A evangelização do Brasil está diretamente ligada à formação da nação brasileira. Portugal, ao longo de quase três séculos, criou uma colônia e ocupou gradativamente um território habitado por inúmeras nações indígenas.
Esta vasta população foi sendo dizimada pela guerra, pelos massacres, pela escravidão e pelas doenças trazidas ou provocadas pelo branco europeu — sem deixar de mencionar a disseminação do alcoolismo. Uma parte sobreviveu, fugindo para regiões inacessíveis aos brancos; outra pequena parte foi integrada ao novo povo, junto aos africanos que, mais tarde, foram trazidos como escravizados.
A evangelização está ligada à colonização e, na maioria das vezes, a consciência da época era esta: era preciso e legítimo subjugar os indígenas (“pacificar”) para depois cuidar de sua evangelização. Esta foi a razão maior do massacre e, talvez, um dos maiores pecados da história da Igreja no Brasil em seu período colonial.
Aqui, Portugal passou a aplicar táticas já utilizadas com relativo sucesso em outras áreas conquistadas. A política colonizadora abrangia todos os campos, mas era legitimada por diversos elementos religiosos.
A primeira fase de nossa história começa no ano de 1500 e estende-se até 1759, quando cerca de 600 jesuítas foram expulsos do Brasil durante a administração do primeiro-ministro português, o Marquês de Pombal.
A fase de implantação do catolicismo e da organização das primeiras estruturas da Igreja foi sustentada por alguns elementos, descritos sumariamente a seguir:
Espírito de cruzada: herança da Idade Média, trazia o ideal de expansão da fé e conversão dos “infiéis”, utilizando, por vezes, meios contrários à própria ética cristã.
Ligação do poder temporal com o poder religioso: manifestou-se sob a forma do Padroado Régio. Na teoria, os fins espirituais vinham primeiro; na prática, os objetivos temporais prevaleciam.
Ação do Estado: A Igreja estava subordinada ao Estado, que se encarregava de recrutar missionários e sustentar a organização territorial. Isso era decorrência do Ideal de Cristandade e da união entre o trono e o altar.
Política oficial: A Igreja colocava-se a serviço da política oficial, legitimando a autoridade da Coroa em troca da proteção fornecida pelo Estado.
Após chegarem ao Brasil no início do século XVI, os portugueses tomaram posse da terra e implantaram um modelo colonial baseado na economia mercantilista, no monopólio da metrópole sobre a colônia e na subserviência da Igreja. Assim, amparada e protegida, a instituição pôde desenvolver-se, evangelizando a população e criando suas primeiras estruturas.
Passada a fase de deslumbramento e angústia diante da natureza a ser dominada, os portugueses trataram de adaptar o que se convencionou chamar de “civilização”, mesmo com as limitações de suporte material e moral da metrópole portuguesa.
Aos poucos, a máquina civil e administrativa de Portugal foi montada, seguindo os moldes da metrópole. O mesmo ocorreu com as estruturas da Igreja.
Administração: as cidades e vilas criadas eram administradas pela Câmara Municipal, que, ao lado do Governo Geral, gozava de prestígio e autonomia.
Justiça: era aplicada pelas autoridades locais, apoiadas pelas câmaras. Gradualmente, destacou-se a autoridade dos donos de engenhos e fazendas (sistema de Casa-Grande e Senzala), que se tornaram as autoridades de fato no nível local.
Economia: A política da Coroa pautava-se pelo mercantilismo. A exploração seguia o exclusivismo metropolitano, e a terra era colonizada pelo sistema de latifúndio e monocultura, desenvolvendo o sistema dos Ciclos Socioeconômicos.
Política: inicialmente prevaleceu certa autonomia, mas a fiscalização e a tributação cresceram, sobretudo com a exploração das minas, levando à centralização administrativa.
Sociedade: na sociedade brasileira em formação, predominavam duas classes: os patrícios (senhores de engenho, donos de terras e minas) e a gente livre (brancos pobres e dependentes). Indígenas e negros escravizados permaneciam à margem da pirâmide social.
Cultura: O controle nesta área era rígido. A Igreja constituía a única classe letrada e, aos poucos, o acesso à cultura foi estendido aos filhos da elite branca. Somente no século XVIII surgiram as primeiras academias e sociedades secretas. Para estudos universitários, era necessário recorrer à Universidade de Coimbra, em Portugal.
Neste cenário, a Igreja desenvolveu sua ação evangelizadora, sempre sob o controle do Estado. A essa simbiose devem-se muitas das características da formação da nação brasileira.
Embora o contato inicial tenha ocorrido em 1500, a exploração e a evangelização efetivas só começaram após cerca de 30 anos de relativo abandono. A terra, inicialmente chamada de Terra de Santa Cruz e Vera Cruz, tornou-se o Brasil.
A partir da primeira missa, celebrada pelo franciscano Frei Henrique de Coimbra, iniciou-se o trabalho de estabelecer uma organização territorial e as estruturas mínimas da Igreja. Contudo, foi apenas no final do século XVII, com a descoberta do ouro, que Portugal passou a dedicar um cuidado mais rigoroso à colônia.
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