Por Joana Darc Venancio Em Brasil Atualizada em 24 JUL 2020 - 13H22

A saudade da Escola

Halfpoint/ Shutterstock
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Os professores, de uma hora para outra, tiveram que assumir o papel de professores à distância. Grande e desafiadora tarefa, não resta dúvida. Mas e os alunos? De repente, a casa virou escola. E agora? O fato de serem crianças, adolescentes ou jovens não afastam as dificuldades com as adaptações impostas pela necessidade do momento; não minimizam o impacto de não poderem ir para escola. Papa Paulo VI, em um dos mais importantes documentos da Igreja sobre a Educação, ensinou:

"Entre todos os meios de educação, tem especial importância a escola, que, em virtude da sua missão, enquanto cultiva atentamente as faculdades intelectuais, desenvolve a capacidade de julgar retamente, introduz no patrimônio cultural adquirido pelas gerações passadas, promove o sentido dos valores, prepara a vida profissional e cria entre alunos de índole e condição diferentes um convívio amigável, favorece a disposição à compreensão mútua; além disso, constitui como que um centro em cuja operosidade e progresso devem tomar parte, juntamente, as famílias, os professores, os vários agrupamentos que promovem a vida cultural, cívica e religiosa, a sociedade civil e toda a comunidade humana".

Muitos são os depoimentos de mães e pais sobre a resistência dos filhos em cumprirem as responsabilidades escolares em casa. É difícil para todos e muitas são as cobranças. É difícil para os professores, é difícil para as famílias e é difícil, sim, para os alunos.

A Escola não é apenas um lugar de desenvolvimento do conhecimento, ainda que esse seja o principal legado. A Escola é lugar de interação, de expressivas e lindas aglomerações. A Escola é lugar de sonhos, de encontros, de descobertas. A Escola é tanta coisa! De repente a Escola se tornou um prédio vazio, inacessível e interditado. Papa Francisco, em respostas às perguntas dos representantes das escolas dos jesuítas, deixa claro o valor da escola:

"Caros jovens, se agora eu vos dirigisse esta pergunta: por que ides para a escola, o que me responderíeis? Provavelmente haveria muitas respostas, segundo a sensibilidade de cada um. Mas penso que se poderia resumir tudo, dizendo que a escola é um dos ambientes educativos no qual crescemos para aprender a viver, para nos tornarmos homens e mulheres adultos e maduros, capazes de caminhar, de percorrer a vereda da vida. Como vos ajuda a escola a crescer? Ajuda-vos não apenas no desenvolvimento da vossa inteligência, mas para uma formação integral de todos os componentes da vossa personalidade".

Leia MaisEm tempo de pandemia: professores distantes, mas não ausentesQuem dá sentido à Escola? Se a resposta foi o aluno, então chegamos ao centro da questão. Como esperar que o aluno consiga tão rapidamente se adaptar a tão grande perda? Sim, foi um processo de luto. Sim, foi perda. Sim, instalou-se um vazio. Levamos tempo para assimilar as perdas. Levamos tempo para assimilar as novas realidades. Sim, é um tempo transitório e necessário pelo bem comum, mas não nos esqueçamos de que o aluno é o mais envolvido nessa relação.

Evidente que estar em casa é, sem dúvida, uma oportunidade de aprofundar os laços familiares, não podemos negar. Mas, igualmente, não podemos negar que aquilo que o aluno rejeita não é a responsabilidade com a aprendizagem, mas a ideia de não poder estar na escola. Esse é um drama para muitos e temos que ter cuidado com a dimensão emocional. Além disso, há milhares de alunos que não têm as condições necessárias para estudarem em casa.

Talvez, se a Educação à distância na Educação Básica tivesse sido proposta com tempo de amadurecimento, com contribuições reflexivas de toda a sociedade, pela escolha dos alunos e de suas famílias, o impacto não aconteceria, pois teria sido maturado. Vale recordar que, no Brasil, não é autorizado Educação Básica à distância. De repente, até a legislação teve que ser adaptada.

Ser estudante, seja presencial ou a distância, exige disciplina, concentração, motivação, desejo de busca e tantas outras condições. Essas não são condições fáceis na normalidade do cotidiano. Imaginemos ter que administrar todos os sentimentos em tempo de isolamento e ainda manter o foco nos estudos? Sim, eles têm responsabilidade com a sociedade, que é a de estudar, mas não nos esqueçamos de que precisam de apoio, amparo, solidariedade e de compreensão.

Queridos alunos, não desanimem, logo voltarão à Escola. Fiquem firmes na missão de estudar. Compreendam que esse é um tempo passageiro e vocês irão, com certeza, ajudar a escrever uma nova história.

Escrito por
Joana Darc Venancio (Redação A12)
Joana Darc Venancio

Pedagoga, Mestre em educação e Doutora em Filosofia. Especialista em Educação a Distância e Administração Escolar, Teóloga pelo Centro Universitário Claretiano. Professora da Universidade Estácio de Sá. Coordenadora da Pastoral da Educação e da Catequese na Diocese de Itaguaí (RJ)

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