa: nossas certezas são provisórias. Até os cientistas reconhecem que a certeza científica depende de evidências que podem mudar com novas pesquisas. O progresso científico depende dessa dose de incerteza para não parar. Então a solução da dúvida é sempre um tipo de confiança, um ato de fé, que os cientistas chamam de “crença científica”, fruto do que as pesquisas até o momento comprovaram. A dúvida e a confiança (fé) podem se referir a uma informação ou teoria (acreditar que), as habilidades pessoais e segurança de instrumentos (confio que), ou a uma pessoa (acredito inteiramente em). Nossa fé cristã também percorre essa estrada muito humana do jeito de crer e confiar.
E então, Maria teve dúvidas? Não seria humana se não tivesse. Sabe-se pouco de seu lado histórico, mas nos Evangelhos aparecem vários sinais da incerteza e aflição de Maria. Simeão já havia profetizado que uma “espada de dor” atravessaria sua alma (Lucas 2,25-35). Na perda de Jesus no Templo (Lc 2,41-52) Ele mesmo pergunta: “Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?” Depois, Jesus veio pregar apontando desvios graves de sacerdotes e chefes do povo. Seus parentes diziam: “Ele perdeu o juízo” (Mc 3,21) pois comprometia os familiares, que teriam de expulsá-lo da família. Maria, decerto, também duvidava se esse seria um caminho seguro para Jesus. Ele mesmo suou sangue em colocar ou não sua vida para ensinar o caminho do Amor.
É bem isso que Maria, com sua vida, nos ensina: enfrentar as dúvidas e decisões guardando no coração as palavras e ações de Jesus. Nas sete dores de Nossa Senhora, a piedade do povo mostra bem o quanto Maria é nossa companheira carinhosa, conselheira e apoio constante nas muitas encruzilhadas e questões que balançam nossa vida.
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