A cena é conhecida, mas continua provocadora. Diante do anúncio da Ressurreição, Tomé exige ver e tocar as chagas de Cristo para crer.
O episódio narrado no Evangelho (Jo 20,24-29) expõe a fragilidade de um apóstolo e a sua crença, além de revelar uma dinâmica essencial da fé cristã: a passagem da dúvida para o encontro pessoal com o Ressuscitado.
Ao revisitar essa experiência, a Igreja recorda que a fé nasce da iniciativa de Cristo que se aproxima e se deixa reconhecer. Para o Pe. Pablo Vinicius, C.Ss.R., a resposta é direta: “A nossa fé é Cristo.”
Segundo o missionário redentorista, “a nossa fé não é uma ideia, é uma Pessoa, com ‘P’ maiúsculo. É Cristo ressuscitado, que venceu a morte e destruiu o pecado.”
O episódio mostra que Tomé não estava presente quando Jesus apareceu aos discípulos. Ao ouvir o testemunho dos outros, respondeu: “Se eu não vir... não acreditarei” (Jo 20,25).
Oito dias depois, Jesus volta e se coloca diante dele: mostra as chagas e convida-o a tocar. Tomé responde com uma das mais profundas profissões de fé do Novo Testamento: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28).
Pe. Pablo destaca: “A fé nasce sempre de um encontro: entre Deus e nós. Assim foi com São Tomé. Jesus se encontrou com ele e, nesse encontro, o dom da fé se fez presente.”
O Catecismo da Igreja Católica ensina que a fé é resposta do homem a Deus que se revela (cf. CIC 142-143), ou seja, é uma graça acolhida pelos fiéis.
A tradição cristã reconhece em Tomé uma figura próxima da experiência comum. Ele não é o “apóstolo fraco”, mas o discípulo que verbaliza a dúvida que muitos silenciam.
“Tomé representa todos nós. É nosso irmão gêmeo. Quem não tem um pouco de Tomé?”, afirma o missionário redentorista.
A expressão popular “só acredito vendo” revela esse traço humano. O próprio Catecismo admite que a fé pode ser provada (cf. CIC 164). Dúvidas e crises fazem parte do caminho espiritual.
Pe. Pablo observa: “Também nós, por vezes, temos dificuldade para crer. Jesus não procura quem nunca duvidou ou quem ostenta uma fé segura. A aventura da fé é feita de altos e baixos.”
O centro do relato não é a incredulidade, mas a atitude de Jesus. Ele retorna, aproxima-se e oferece novamente sua presença.
“Diante da incredulidade de Tomé, o que faz Jesus? Vai ao encontro dele. Isso mostra que Jesus não desiste de nós, não se cansa de nós, não tem medo das nossas crises e fraquezas. Ele volta sempre. Bate à porta do nosso coração", explica o Pe. Pablo.
A imagem recorda Ap 3,20: “Eis que estou à porta e bato”. Também dialoga com a Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, que apresenta Cristo como luz das nações e centro da vida da Igreja.
Para o missionário redentorista, o gesto de Jesus aponta para um caminho concreto: “Voltemos para as feridas que nos curaram. Voltemos para Cristo e digamos como São Tomé: ‘Meu Senhor e meu Deus, eu creio, mas aumenta a minha fé!’”
Jesus conclui: “Felizes os que creram sem ter visto” (Jo 20,29). A bem-aventurança abre espaço para todas as gerações futuras. Pe. Pablo sintetiza: “Guardem no coração: ter fé é ter o Cristo como Senhor da vida.”
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