Por Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R Em História da Igreja Atualizada em 20 FEV 2020 - 09H59

Catacumbas protegem cristãos e se tornam lugares de culto

PÁGINAS DE HISTÓRIA DA IGREJA

HISTÓRIA ANTIGA 19


David Soanes/ Shutterstock
David Soanes/ Shutterstock


As catacumbas romanas eram cemitérios construídos em galerias subterrâneas. Sua extensão fazia com que elas formassem verdadeiros labirintos, algumas com vários quilômetros de extensão. Dentro desses cemitérios subterrãneos os primeiros cristãos, ao serem considerados clandestinos e perseguidos pelo Império Romano, passaram a enterrar os seus mortos, alguns deles mártires e, excepcionalmente, ali realizavam alguns ritos litúrgicos, pois os cemitérios eram lugares protegidos que não podiam ser profanados.

Algumas dessas catacumbas foram escavadas e ampliadas perto dos sepulcros de famílias importantes de Roma, cujos proprietários, recém-convertidos as abriram para os irmãos de fé. Com o aumento das perseguições que deixaram de ser esporádicas, tornando-se sistemáticas, as catacumbas passaram a receber também elementos de arte e teologia cristã, mostrando hoje como a fé em Cristo foi se expandindo nos primeiros tempos da caminhada histórica da Igreja.

A origem da palavra “catacumba” é incerta, mas uma das possibilidades mais apontadas pelos estudiosos é que o termo seja originário de um termo grego que significa abaixo, unido com outro termo que significa túmulo. Alguns estudiosos a consideram uma palavra híbrida, formada por um termo grego e pela raiz latina cumbo, que significa “jazer”, “estar deitado”.

O nome catacumba foi dado inicialmente ao cemitério de São Sebastião, onde tinham sido enterrados São Paulo e São Pedro. Depois, com as invasões dos Povos Germânicos que destruíam e saqueavam tudo à sua passagem, inclusive as catacumbas que costumavam ficar fora das muralhas da cidade, os papas decidiram transferir as relíquias dos mártires e dos santos para as igrejas do lado de dentro dos muros da cidade.

Por vários séculos as catacumbas tinham sido refúgio para os cristãos sepultarem os seus mortos e expressarem a sua fé, com símbolos gravados nas paredes que chegam a ser verdadeiras obras de arte. Nessas catacumbas alguns túmulos foram se destacando, especialmente os túmulos dos mártires, sendo que ao redor deles os cristãos se reuniam para as celebrações.

Leia MaisAs grandes epidemias da história Elas foram amplamente usadas do século II até as primeiras décadas do século V, quando o Cristianismo passou a ser mais tolerado em Roma. Com isso, já não seria mais necessário se esconder e o sepultamento de forma cristã passou a ser regra para toda a sociedade. A Igreja até o século XIX podia ter os seus próprios cemitérios.

Aos poucos as catacumbas foram perdendo relevância e caindo praticamente no esquecimento até serem redescobertas por operários por volta de 1578. Ao longo da Idade Média uma prática cristã era a sepultura de pessoas importantes nas capelas das basílicas, catedrais e castelos.

Liberdade de culto e de propagação

Com o Edito de Milão publicado no ano 313 pelo imperador Constantino, terminou oficialmente o período de perseguição contra os cristãos que passaram a construir suas igrejas e seus próprios lugares de culto, ganhando ou adquirindo terrenos para novos cemitérios. As catacumbas, porém, continuaram sendo usadas até o século V. Ainda no século IV aconteceria algumas perseguições, mas de forma ocasional.

Os primeiros cristãos não tinham o hábito de utilizar mais de uma vez um túmulo, o que dificultava a questão de espaço, pois em pouco tempo não havia mais local a céu aberto onde pudessem ser edificados novos cemitérios. Como eles também tinham um desenvolvido senso comunitário, ansiando por estar sempre próximos um do outro, optar por sepultar os mortos em covas subterrâneas não foi uma escolha difícil, uma vez que não se aceitava a cremação dos corpos.

Além disso, as catacumbas poderiam também, ao mesmo tempo, ser um espaço consagrado ao culto e outros rituais, aproveitando a presença dos corpos, inclusive dos mártires cristãos mortos nas arenas romanas, para não só realizar celebrações fúnebres, mas também para cultivar a sua memória.

Os sítios onde eram localizadas as catacumbas permitiam aos fiéis conciliarem todas as suas necessidades e, ao mesmo tempo, solucionarem os desafios que lhes eram impostos pelo contexto político da época.

Visão cristã da morte e arte litúrgica

A visão cristã da morte levou ao desenvolvimento primeiro dos rituais que envolvem este momento, a partir da crença na vida depois da morte, contribuindo ainda no desenvolvimento da arte cristã nas paredes e túmulos das catacumbas.

Nelas, através de gravuras, pinturas e afrescos, bem como pela utilização de símbolos, eram expressos o desejo dos cristãos atingirem o paraíso e, ao mesmo tempo, as pinturas murais constituíam elementos dos ritos funerários, inclusive dos enterros, ajudando a preservar os sepulcros.

Atualmente várias catacumbas estão abertas para a visitação pública, sendo muito procuradas pelos turistas. Elas estão normalmente localizadas junto às estradas, como a Via Ápia, onde está situada a mais procurada delas, a catacumba de São Calisto, no centro de Roma. Hoje há pelo menos 40 catacumbas conhecidas na cidade de Roma, a maior parte delas localizada em vias famosas que antigamente formavam a rede de estradas que ligava todas as regiões do império.

Escrito por
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R. (Arquivo redentorista)
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R

Redentorista da Província de São Paulo, graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma, já trabalha nessa área há muitos anos, tendo lecionado em diversos institutos. Atua na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da Província de São Paulo.

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