Brasil

O rio que dá nome a um povo

Entenda a diferença geográfica e histórica entre carioca e fluminense, a origem tupi dos termos e a importância do Rio Carioca para o estado.

Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

26 MAR 2026 - 10H09 (Atualizada em 26 MAR 2026 - 10H57)

Cavan/ Adobe Stock

É comum chamar as pessoas que moram na cidade ou no estado do Rio de Janeiro de cariocas, ainda que se faça isso de forma errônea, precisando fazer a distinção entre carioca e fluminense.

A principal diferença entre cariocas e fluminenses é a abrangência geográfica. Quando usamos o termo carioca, estamos nos referindo a quem nasce na cidade do Rio de Janeiro, que durante muito tempo foi a capital federal da república. Fluminense, por sua vez, é o nome de quem nasce no estado do Rio de Janeiro, incluindo a capital. Embora todo carioca seja fluminense, nem todo fluminense é carioca.

Durante muito tempo, além do estado do Rio de Janeiro, existiu também o estado da Guanabara, que compreendia a cidade do Rio de Janeiro e tinha sua capital na própria cidade do Rio. Após a transferência da capital federal para Brasília, o estado da Guanabara foi extinto em 15 de março de 1975, sendo fundido com o antigo estado do Rio de Janeiro, que tinha sua capital em Niterói, para formar o novo estado do Rio de Janeiro, com a cidade do Rio voltando a ser a capital estadual.

O termo carioca tem origem tupi “kara'i oka”, com o significado aproximado de "casa do homem branco". Portanto, quem nasce em qualquer uma das 92 cidades do estado do Rio de Janeiro, incluindo a capital, deve ser chamado de fluminense, palavra que vem do latim “flumen”, mesma coisa que "rio".

Mas, na prática, o termo carioca é mais usado para denominar os moradores da capital, enquanto fluminense é mais comum para quem vive no interior ou na região metropolitana, fora da capital. A confusão é bastante comum, mas o uso de "carioca" para todo o estado se deve muito à força cultural da capital.

Reprodução/ Wikimedia Commons Reprodução/ Wikimedia Commons

Um histórico rio

Muita gente também não sabe ou não se lembra, mas existe um rio que leva o nome de Carioca, estando intimamente ligado ao desenvolvimento da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Esse rio, que em boa parte hoje corre escondido, foi muito usado como fonte de água doce desde os inícios da época colonial. Os primeiros chafarizes e fontes da cidade eram servidos pelas suas águas, inclusive o antigo chafariz que existia no conhecido Largo da Carioca.

O rio Carioca percorre vários bairros da cidade, como Cosme Velho, Laranjeiras, Catete e Flamengo. Em 1503, na sua foz, onde hoje se encontra a Praia do Flamengo, foi construída, a mando de Gonçalo Coelho, uma casa que ficaria para sempre marcada na memória do Rio de Janeiro.

Os índios tupinambás, que habitavam a região, passaram a chamá-la de “akari oka”, que significa "casa de cascudo”. O termo "Cascudo" era o apelido dado pelos índios aos portugueses, por causa da semelhança entre as suas armaduras e as escamas características do corpo do peixe que tem esse nome. O termo pode ter dado origem também ao nome do rio e de quem era natural da cidade do Rio de Janeiro.

Existe ainda outra versão que explica o nome do rio, ligada a uma aldeia dos tupinambás existente próxima do Outeiro da Glória, onde desemboca outra foz do rio. Essa aldeia foi mencionada pelo francês Jean de Lery (1536-1613) em seu relato sobre a França Antártica. A aldeia tinha o nome de Karîoka, Kariók ou Karióg, significando "casa de carijó”. Apesar da dupla interpretação, no final do século XVI os nascidos na capitania do Rio de Janeiro já eram conhecidos como "cariocas", devido ao Rio.

Reprodução/ Festival do Rio Reprodução/ Festival do Rio

Um rio que precisa renascer

A maior parte do curso do rio corre no subterrâneo e, em apenas três trechos, suas águas correm a céu aberto. A partir de sua nascente próxima ao Corcovado, corre livre na Floresta da Tijuca por um pequeno trecho, depois corre livre junto ao Largo do Boticário, no Cosme Velho e, finalmente, na sua foz já na Praia do Flamengo.

Ainda nos séculos XVII e XVIII, as águas do Rio Carioca foram canalizadas e desviadas durante a construção do Aqueduto do Carioca, terminado em 1750. Esse aqueduto alimentava várias fontes e chafarizes da cidade do Rio de Janeiro colonial. Uma das principais fontes localizava-se num largo no centro da cidade, o que deu origem à denominação do Largo do Carioca e, posteriormente, Largo da Carioca.

O rio foi, durante toda a época colonial, a principal fonte de abastecimento de água doce para a população. Na altura do atual Largo do Machado, formava a lagoa do Suruí, termo proveniente do tupi siri'y, que significa "rio dos siris", da Carioca ou de Sacopiranha.

Hoje, como acontece com a maioria dos rios que cortam as nossas cidades, o rio se encontra aprisionado, sofre com a poluição, em vários trechos mistura-se com o esgoto, foi encaixotado e precisa ser recuperado e revitalizado para continuar marcando a vida e a história do povo carioca e dos fluminenses.


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Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

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