Comunicação

Por que a Igreja tem olhado com preocupação para as IAs?

O Papa Leão XIV e documentos da Igreja alertam para os riscos da inteligência artificial à dignidade humana, à verdade e às relações pessoais, sem rejeitar os benefícios da tecnologia

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Escrito por Gustavo Santos

22 OUT 2026 - 16H16 (Atualizada em 23 OUT 2026 - 11H06)

Imagem TSViPhoto Adobe Stock

A inteligência artificial (IA) já faz parte da rotina de muitas pessoas. Ela ajuda a produzir textos, criar imagens, responder a perguntas e realizar tarefas que antes exigiam mais tempo. Mas, ainda assim, cresce a preocupação com informações falsas, vídeos manipulados, decisões automatizadas e o uso dessas ferramentas nas relações humanas.

Essas questões também estão no centro da reflexão da Igreja Católica. Em documentos e pronunciamentos, o Papa Leão XIV tem chamado a atenção para os impactos da tecnologia sobre a dignidade humana, a liberdade, o trabalho e a convivência social.

A Igreja não é contra a inteligência artificial. O desafio, como explicou Dom Valdir José de Castro, Bispo de Campo Limpo (SP) e presidente da Comissão Episcopal para a Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), está na maneira como ela é utilizada.

Durante uma reflexão no Santuário Nacional, em maio de 2026, Dom Valdir afirmou que o problema não está na existência da tecnologia, mas no uso que as pessoas fazem dela, especialmente nas redes sociais.

“Quando falamos de meios de comunicação, o primeiro meio de comunicação é o nosso corpo, é a nossa voz, é o nosso rosto, é a nossa pessoa.” Dom Valdir José de Castro, Bispo de Compo Limpo (SP)

A afirmação ajuda a compreender uma das principais preocupações da Igreja: por mais avançadas que sejam as ferramentas digitais, elas não devem ocupar o lugar da pessoa humana nem ser utilizadas para enganar, manipular ou prejudicar os outros.

A tecnologia pode ajudar, mas não substitui a inteligência humana

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Em janeiro de 2025, o Vaticano publicou a nota Antiqua et nova, elaborada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé e pelo Dicastério para a Cultura e a Educação. O documento apresenta uma reflexão sobre a relação entre a inteligência artificial e a inteligência humana, além de abordar seus impactos na educação, no trabalho, na saúde e na sociedade.

A Igreja reconhece que essas ferramentas podem contribuir para diferentes áreas da vida. A IA pode auxiliar pesquisas, facilitar tarefas, apoiar o aprendizado e colaborar em atividades profissionais. No entanto, é necessário compreender que a capacidade de processar informações e produzir respostas não equivale à inteligência humana em toda a sua dimensão.

O ser humano possui consciência, liberdade, responsabilidade moral e capacidade de estabelecer vínculos. Por isso, uma ferramenta que produz respostas convincentes não deve ser confundida com uma pessoa capaz de assumir compromissos e responder moralmente pelas próprias ações.

Essa distinção se torna especialmente importante quando a tecnologia simula emoções, aconselha sobre questões pessoais ou apresenta informações sem que o usuário consiga identificar se são verdadeiras.

Outro motivo de preocupação é a disseminação de conteúdos manipulados. Com a IA, imagens, vídeos e vozes podem ser criados ou alterados para parecerem reais. Quando compartilhados sem verificação, esses materiais podem enganar pessoas, prejudicar reputações e comprometer a confiança nas informações que circulam na sociedade.

Em maio de 2026, Dom Valdir José de Castro também chamou a atenção para esse problema quando esteve no Santuário Nacional. “A gente vê manipulação de rostos, manipulação de vozes, e tudo com o uso da inteligência artificial”, afirmou.

Para o Bispo, o critério fundamental deve ser a defesa da dignidade humana. A preocupação também aparece na encíclica Magnifica humanitas, publicada pelo Papa Leão XIV em 15 de maio de 2026, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. O documento chama a atenção para a rapidez com que essas tecnologias passaram a influenciar decisões, comportamentos e a maneira como as pessoas compreendem o mundo.

Na apresentação da encíclica, o Papa reforçou que a Igreja não deve simplesmente temer o avanço tecnológico, mas acompanhar suas transformações com responsabilidade.

“Não tenhamos medo da inteligência artificial, mas continuemos a manter viva a questão do humano” Papa Leão XIV

A orientação é que o desenvolvimento tecnológico não seja avaliado apenas pela velocidade, pela produtividade ou pela capacidade de realizar tarefas. É necessário considerar também suas consequências para as pessoas, principalmente aquelas em situação de maior vulnerabilidade.

O que a Igreja pede diante do avanço da inteligência artificial?

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A reflexão da Igreja vai além dos conteúdos falsos ou do uso inadequado das redes sociais. Os documentos também abordam questões como a substituição de trabalhadores, a concentração de poder nas mãos de poucas empresas, a reprodução de preconceitos por sistemas automatizados e os riscos de decisões que afetam a vida das pessoas sem transparência.

Na encíclica Magnifica humanitas, Leão XIV defende que a tecnologia esteja a serviço de todos e do bem comum. O Papa também alerta para sistemas que podem restringir o acesso a oportunidades, cuidados de saúde e outros direitos com base em dados marcados por injustiças.

Isso significa que a responsabilidade pelo uso da IA não pode ser transferida integralmente para as máquinas. Desenvolvedores, empresas, governos e usuários precisam considerar as consequências de suas escolhas e responder por elas.

Grupo de Trabalho sobre Inteligência Artificial e Tecnologias Emergentes 

No Brasil, o tema também passou a receber atenção institucional. Em junho de 2026, o Conselho Permanente da CNBB acolheu a proposta de criação de um Grupo de Trabalho sobre Inteligência Artificial e Tecnologias Emergentes. A iniciativa busca estudar os impactos dessas ferramentas na comunicação, nas relações humanas, na transmissão da fé e na missão evangelizadora da Igreja.

A Igreja pode utilizar recursos digitais para ampliar o alcance de suas mensagens e aproximar pessoas, mas precisa preservar a verdade, o testemunho e a relação pessoal que fazem parte de sua missão.

Como recordou Dom Valdir, o primeiro meio de comunicação continua sendo a própria pessoa. A tecnologia pode ajudar a transmitir uma mensagem, mas não substitui o compromisso de quem a anuncia nem a responsabilidade de quem a recebe.

Diante desse cenário, o desafio não é rejeitar a inteligência artificial nem aceitar indiscriminadamente tudo o que ela oferece. É aprender a utilizá-la com discernimento, verificar as informações, respeitar a dignidade de cada pessoa e reconhecer os limites dessas ferramentas.

A pergunta que permanece para cada usuário é simples: a tecnologia está ajudando a cuidar melhor das pessoas ou está ocupando o lugar das relações e das responsabilidades que cabem a nós?

Leia também: 
Encíclica Magnifica Humanitas inspira projeto “Humaniza, IA!”

Fonte: Santa Sé, CNBB, Vatican News, Vaticano

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