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Acompanhamento pastoral: o que isso significa na Igreja?

Acolher, escutar e ajudar cada pessoa a caminhar na fé faz parte da missão da Igreja, sem que isso signifique mudar seus ensinamentos

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Escrito por Luciana Gianesini

03 SET 2026 - 11H42 (Atualizada em 03 SET 2026 - 12H48)

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Uma recente declaração de Dom Antonio Carlos Rossi Keller, bispo de Frederico Westphalen (RS), chamou a atenção para uma questão importante na vida da Igreja: acompanhar pastoralmente uma pessoa não significa revisar ou mudar a doutrina católica.

A afirmação foi feita após a publicação, pela diocese, da Nota Pastoral “A Pessoa Humana, o Amor, a Sexualidade e a Missão da Igreja”, em agosto deste ano. 

Mas o que, na prática, significa acompanhar pastoralmente alguém?

A resposta passa por uma palavra muito presente na vida cristã: misericórdia. E misericórdia, na perspectiva do Evangelho, não significa simplesmente dizer que tudo está certo. Significa aproximar-se da pessoa, conhecer sua história, escutar suas dificuldades e ajudá-la a encontrar caminhos de conversão e crescimento na fé.

A vida cristã não acontece somente por meio de regras e conceitos. Ela acontece na vida de pessoas que têm histórias diferentes, alegrias, sofrimentos, dúvidas, erros e desejos de recomeçar.

Por isso, a Igreja é chamada a estar próxima. Um exemplo está na própria atitude de Jesus, que se aproximava das pessoas, escutava suas histórias e as convidava a uma vida nova.

É nesse sentido que a Igreja fala em acompanhamento pastoral. O objetivo não é simplesmente dizer o que uma pessoa deve ou não deve fazer, mas ajudá-la a olhar para a própria vida à luz do Evangelho.

A Exortação Apostólica Pós-sinodal Amoris laetitia (A alegria do Amor), publicada pelo Papa Francisco em 2016, desenvolveu amplamente essa perspectiva ao falar em “acompanhar, discernir e integrar” situações de fragilidade. O documento ressalta que é preciso considerar a complexidade das situações concretas e evitar julgamentos que desconsiderem o sofrimento e a história de cada pessoa.

Entretanto, isso não significa abandonar a verdade ensinada pela Igreja. É justamente aqui que aparece uma distinção importante.

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Misericórdia e verdade caminham juntas

Uma pessoa pode ser acolhida pela comunidade cristã mesmo quando enfrenta dificuldades para viver plenamente os ensinamentos da Igreja. O acolhimento abre espaço para a escuta, para o diálogo e para o caminho de conversão.

Ao mesmo tempo, acompanhar não significa apresentar como verdadeiro aquilo que a Igreja considera contrário ao Evangelho.

A Amoris laetitia afirma que o discernimento pastoral deve acontecer “segundo a doutrina da Igreja” e que o caminho de acompanhamento deve ajudar a pessoa a tomar consciência de sua situação diante de Deus e dos passos que podem favorecer seu crescimento.

Por isso, acolher e ensinar não são ações opostas. A Igreja pode receber uma pessoa com carinho, caminhar ao seu lado e, ao mesmo tempo, continuar anunciando aquilo que acredita ser a verdade sobre o ser humano, o amor e a vida cristã.

Essa é uma tarefa exigente porque evita dois extremos: tratar a pessoa apenas a partir de uma regra, sem olhar para sua história, ou transformar cada situação particular em uma justificativa para abandonar os princípios da fé.

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O que é discernimento pastoral?

Discernir significa procurar compreender, diante de Deus, qual é o caminho possível para uma determinada pessoa ou situação.

Isso exige oração, escuta, formação da consciência e conhecimento dos ensinamentos da Igreja.

O Catecismo explica que a consciência deve buscar a verdade sobre o bem e que a responsabilidade pelos atos pode ser maior ou menor conforme as circunstâncias concretas. Ao mesmo tempo, as circunstâncias não transformam automaticamente uma ação moralmente má em uma ação boa.

É uma distinção que pode parecer difícil, mas ajuda a compreender uma realidade muito presente na vida cristã: avaliar uma situação não é o mesmo que julgar o valor ou a dignidade da pessoa.

Cada ser humano continua sendo amado por Deus e chamado à salvação.

A Igreja, portanto, não acompanha alguém porque considera indiferente aquilo que essa pessoa vive. Ela acompanha justamente porque acredita que sua vida tem valor e porque deseja ajudá-la a encontrar, em Cristo, um caminho de verdade e de esperança.

A doutrina pode se desenvolver sem deixar de ser fiel

Outro ponto importante é não confundir desenvolvimento da compreensão da fé com mudança arbitrária da doutrina.

Ao longo da história, a Igreja aprofundou sua compreensão de muitas questões, utilizando a Sagrada Escritura, a Tradição, o Magistério e a reflexão teológica. O próprio processo sinodal atual procura encontrar formas mais adequadas de discernir questões pastorais e éticas que surgem no mundo contemporâneo.

O Grupo de Estudo 9 do Sínodo publicou, em maio de 2026, um relatório sobre critérios teológicos e metodologias para o discernimento compartilhado de questões doutrinais, pastorais e éticas emergentes. O documento propõe caminhos de escuta e discernimento, sem apresentar esse processo como uma simples substituição dos ensinamentos da Igreja.

Também por isso, o discernimento não pode ser confundido com a ideia de que cada pessoa ou comunidade pode definir individualmente o que é certo ou errado na fé católica.

A consciência cristã precisa ser formada. A liberdade não significa fazer tudo o que se deseja, mas buscar o verdadeiro bem e aprender a escolher aquilo que conduz à vida em Deus. O Catecismo relaciona a liberdade humana à verdade e à responsabilidade moral.

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O exemplo de Jesus

Talvez a melhor maneira de compreender o acompanhamento pastoral seja olhar novamente para Jesus.

Nos Evangelhos, encontramos pessoas que se aproximam Dele carregando diferentes feridas e situações de vida. Jesus não ignora suas histórias. Ele olha para cada uma com misericórdia, oferece uma palavra e convida para um novo caminho.

Esse movimento continua sendo uma missão da Igreja: acolher a pessoa onde ela está e ajudá-la a caminhar em direção a Cristo.

Foi também nessa perspectiva que o Papa Leão XIV, ao recordar os dez anos da Amoris laetitia, destacou em 2026 a importância de continuar o caminho de conversão pastoral iniciado pelo documento e de acompanhar, discernir e integrar as fragilidades das famílias.

A pastoral, portanto, não precisa escolher entre verdade e misericórdia. Quando está enraizada no Evangelho, ela procura viver as duas.

A verdade sem caridade pode transformar a evangelização em cobrança. A caridade sem verdade pode deixar de apresentar à pessoa o caminho de transformação proposto por Cristo.

Acompanhar pastoralmente é caminhar junto. É escutar sem abandonar a verdade, acolher sem deixar de anunciar o Evangelho e ajudar cada pessoa a dar novos passos na vida cristã.

É assim que a Igreja pode ser, ao mesmo tempo, uma casa que acolhe e uma comunidade que aponta o caminho: com a porta aberta para receber seus filhos e o olhar voltado para Cristo.


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Fonte: Diocese de Frederico Westphalen/ Vatican.va/ Synod.va

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