Por Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R Em História da Igreja Atualizada em 21 SET 2017 - 09H59

História da Igreja na América Latina: Encontro de mundos diferentes

PÁGINAS DE HISTÓRIA DA IGREJA NA AMÉRICA LATINA 
Parte 15 

Ao contrário do que muitos livros de história afirmam, a evangelização da America Latina, com os seus diversos povos e civilizações não foi feita de forma tão pacífica, mas enfrentou muitos conflitos e dificuldades aos longo dos 500 anos da primeira evangelização.

Encontro, Métodos Evangelizadores e Conflitos:

A evangelização propriamente dita possui três momentos estruturais: Primeiro, vem o encontro, depois a conversão e, na sequência, a vida cristã subsequente. Dos dois primeiros momentos depende em muito o terceiro.

 

Caravela espanhola

A distância da Metrópole dificultava a vinda de
missionários para a America. Uma viagem durava
em média 45 dias, podendo chegar até a 70 dias.

Neste processo, diante da evangelização é possível ao menos duas posturas. A primeira é identificada com o modelo daCristandade o que reduz o sujeito da evangelização ao método da tabula rasa. Em muitos episódios o encontro das civilizações aqui na América e o processo de evangelização se fez em meio à violência da conquista. Neste método se desconhece os valores que o outro traz, se reduz a zero os seus conhecimentos e se parte para a Doutrinação. Este método não toma em consideração a cultura indígena, mas impõe a cultura e a doutrina pela força da conquista, fazendo uma doutrinação massiva. No melhor dos casos, vinha o paternalismo, pois se considerava os índios como se fossem crianças que tudo precisavam aprender.

O método mais adequado e que também foi bem usado na América Latina é identificado com a Postura Missionária. Neste método não se apaga o que o outro traz, mas parte-se para a ação baseada no respeito pelo outro. Assim, a evangelização se faz com a promoção do outro e com consciência, podendo se identificar com a evangelização mais adequada.

O encontro das totalidades - Modos de enfrentar-se

 

 

 

 

Chegada dos Europeus

O encontro do mundo europeu com o indígena
não se fez de forma pacífica.

 

Os produtos tecnológicos das totalidades histórico-concretas dos europeus representadas num primeiro momento pelos espanhóis e portugueses eram superiores e, com isso, a dominação se fez no nível econômico, político e, por fim, no religioso. O uso de armas de fogo e do cavalo, além de outros produtos, fez com que a superioridade dos povos europeus fosse gritante.

Entendemos que o processo de evangelização como encontro foi o choque de dois povos, de duas estruturas prático-produtivas ou duas culturas. O religioso garantiu e legitimou a superioridade do europeu e a ordem estabelecida de dominação.Houve o choque e o encontro desigual entre a visão de mundo dos índio latino-americanos contra a visão de mundo Hispano-Lusitano.Para o índio, ser espanhol-português e ser cristão era a mesma coisa.

Diante disto como se colocava a tarefa do missionário? Isso nem sempre era pacífico, mas o missionário devia fazer a distinção entre o ser espanhol e o ser cristão, convertendo as populações indígenas ao cristianismo e não só à cultura europeia.Por esta forma de evangelização os missionários tentavam fazer a evangelização pela persuasão da razão e do entendimento do índio e reconhecem a dignidade de ser humano do evangelizado (importância da bula Altitudo Divini Consilii de Paulo II - 1537). Aqui, a evangelização se faz sem armas. 

Papa Paulo II

A evangelização deve reconhecer a dignidade e
a vontade do evangelizado

Para desenvolver os métodos pacíficos eram exigidas certas técnicas como o conhecimento das línguas indígenas (Insistência das cédulas reais, Sínodos e Concílios). Mas havia um elemento muito complicado de se realizar: Como traduzir os dogmas e conceitos nas línguas e nas culturas dos povos indígenas fazendo a catequese das verdades cristãs?

Dentro desse mesmo sistema mais pacífico, aconteceram também casos de paternalismo de Tabula Rasa ou foram usados métodos pacíficos em regiões anteriormente conquistadas pela violência. Muitas e muitas vezes o missionário devia ser um critico da exploração colonial, como tão bem o fez o Frei Bartolomeu de Las Casa e muitos outros, sobretudo, aqueles que eram das ordens religiosas.

