Transmitir a fé às crianças, conversar sobre Deus com alguém que se afastou da Igreja ou ajudar uma pessoa a descobrir quem é Jesus: por onde começar?
Essa pergunta está no centro de um documento publicado pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, no Vaticano, em 22 de outubro de 2026.
Intitulado "Vinde a mim: Considerações sobre a transmissão da fé em uma mudança de época", o texto convida a Igreja a renovar o anúncio do Evangelho, colocando Jesus Cristo no centro da missão. A proposta é retomar o essencial da fé cristã e encontrar caminhos para que as pessoas possam fazer uma experiência pessoal e comunitária com o Senhor.
Mas o que significa começar pelo primeiro anúncio? E como essa orientação pode ser vivida em casa, na paróquia e nas relações do dia a dia?
Na linguagem da Igreja, o primeiro anúncio é chamado de querigma. A palavra vem do grego e significa proclamação. Na evangelização, refere-se ao anúncio central da fé cristã:
Jesus Cristo nos ama, entregou sua vida por nós, ressuscitou e permanece conosco.
O Papa Francisco sintetizou essa mensagem na exortação apostólica Evangelii Gaudium, no número 164:
“Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar”.
Esse é o coração do Evangelho: Deus vem ao encontro da humanidade por meio de Jesus e oferece a cada pessoa a possibilidade de uma vida nova. Antes de aprofundar os ensinamentos da Igreja, é necessário favorecer esse encontro com Cristo e ajudar as pessoas a reconhecerem o amor de Deus em sua própria história.
O primeiro anúncio, portanto, não se limita a uma etapa inicial da formação cristã. Como ensina o Papa Francisco, ele deve permanecer no centro da evangelização e da catequese, sendo retomado de diferentes maneiras ao longo da caminhada de fé.
add_box O que é querigma? Ouvi essa palavra, mas não entendi o que significa!
O documento do Dicastério para a Doutrina da Fé chama a atenção para uma realidade: em muitos lugares, a transmissão da fé entre as gerações já não acontece de maneira espontânea. Há pessoas batizadas que não mantêm uma relação próxima com a comunidade cristã, famílias que perderam o hábito de rezar juntas e adultos que precisam reencontrar o sentido da fé.
Diante desse cenário, o texto destaca a necessidade de ampliar a atenção pastoral aos adultos, sem concentrar os esforços exclusivamente na catequese de crianças e adolescentes.
A proposta é voltar ao essencial. Quando alguém conhece Jesus e descobre o amor e a misericórdia de Deus, pode encontrar novas razões para rezar, participar da comunidade e orientar suas escolhas à luz do Evangelho.
Isso também ajuda a compreender por que a transmissão da fé não pode se resumir à memorização de orações, normas e ensinamentos. Esses conteúdos são importantes, mas precisam estar ligados à experiência de seguir Cristo e de viver como parte da Igreja.
A família é o primeiro ambiente em que muitas pessoas têm contato com a fé. Fazer uma oração antes das refeições, ler um trecho do Evangelho, participar da Missa aos domingos e conversar sobre Deus diante das situações da vida são gestos que ajudam a apresentar Jesus às novas gerações.
O exemplo também tem um papel importante. As crianças observam como os adultos tratam as pessoas, enfrentam as dificuldades, pedem perdão e colocam em prática aquilo em que acreditam. Como diz um ditado conhecido em inglês: "Children see; children do" ("Crianças veem; crianças fazem").
O documento do Vaticano reafirma a responsabilidade da família na transmissão da fé e destaca a importância da colaboração com a comunidade eclesial. Afinal, pais, padrinhos e familiares precisam contar com o apoio da Igreja para acompanhar o crescimento espiritual de crianças e jovens.
Essa missão, porém, também não se restringe à infância. Adultos que nunca tiveram uma formação cristã consistente ou que se afastaram da Igreja também precisam encontrar espaços de acolhida, escuta e aprofundamento da fé.
Por isso, paróquias e comunidades são chamadas a oferecer oportunidades de encontro com a Palavra de Deus, oração, participação na liturgia e convivência fraterna.
add_box Como fazer de Deus o centro da nossa vida?
Não é necessário esperar uma ocasião especial para falar de Deus. O primeiro anúncio pode acontecer nas situações mais comuns, quando a fé é partilhada com simplicidade, respeito e coerência.
Veja algumas maneiras de colocar essa missão em prática:
Essas atitudes não substituem a proclamação explícita do Evangelho, mas ajudam a tornar o anúncio compreensível e mostram que a fé cristã tem consequências para a vida. Palavra e testemunho caminham juntos.
Se o primeiro anúncio desperta para o encontro com Jesus, a catequese ajuda a aprofundar essa experiência e a amadurecer a fé. São dimensões diferentes, mas complementares da missão evangelizadora da Igreja.
O Catecismo da Igreja Católica, nos números 4 a 6, explica que a catequese tem a finalidade de formar discípulos, favorecer o conhecimento de Cristo e introduzir as pessoas na plenitude da vida cristã. Esse caminho inclui o conhecimento da doutrina, a participação nos sacramentos e a integração na comunidade.
Por isso, anunciar Jesus e oferecer formação cristã são tarefas que precisam caminhar juntas. O encontro com Cristo abre o coração para a fé; a formação ajuda a compreender aquilo em que se acredita e a viver de acordo com o Evangelho.
O documento Vinde a mim reforça justamente a necessidade de renovar o anúncio e encontrar formas de acompanhar as pessoas em suas diferentes etapas da vida.
A missão de anunciar o Evangelho pertence a toda a Igreja e envolve cada batizado. Não depende apenas de sacerdotes, religiosos, catequistas ou pessoas que possuem formação teológica. Cada cristão pode colaborar com essa missão a partir de sua realidade, partilhando a fé que recebeu e procurando vivê-la com coerência.
Isso exige atenção à linguagem, disposição para escutar e respeito pela história de cada pessoa. Também exige reconhecer que a fé não pode ser imposta: o anúncio cristão convida ao encontro com Jesus e à liberdade de responder ao seu chamado.
81. Em resumo, para que a transmissão da fé seja realmente eficaz, ela deve se configurar como uma relação interpessoal envolvente. Para isso, «deve-se privilegiar a linguagem da proximidade, a linguagem do amor desinteressado, relacional e existencial que toca o coração, atinge a vida, desperta esperança e anseios»[82]. Essa comunicação não pretende falar primeiro, mas nasce, antes de tudo, da escuta, tornando possível uma verdadeira troca de dons entre quem anuncia e quem acolhe o anúncio, facilitando assim o encontro com Cristo que caminha conosco.
Assim, ao colocar o querigma no centro da evangelização, o Dicastério para a Doutrina da Fé recorda que a transmissão da fé começa e recomeça no encontro com Cristo vivo. É desse encontro que nasce o desejo de conhecer melhor o Evangelho, participar da comunidade e testemunhar o amor de Deus.
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Fonte: Vatican News
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