Espiritualidade

No emaranhado da ira

Sobre as asperezas desde nosso mundo interior

Padre Dalton Barros de Almeida, C.Ss.R. (Arquivo pessoal)

Escrito por Padre Dalton Barros de Almeida, C.Ss.R.

14 OUT 2021 - 08H02 (Atualizada em 14 OUT 2021 - 08H41)

Marijus Auruskevicius/ Shutterstock stress, paciência, impaciente, nervoso (Marijus Auruskevicius/ Shutterstock)

Já se disse e muito se difundiu que “o brasileiro” é gentil e que nós, povo deste amado chão, seríamos generosos e cordiais, valorizando conviver com povos migrantes e receber turistas.

Será? Se assim já foi alguma vez, a paisagem se desfez e o mato selvagem comanda-a. Mato bravo? Isso mesmo, as paixões de toda espécie se avolumaram nas pessoas e nos estratos sociais. O que mais se dissemina nas redes digitais são teias de desinformação, difamações, e mentiras alçadas a convicções pessoais de plena verdade. Mundo da mentira. Ou do 'faz de conta'. Irrealidade ou parte dos “engenheiros do ódio”?

Viceja no consciente coletivo o viver assustado, mal-humorado. A pandemia da Covid-19 só acentuou os marcos da denegação da civilidade. Brasileiro estressado, à beira da ira acesa. Ah, que maré montante feita de medo, raiva, inimizades, rancor e desejo de vingança! Há, sim, barbaridades. Até os batalhões da Ordem... assustam, porque matam, atiram, irrompem bravos. Há gritos no trânsito e nas estradas, acessos de fúria em lugares coletivos.

Até a vida doméstica é celeiro das agressões. Desqualificam-se os cidadãos, xingam-se os passantes, brigam em festas pessoas e grupelhos. Gestos de obscenidade. Tudo parece traduzir ressentimentos, jogo de competição sobre a própria importância e a 'desimportância' do outro. Atitudes eivadas de desprezo.

O que leva a acreditar em mentiras? Só pode ser a ira. IRA! Um pecado capital, cabeça de tantas outras modalidades afins. E lá se vão da realidade a parceria, o companheirismo, as amizades de copo e cruz. Aquele “hoje quem paga sou eu”. Paciência parece não mais ser uma grande virtude.

Pepsco Studio/ Shutterstock
Pepsco Studio/ Shutterstock

Da ira nos vem embutida a agressão que deriva da boa agressividade. Atenção a esta distinção no vocabulário. Agressividade é um força para o vigor de ser sujeito, autonomizar-se. Expressa o dinamismo do amar a si, qual desejo profundo de SER e tornar-se pessoa amorável nos relacionamentos.

Agressividade é um poder de existir (coisa do narcisismo primordial) que nos faz “sonhar” e nos põe em busca do tesouro que nos leva a ampliar horizontes, criar beleza, admirar a diferença. Administrar as dificuldades. Ímpeto de mais vida e melhor convivência.

Diz-se popularmente de alguém: um 'Zé banana'. Um pai reclama: 'Este filho parece ser sem fibra'. A mãe lamenta: 'Bobo demais ele'.

Ousamos por conta de nossa força agressiva de ser. Podemos viver, então, contentes, com sentido e valorizados a nossos próprios olhos, sem investir em ciúmes ou invejas e comparações. Abençoados pela pessoa que construímos, nosso EU, e pelo que dos outros recebemos.

E de Deus, hein? Deus nos relança para dentro da vivência de todos os dias. A verdade de nosso amor a Ele, o Senhor da História, depende de como procedemos com nossos semelhantes.

Agressividade inclui a virtude da fortaleza; ela nos faz sustentar escolhas que organizem a vida pessoal e societária. E distinguimos bem o que são as agressões: perversões relacionais.

Com a virtude da fortaleza, seguimos educando nossos sentidos, evangelizando nossas profundezas, lidando com as paixões obscuras para não perder a própria dignidade nem ferir a dos outros. Pessoa humanizada fortalece a cultura humanizadora. Pessoa evangelizada é passadora de ressurreições. Assim se chega a amar de verdade. E conviver superando desencontros.

Leia MaisAmabilidade: um afeto que se aprendeAMOR é, portanto, um afeto que se aprende e se cultiva com esmero. Noite e dia. Ao longo de toda a vida. Infeliz quem se deixa embebedar pelo gosto perverso por agressões, das quais a pessoa se torna repetitiva, dependente. Quanta falta fazem, a tantos, uma educação emocional e uma inteligência espiritual!

Três citações para ruminação avaliativa do “Conhece-te a ti mesmo”.

1. Escreveu em sua 'Ética para Nicômaco' o filosofo grego (sábio) Aristóteles:

"É fácil irar-se, todos são capazes disso, mas não é absolutamente fácil e, sobretudo, nem todos são capazes de irar-se com a pessoa certa, na medida certa, no modo certo, no momento certo e por uma causa justa".

Veja: irar-se aqui para nós significa INDIGANAR-SE.

2. O apóstolo Paulo de Tarso escreveu aos Romanos sobre nossa luta interior:

"Não faço o bem que quero e cometo o mal que não quero".

Ora, se faço o que não quero, então não sou eu quem age, mas sim o pecado que habita em mim. Felizarda a pessoa que desde jovem se deu conta de sua fragilidade e aprendeu que, muitas vezes, somos tolos.

3. Montaigne, o pensador nos inícios da modernidade:

"Quando me convenço, pelos argumentos de outro, que minha opinião é falsa, tomo conhecimento da minha própria ignorância".

Segundo ele, o que ata as amizades verdadeiras é a busca e a interpelação. E aí, alguém interpela você? Como é sua escuta?

Vectorium/ Shutterstock
Vectorium/ Shutterstock

Avalie, leitora e leitor, avalie suas tensões afetivas. Suas reações quando se sente ferido. Não se destrua nem pratique autossabotagem. Se você arde por certas pulsões, não se queime com elas nem destrua os outros, deslocando suas emoções de ira sobre esses outros que te incomodam.

Faça florescer em seu jardim interior (desmatamento!) sem árvores de raízes venenosas. Planta o verde da esperança e da renovação. Como bem nos ensinou o santo e sábio Tomas de Aquino, o medieval: "Precisamos de força e temperança", ou seja, de agressividade sem agressões destrutivas.

Avalie, leitora e leitor: quem são seus companheiros de viagem pela mata escura da realidade como agora. Que sua vida transcorra numa rede de boas trocas, sem enredar-se nas teias da ira!

Afinal, avalie ainda o que significa a tamanha insistência sobre o emoji do coração, em formatos tão diversos, brasil afora. Onde mesmo está seu coração? Shalom!

Escrito por
Padre Dalton Barros de Almeida, C.Ss.R. (Arquivo pessoal)
Padre Dalton Barros de Almeida, C.Ss.R.

Nascido em 1937 e ordenado sacerdote em 1961, pertence à Província Redentorista do Rio de Janeiro e atua na Diocese de Juiz de Fora/ MG. Escreve sobre Psicoespiritualidade para o Portal A12.

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