História da Igreja

As viagens na Idade Média

Um viajante sabia quando iria partir, mas nem sempre sabia quando chegaria ou se voltaria!

Escrito por Pe. José Inácio Medeiros, C.Ss.R.

23 ABR 2026 - 15H17 (Atualizada em 24 ABR 2026 - 16H53)

ThePixLab/Adobe Stock

Longe de ser uma era sombria ou de “trevas”, como posteriormente seria chamada, a vida era bem vibrante e, na Idade Média, as viagens e deslocamentos de pessoas de quase todas as categorias sociais eram bem mais frequentes do que se poderia imaginar.

No roteiro das viagens, o primeiro destaque fica com as peregrinações a santuários ou lugares santos, quase sempre com finalidade penitencial ou de expiação dos próprios pecados. Outro tipo de viagens eram as longas jornadas de mercadores que se deslocavam de cidade em cidade com finalidade comercial, recriando aos poucos as grandes rotas comerciais que cruzavam a Europa.

Vieram depois as cruzadas, realizadas a partir do século XI (1095), ajudando a reabrir caminhos, levando milhares de pessoas à Terra Santa, independentemente dos perigos que a viagem podia trazer.

No mundo medieval, uma jornada deste tipo era vista como se fosse uma metáfora da própria vida, comparada a uma jornada que se faz do nascimento até a morte, após a qual havia a passagem para a vida eterna, na última viagem de cada pessoa. Portanto, toda vez que uma pessoa fazia uma peregrinação, estava refazendo a jornada da existência.

Existiam, porém, as viagens curtas, que levavam as pessoas da zona rural e dos povoados rurais às cidades e vilas em busca do suprimento de suas necessidades básicas, mas também em busca de passatempos e diversões.

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Como as pessoas viajavam na Idade Média

Muita gente hoje gosta de pedalar por trilhas rurais e de montanha, no verão ou no meio do inverno, esquecendo o conforto do asfalto, passando por estradas empoeiradas, cheias de buracos e cobertas de pedras; por estradas que, no outono, estão cobertas de lama, nas quais pode afundar até os tornozelos, ou que, no inverno, tornam a viagem uma verdadeira aventura. Isso vale tanto para o homem como também para os animais, que correm o risco de quebrar uma perna ou, em casos de acidentes mais graves, de serem até mesmo sacrificados.

As dificuldades que muita gente experimenta hoje eram vividas mais intensamente pelos camponeses nos tempos antigos, quando queriam sair de seus campos para alcançar as cidades, como também as dificuldades dos peregrinos, mercadores e todo tipo de viajante da Idade Média.

As condições das rotas de comunicação eram muito precárias. A maioria delas eram estradas rurais não pavimentadas, e nem estamos falando ainda do asfalto, com pouca manutenção, principalmente devido à instabilidade política que reinava naquela época.

As pessoas se moviam quase sempre a e, apenas as pessoas mais ilustres podiam viajar montadas em mulas ou a cavalo. O transporte por veículos com rodas praticamente caiu em desuso na Idade Média e, além do mais, o pequeno tamanho das estradas em muitos lugares não permitiria a passagem de carroças.

Os que se faziam peregrinos quase sempre se deslocavam a pé, portanto, seus equipamentos eram limitados ao mínimo possível: uma capa, um chapéu de aba larga, um alforje e um bastão com ponta de metal.

A aventura de viajar sujeito a todo tipo de perigos

Os romanos do Antigo Império haviam alcançado um bom grau de organização, construindo uma rede com mais de 80 mil km de estradas, mas, com a desintegração dessa rede de estradas romanas, viajar pelas rotas terrestres tornou-se bastante desconfortável, lento, perigoso e até mesmo ousado, sem falar no custo de uma viagem que a tornava inacessível para a maioria das pessoas.

Ao longo das antigas estradas consulares, o pavimento carecia de manutenção adequada e muitos trechos foram tomados pela vegetação. Nesse contexto, surgiu outra dificuldade, vista por muitos como uma “praga das atuais rodovias”: os pedágios. Muitos senhores começaram a exigir a cobrança de taxas, como exemplo de pedágio, para que as pessoas pudessem atravessar sua propriedade. Por outro lado, as florestas ofereciam mil perigos porque escondiam ladrões, salteadores e bandidos, lobos e ursos. Uma pessoa sabia quando iria partir, mas nem sempre sabia quando chegaria e se voltaria.

No entanto, pouco a pouco, uma nova rede de estradas de terra começou a unir os centros urbanos mais importantes. As cidades passaram a ser conectadas entre si por uma estrada principal e por outras ruas locais, mas que, em geral, não tinham um projeto determinado. Aos poucos surgem conjuntos de rotas paralelas que permitiam ao viajante ajustar-se às contingências políticas ou climáticas, escolhendo a rota menos aventureira ou tentando evitar os territórios mais problemáticos ou perigosos.

De qualquer forma, as estradas e rotas medievais não conseguiam competir com as grandes vias consulares romanas. Ainda assim, algumas cidades e vilarejos da Idade Média chegaram a reutilizar ao menos alguns trechos das rotas antigas ou reaproveitaram seus materiais. No geral, os caminhos eram modestos, sinuosos e inclinados, com não mais de três metros de largura, pavimentados de forma rudimentar, que podiam ser cobertos novamente por vegetação. O uso de pontes não era generalizado e, ainda assim, a maioria era estreita, com pilares muito baixos, frágeis e expostos a danos por enchentes.

Por essas razões, comparada à Antiguidade, a velocidade de uma viagem por terra diminuiu bastante, permanecendo muito lenta por séculos. O viajante se deslocava principalmente a pé, como a maioria das pessoas, não podendo fazer outra coisa até o século XIX.

Para os peregrinos, em particular, que em grande número cruzavam as estradas da Europa, caminhar era considerado a forma mais virtuosa de alcançar o objetivo. Embora seja provável que alguns deles usassem uma montaria real, geralmente chamavam de "nossa mula" o bastão longo e firme com a ponta de ferro no qual se apoiavam, o único e rudimentar meio de se locomover (“bordone, da burdo, mulo”).

A montaria era prerrogativa, acima de todos, dos mercadores para o transporte de mercadorias ou de alguma pessoa importante, e veículos com rodas já haviam se tornado raros há muito tempo: até mesmo os mercadores viajavam devagar, no ritmo dos animais de carga carregados de mercadorias. 

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