Uma recente declaração de Dom Antonio Carlos Rossi Keller, bispo de Frederico Westphalen (RS), chamou a atenção para uma questão importante na vida da Igreja: acompanhar pastoralmente uma pessoa não significa revisar ou mudar a doutrina católica.
A afirmação foi feita após a publicação, pela diocese, da Nota Pastoral “A Pessoa Humana, o Amor, a Sexualidade e a Missão da Igreja”, em agosto deste ano.
A resposta passa por uma palavra muito presente na vida cristã: misericórdia. E misericórdia, na perspectiva do Evangelho, não significa simplesmente dizer que tudo está certo. Significa aproximar-se da pessoa, conhecer sua história, escutar suas dificuldades e ajudá-la a encontrar caminhos de conversão e crescimento na fé.
A vida cristã não acontece somente por meio de regras e conceitos. Ela acontece na vida de pessoas que têm histórias diferentes, alegrias, sofrimentos, dúvidas, erros e desejos de recomeçar.
Por isso, a Igreja é chamada a estar próxima. Um exemplo está na própria atitude de Jesus, que se aproximava das pessoas, escutava suas histórias e as convidava a uma vida nova.
É nesse sentido que a Igreja fala em acompanhamento pastoral. O objetivo não é simplesmente dizer o que uma pessoa deve ou não deve fazer, mas ajudá-la a olhar para a própria vida à luz do Evangelho.
A Exortação Apostólica Pós-sinodal Amoris laetitia (A alegria do Amor), publicada pelo Papa Francisco em 2016, desenvolveu amplamente essa perspectiva ao falar em “acompanhar, discernir e integrar” situações de fragilidade. O documento ressalta que é preciso considerar a complexidade das situações concretas e evitar julgamentos que desconsiderem o sofrimento e a história de cada pessoa.
Entretanto, isso não significa abandonar a verdade ensinada pela Igreja. É justamente aqui que aparece uma distinção importante.
Uma pessoa pode ser acolhida pela comunidade cristã mesmo quando enfrenta dificuldades para viver plenamente os ensinamentos da Igreja. O acolhimento abre espaço para a escuta, para o diálogo e para o caminho de conversão.
Ao mesmo tempo, acompanhar não significa apresentar como verdadeiro aquilo que a Igreja considera contrário ao Evangelho.
A Amoris laetitia afirma que o discernimento pastoral deve acontecer “segundo a doutrina da Igreja” e que o caminho de acompanhamento deve ajudar a pessoa a tomar consciência de sua situação diante de Deus e dos passos que podem favorecer seu crescimento.
Por isso, acolher e ensinar não são ações opostas. A Igreja pode receber uma pessoa com carinho, caminhar ao seu lado e, ao mesmo tempo, continuar anunciando aquilo que acredita ser a verdade sobre o ser humano, o amor e a vida cristã.
Essa é uma tarefa exigente porque evita dois extremos: tratar a pessoa apenas a partir de uma regra, sem olhar para sua história, ou transformar cada situação particular em uma justificativa para abandonar os princípios da fé.
Discernir significa procurar compreender, diante de Deus, qual é o caminho possível para uma determinada pessoa ou situação.
Isso exige oração, escuta, formação da consciência e conhecimento dos ensinamentos da Igreja.
O Catecismo explica que a consciência deve buscar a verdade sobre o bem e que a responsabilidade pelos atos pode ser maior ou menor conforme as circunstâncias concretas. Ao mesmo tempo, as circunstâncias não transformam automaticamente uma ação moralmente má em uma ação boa.
É uma distinção que pode parecer difícil, mas ajuda a compreender uma realidade muito presente na vida cristã: avaliar uma situação não é o mesmo que julgar o valor ou a dignidade da pessoa.
Cada ser humano continua sendo amado por Deus e chamado à salvação.
A Igreja, portanto, não acompanha alguém porque considera indiferente aquilo que essa pessoa vive. Ela acompanha justamente porque acredita que sua vida tem valor e porque deseja ajudá-la a encontrar, em Cristo, um caminho de verdade e de esperança.
Outro ponto importante é não confundir desenvolvimento da compreensão da fé com mudança arbitrária da doutrina.
Ao longo da história, a Igreja aprofundou sua compreensão de muitas questões, utilizando a Sagrada Escritura, a Tradição, o Magistério e a reflexão teológica. O próprio processo sinodal atual procura encontrar formas mais adequadas de discernir questões pastorais e éticas que surgem no mundo contemporâneo.
O Grupo de Estudo 9 do Sínodo publicou, em maio de 2026, um relatório sobre critérios teológicos e metodologias para o discernimento compartilhado de questões doutrinais, pastorais e éticas emergentes. O documento propõe caminhos de escuta e discernimento, sem apresentar esse processo como uma simples substituição dos ensinamentos da Igreja.
Também por isso, o discernimento não pode ser confundido com a ideia de que cada pessoa ou comunidade pode definir individualmente o que é certo ou errado na fé católica.
A consciência cristã precisa ser formada. A liberdade não significa fazer tudo o que se deseja, mas buscar o verdadeiro bem e aprender a escolher aquilo que conduz à vida em Deus. O Catecismo relaciona a liberdade humana à verdade e à responsabilidade moral.
Talvez a melhor maneira de compreender o acompanhamento pastoral seja olhar novamente para Jesus.
Nos Evangelhos, encontramos pessoas que se aproximam Dele carregando diferentes feridas e situações de vida. Jesus não ignora suas histórias. Ele olha para cada uma com misericórdia, oferece uma palavra e convida para um novo caminho.
Esse movimento continua sendo uma missão da Igreja: acolher a pessoa onde ela está e ajudá-la a caminhar em direção a Cristo.
Foi também nessa perspectiva que o Papa Leão XIV, ao recordar os dez anos da Amoris laetitia, destacou em 2026 a importância de continuar o caminho de conversão pastoral iniciado pelo documento e de acompanhar, discernir e integrar as fragilidades das famílias.
A pastoral, portanto, não precisa escolher entre verdade e misericórdia. Quando está enraizada no Evangelho, ela procura viver as duas.
A verdade sem caridade pode transformar a evangelização em cobrança. A caridade sem verdade pode deixar de apresentar à pessoa o caminho de transformação proposto por Cristo.
Acompanhar pastoralmente é caminhar junto. É escutar sem abandonar a verdade, acolher sem deixar de anunciar o Evangelho e ajudar cada pessoa a dar novos passos na vida cristã.
É assim que a Igreja pode ser, ao mesmo tempo, uma casa que acolhe e uma comunidade que aponta o caminho: com a porta aberta para receber seus filhos e o olhar voltado para Cristo.
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Fonte: Diocese de Frederico Westphalen/ Vatican.va/ Synod.va
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