Como se fez a evangelização: Primeiro se conquistava militarmente uma região, se fazia a sua pacificação, se organizava o governo e se convertia a população à religião dos dominadores, começando a construção de algumas estruturas físicas de Igreja.Neste processo a Igreja foi colocada como um dos meios que possibilitou a expansão pré capitalista Hispano-Lusitana.

Esta sistemática de junção da evangelização com a colonização levou vários setores da Igreja a reagir ao sistema colonial. Alguns queriam a submissão da missão diretamente à Roma, sem passar pelo controle do estado espanhol ou lusitano.De outros brotou acritica profética aos métodos de conquista e evangelização, propondo em seu lugar outros métodos.Ainda uma parte apoiava os estados chegando a identificar Portugal e Espanha com a Igreja, qualificando sua obra como perfeita.

Um amplo setor da Igreja que se opunha à expansão guerreira e a dominação mercantilista buscou a autonomia em relação à coroa e as classes dominantes da América que colaboravam com o conquistador.

Modos diversos de Evangelizar

Os métodos de evangelização dependiam não somente do agente evangelizador como as ordens religiosas, clero secular e leigos, mas da cultura dos indígenas e da situação histórico-concreta. Entre os diversos métodos de organização da missão existiam dois extremos:

* Os que admitiam como convenientes e mesmo necessárias as estruturas da conquista e exploração para a evangelização. Desta posição vem o método de Tabula Rasa e Doutrinação já citados.

* De outro lado estavam os que optaram pela autonomia em relação às estruturas da cristandade e se opuseram à violência das armas. Desta posição surgem os métodos de evangelização fora da ordem colonial que primam pela valorização da cultura indígena e respeito. Exemplo: Reduções.

Críticas da Santa Sé ao Sistema de Padroado

A partir do final do século XVI e princípios do século XVII começaram as criticas ao Sistema do Padroado, com tentativas de fazer a evangelização independente do sistema colonial.Estas criticas surgiram especialmente a partir das demonstrações de fragilidade no sistema Hispano-Lusitano e com a entrada de outros países no sistema colonial (Holanda, Inglaterra e, sobretudo, a França, país essencialmente católico).

Atitudes da Santa Sé: Em 1622 a Santa sé criou a Sagrada Congregação de Propaganda Fide para coordenar a evangelização nos territórios de missão.Com isso, aumentou a critica os vícios do sistema do padroado e aos vícios da evangelização como os conflitos entre religiosos e seculares, entre Bispos e religiosos e religiosos das ordens entre si. Criticava-se também a febre mercantil de muitos missionários que queriam enriquecer-se para voltar à metrópole e os maus tratamentos feitos aos índios, bem como o envolvimento dos missionários em questão civis e a ignorância das línguas.

Dificuldades da Evangelização

 

Rei Felipe II de Espanha

Com o domínio da Espanha, aumenta a
ingerência do estado na vida interna da Igreja

Desde os primeiros tempos já se enfrentava algumas dificuldades que, em parte, persistem até os dias de hoje. Entre elas destacamos a escassez de missionários, a extensão de dioceses e paróquias, a falta de recursos e a necessidade de empenho na formação de um clero autóctone.

Outras dificuldades eram a ingerência dos reis e autoridades coloniais nas questões meramente eclesiásticas, com a cumplicidade dos missionários, bom como a falta de zelo pastoral de certos missionários e bispos. A intervenção da Propaganda Fide ou do papa nas Américas foi impedida, ou ao menos dificultada, pois os documentos e bulas precisavam da aprovação real para que tivessem validade. Isto se fazia pela prática do Exequátur.

Outra dificuldade foi o domínio de Portugal por parte da Espanha entre 1580 e1640, porque Portugal era mais liberal que a Espanha. As relações de Portugal com a Santa Sé só serão normalizadas totalmente em 1737. Por fim, outra dificuldade foi a "Questão do Ritos" que impediu a adaptação litúrgica do cristianismo às diversas culturas e povos, especialmente no oriente (Japão, China e Índia), mas com reflexo aqui na América Latina.

 

Padre Inácio Medeiros, C.Ss.R. 
Mestre em História da Igreja  
pela Universidade Gregoriana 

Escreve série sobre a 
História da Igreja no Brasil 
para o A12.com

Escrito por
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R. (Arquivo redentorista)
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R

Redentorista da Província de São Paulo, graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma, já trabalha nessa área há muitos anos, tendo lecionado em diversos institutos. Atua na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da Província de São Paulo.

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