História da Igreja

As duas cidades de Roma

Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

12 FEV 2026 - 14H39 (Atualizada em 12 FEV 2026 - 15H36)

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As cidades do Brasil são muito novas, se comparadas com as mais antigas cidades do mundo. Jericó é considerada a mais antiga cidade do mundo continuamente habitada, existindo evidências de sua ocupação desde o século X antes de Cristo, sendo uma das primeiras cidades com muralhas e habitações permanentes e a mais antiga em termos de vestígios arqueológicos de urbanização. Outras cidades, como Biblos (Líbano) e Varanasi (Índia) também se colocam na lista das mais antigas, graças à longa história de assentamento humano ininterrupto.

No Brasil, São Vicente, localizada no litoral paulista, perto de Santos é considerada como a cidade mais antiga, fundada em 1532 por Martim Afonso de Sousa, como primeiro núcleo urbano e primeira vila do país, mas Cananeia, também localizada no litoral paulista, fundada um ano antes, em 1531, é considerada por muitos historiadores como o primeiro povoado e a mais antiga, com construções históricas preservadas como a Igreja de São João Batista.

Outras cidades são também consideradas pela sua antiguidade, como Vila Velha (ES), Olinda (PE), Salvador (BA) e São Paulo (1554), construídas por ordem do Rei de Portugal para defender o território do Império Português, a maioria delas localizadas próximas ao litoral, como São Sebastião do Rio de Janeiro (1565), Paraíba ou João Pessoa (1585), São Cristóvão (1590, em Sergipe), Natal (1599) e Belém (entre 1616 e 1628) e São Luís (1612).

Nenhuma das cidades brasileiras, porém, chegam perto de Roma, considerando-se sua fundação lendária ou não, em 753 antes de Cristo. Graças aos trabalhos arqueológicos podemos dizer que existam hoje ao menos duas cidades de Roma: A que está acima da superfície, visita por milhões de turistas todos os anos, e a que está escondida sob a terra, podendo ser considerada uma cidade sob a cidade.

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A Roma subterrânea

Cada uma das cidades mais antigas do mundo guarda um tesouro escondido nas profundezas, sob a superfície. Isso acontece com Roma, que preserva verdadeiros tesouros enterrados que provam a grandeza de seu passado, mostrando a passagem do tempo do paganismo ao cristianismo. Esse outro lado da cidade é desconhecido não só da maioria dos turistas, como também dos próprios habitantes, que diariamente pisam em seus paralelepípedos sem pensarem naquilo que está por baixo deles.

Os distritos de Roma histórica, chamados de “Rione”, se estendem por uma área de aproximadamente 16 quilômetros quadrados, indicando as áreas do centro histórico da cidade. Nessa área existem túneis, aquedutos ainda em funcionamento, cavidades escavadas na pedra vulcânica ou calcárea, restos de ricas habitações do passado, catacumbas, bunkers antiaéreos e antigos locais de culto. É por isso que, a linha 3 do metrô se encontra em construção há mais de 20 anos, pois as escavações dos túneis por onde deverão passar as composições dos trens volta e meia se deparam com restos de antigas construções que precisam ser estudadas, catalogadas e preservadas.

Na própria Casa Generalícia da Congregação Redentorista já foram encontrados restos das fundações do Arco de Galieno, vizinho ao Instituto Histórico que, estudadas e preservadas hoje se misturam com as estantes da Biblioteca da Academia Alfonsiana.

Para falar melhor dessa Roma subterrânea, escolhemos três exemplos mais significativos e, talvez, menos conhecidos que as mais de 60 catacumbas com seus corredores que abrigam milhares de túmulos, ou as criptas da Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Basílica dos Santos João e Paulo. No subterrâneo dessa basílica foi encontrada uma casa que as pesquisas aos poucos estão revelando como uma das primeiras a servir de local de culto dos cristãos, composta de corredores, pisos de azulejos, afrescos de procissões marinhas e figuras em atitude de oração emergindo das paredes. No silêncio do Monte Celio, onde está localizada, foram também encontrados lojas e alojamentos que contam sobre uma casa tardo-antiga onde paganismo e cristianismo se tocam e se encontram.

O complexo nasceu entre os séculos II e III depois de Cristo, como uma reunião de tabernas, com vista para o Clivus Scauri. No século III, algumas salas foram unidas em uma domus (casa) decorada com cenas marítimas, jardins e figuras femininas. No século IV, surgiram oratórios onde são encontrados símbolos cristãos.

A tradição identifica essa casa como sendo dos mártires João e Paulo, mortos durante o reinado de Juliano, o Apóstata (362 d.C.). No final do século IV e início do século V, um senador de nome Pammachius ergueu a basílica acima das casas que ainda hoje dominam a colina, preservando os cômodos abaixo como um lugar de memória. Escavadas e abertas aos visitantes desde 1887, as Casas Romanas da Colina Celiana são uma das raras paisagens domésticas tardo-antigas de Roma que possuem afrescos legíveis e estratigrafia.

Basílica de São Clemente, Papa. Localizada a poucos passos do Coliseu, esse complexo conta dois mil anos de história, através de três níveis que já foram escavados e se encontram perfeitamente preservados. Debaixo de uma basílica medieval do século XII, existe uma basílica cristã primitiva datada do século IV, decorada com afrescos que narram os milagres de São Clemente, cujas relíquias estão debaixo do altar central.

Quando se atinge o nível mais profundo se encontra os restos de um templo do deus Mitra, que era cultuado numa vasta região que ia do atual Irã até a Índia. Seu culto foi trazido pelos romanos do primeiro século, tornando-se popular, sobretudo nas legiões romanas, sendo visto como um deus guerreiro e salvador, conhecido como Sol Invictus (Sol Invencível), cuja festa seria substituída pelo natal cristão. No subterrâneo da basílica pode se ouvir o som da água de um córrego ainda fluindo entre as pedras antigas.

Os afrescos cristãos primitivos do subsolo de São Martinho ai Monti. Muitas igrejas de Roma escondem tesouros de valor inestimável em seus subterrâneos. A Basílica de São Martino ai Monti, localizada bem pertinho da casa dos Redentoristas, na Via Merulana, permite descer ao chamado “Titolo di Equizio”, uma antiga basílica cristã primitiva do século IV, construída pelo Papa Silvestre I.

Salas onde os primeiros cristãos celebravam o culto quando a Igreja obteve a liberdade foram preservados e trazidos à luz com as escavações. Os afrescos e decorações originais transportam o visitante para uma era de fervor religioso e de transformação social, alcançada pela Igreja depois de ao menos três séculos de perseguições.

Muitos segredos ainda se escondem sob os subterrâneos de Roma e, aos poucos, vão sendo revelados. Esses poucos exemplos apresentados nesse artigo servem para nos dar uma ideia da cidade de Roma que existe abaixo dos pés dos visitantes e que ainda precisa ser mais conhecida.

Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

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