A agenda está cheia. Há reuniões para organizar, mensagens para responder, celebrações para preparar, pessoas para atender e projetos que precisam sair do papel. No fim do dia, porém, pode faltar tempo justamente para aquilo que deveria sustentar todo esse trabalho: o encontro pessoal com Deus.
Esse risco também existe dentro da Igreja. Uma pessoa pode dedicar muitas horas à paróquia, à pastoral, ao movimento ou a uma obra social e, aos poucos, deixar a oração em segundo plano. Continua falando de Deus e trabalhando por Ele, mas já não encontra tempo para ouvi-lo.
É esse desequilíbrio que a expressão “heresia das obras” procura denunciar.
A expressão não significa que trabalhar pela Igreja seja errado. Também não se trata, necessariamente, de uma heresia no sentido formal de negar uma verdade da fé.
Ela é uma advertência contra uma maneira distorcida de viver a missão: agir como se tudo dependesse apenas do esforço humano, da organização, das estratégias e da capacidade de cada pessoa.
Em 1950, na exortação apostólica Menti Nostrae, o Papa Pio XII chamou esse risco de “heresia da ação”. Ao tratar da vida sacerdotal, ele alertou contra uma atividade exterior que não se apoia na graça nem nos meios oferecidos por Cristo para a santificação.
O Cardeal Elia Dalla Costa resumiu esse perigo em uma frase escrita em 1918:
“Pode ser que, ao nos dedicarmos às obras de Deus, nos esqueçamos do Deus das obras.”
É possível cuidar das coisas de Deus e, ao mesmo tempo, perder a proximidade com Ele. As tarefas aumentam, a oração diminui e o coração vai ficando cansado, impaciente e distante.
O problema, portanto, não está nas obras. Está em colocá-las no lugar que pertence a Deus.
A fé cristã nunca foi um convite à passividade. Jesus enviou seus discípulos para anunciar o Evangelho, cuidar dos doentes, acolher os pequenos e servir aos necessitados. A oração verdadeira conduz à ação e ao compromisso com o próximo.
Mesmo uma atividade boa, porém, pode ser realizada por motivações que precisam ser purificadas. A pessoa pode começar a buscar reconhecimento, querer controlar todas as decisões ou acreditar que ninguém fará o trabalho tão bem quanto ela.
Também existe o risco de medir a missão apenas pelos resultados: número de participantes, alcance nas redes sociais, quantidade de eventos ou elogios recebidos. Esses dados ajudam na organização, mas não são suficientes para medir a ação da graça. Um gesto simples e discreto pode produzir frutos que não aparecem nas estatísticas.
.:: Rotina organizada: dicas práticas para começar
O ativismo religioso pode se esconder atrás de uma rotina cheia de boas intenções. Alguns sinais merecem atenção:
Esses sinais não anulam o valor do trabalho realizado. Eles mostram que é necessário parar, rever as motivações e recuperar o sentido da missão.
A Igreja precisa de organização, planejamento, responsabilidade e competência. Preparar bem uma celebração, uma formação ou uma ação pastoral também é uma forma de respeito pelas pessoas e pela missão recebida.
São João Paulo II, na carta apostólica Novo Millennio Ineunte, chamou de “primado da graça” o princípio que deve orientar todo planejamento pastoral. Deus pede nossa colaboração, mas os frutos da missão não dependem somente da capacidade de fazer e programar.
Podemos preparar um encontro, mas não obrigar uma pessoa a abrir o coração. Podemos anunciar a Palavra, mas é o Espírito Santo quem age interiormente. Podemos semear, acompanhar e servir, mas o crescimento vem de Deus.
Confiar na graça não significa trabalhar de qualquer maneira ou esperar que Deus faça aquilo que cabe a nós. A graça não elimina o esforço humano: ela o orienta e fortalece.
O cristão trabalha com dedicação, mas reconhece que não é o dono da missão.
Em uma rotina corrida, a oração pode parecer mais uma tarefa na agenda. Também pode surgir a impressão de que parar para rezar é perder um tempo que poderia ser usado para resolver problemas.
O Papa Francisco, na exortação apostólica Evangelii Gaudium, ensina que os evangelizadores “rezam e trabalham”. Sem momentos de encontro com a Palavra e de diálogo sincero com Deus, as tarefas perdem o sentido, o cansaço aumenta e o entusiasmo se apaga.
Na vida cristã, portanto, a oração não interrompe a missão: ela faz parte da missão. É diante do Senhor que a pessoa reconhece o próprio cansaço, revê decisões, purifica suas motivações e encontra forças para continuar.
Quem não para para escutar corre o risco de trabalhar muito em uma direção que Deus não pediu. Por isso, antes de tomar decisões importantes, é necessário discernir; durante o trabalho, manter o coração unido ao Senhor; e, depois, entregar a Ele os resultados.
O Evangelho mostra que Marta se ocupava com muitos serviços, enquanto Maria permanecia aos pés de Jesus para escutá-lo. Marta não foi corrigida por servir. O problema estava na agitação que havia tomado conta de seu coração.
Jesus lhe disse:
“Marta, Marta, tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. No entanto, uma só é necessária.”
(Lc 10,41-42)
A passagem não coloca oração e serviço como inimigos. Ela ensina que o serviço precisa nascer da escuta. Sem essa base, até uma atividade realizada para Jesus pode fazer com que a pessoa deixe de prestar atenção Nele.
Marta e Maria representam duas dimensões que devem caminhar juntas: acolher o Senhor e servi-lo.
Nem sempre será possível diminuir imediatamente as responsabilidades. Algumas atitudes, porém, ajudam a recolocar Deus no centro:
Também é preciso aprender a entregar. Depois de fazer aquilo que estava ao nosso alcance, nem sempre será possível controlar os resultados.
Essa entrega não é falta de responsabilidade. É reconhecer que Deus continua agindo quando nossas forças chegam ao limite.
.:: Você não tem tempo para rezar ou não dá importância para a oração?
Jesus comparou a relação com seus discípulos à união entre a videira e os ramos. Um ramo separado da planta pode conservar sua aparência por algum tempo, mas não consegue permanecer vivo nem produzir frutos.
Por isso, Cristo afirma:
“Sem mim, nada podeis fazer.”
(Jo 15,5)
A frase não diminui a importância do trabalho. Ela nos liberta da obrigação de carregar sozinhos o peso da missão.
Quando permanecemos unidos a Cristo, as obras tornam-se resposta ao amor de Deus, serviço aos irmãos e colaboração com a ação do Espírito Santo.
A pergunta mais importante não é apenas quanto estamos fazendo, mas de onde nasce aquilo que fazemos. Quando a oração, a graça e a comunhão com Deus estão no início de cada ação, as obras deixam de nos afastar do Senhor e passam a nos conduzir para mais perto Dele.
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Fonte: Vatican News
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