Por Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R Em História da Igreja Atualizada em 21 SET 2017 - 09H38

História da Igreja na América Latina: Clero diocesano e religioso

PÁGINAS DE HISTÓRIA DA IGREJA NA AMÉRICA LATINA
Parte - 20
 

Nos últimos artigos desta coletânea de 'Páginas de História da Igreja na América Latina', estamos acompanhando o modo como a Igreja foi se organizando no continente americano em vista da missão maior que é a evangelização, levando tanto a população nativa como a população ibérica para cá transportada à vivência da fé.

Nos artigos precedentes falamos da estrutura eclesiástica episcopal, da ação das grandes ordens religiosas e de um importantíssimo instrumento favorável à organização interna da Igreja que foram os concílios e sínodos.

Neste artigo continuamos falando da organização da Igreja em vista da missão, focando a ação do clero, tanto o diocesano como o religioso. 

Clero e Cabildo Eclesiástico

Em geral a situação do clero era bem ruim, pois a maioria das leis da Índias era restritiva ou proibitiva.

No final do século XVI havia apenas 158 clérigos em todas as colônias hispânicas, dos quais 78 eram criollos (nativos). Na capital Lima, Peru, em 1799, havia 161 paróquias, com 660 Sacerdotes. A maioria das paróquias era rural. De cada 10 paróquias 8 eram rurais.

Um elemento de extrema significância era a presença dos religiosos. Na cidade do México, por exemplo, existiam 26 colégios e residências, 4 asilos, 15 mosteiros femininos, 11 colégios, 7 hospitais e 85 capelas do Santíssimo.

O Clero secular no geral enfrentava 3 problemas graves: Pobreza econômica extrema (Com exceção dos curas das catedrais), formação teológica insuficiente e ocorrência de problemas relacionados, sobretudo, à moral sexual. Para solucionar a questão da pobreza usava-se o recurso das esmolas e dízimos. Para solucionar os problemas e questão morais investiu-se na ação da inquisição e no incentivo da vida comum e para fazer frente à insuficiência de formação investiu-se na fundação de seminários e na melhoria da educação.

A formação do clero sempre foi uma questão preocupante. A princípio se discutiu bastante sobre a capacidade dos nativos e sua idoneidade, por isso a dependência do exterior era quase que total.

Foto de: reprodução.

Catedral de Buenos Aires

Cada catedral tinha o seu Cabildo Diocesano que,
por sua vez, tinha sua correspondência
na Sociedade Colonial.

Formação nos seminários

Deixando de fora os colégios e universidades, somente em 1536 foi fundado o primeiro seminário em Santo Domingo. As maiores dificuldades eram encontradas na manutenção econômica dos seminários e na formação de um razoável corpo de professores.

Os primeiros seminários enfrentaram a oposição e a pressão dos espanhóis, receosos da formação de uma elite indígena, mas apesar disso, de 1538 a 1809 foram fundados 52 seminários, dos quais 8 aqui no Brasil.

Aqui recordamos dois fatores que impulsionaram a fundação de seminários: No século XVI veio a influência das medidas saneadoras do Concilio de Trento e no século XVII ajudou muito a fundação da Sagrada Congregação De Propaganda Fide (1622).

Primeiros seminários do Brasil:

- Salvador (1741)
- Paraíba   (1760)
- Pernambuco (1749)
- Belém (1690)
- Pará (1749)
- Rio de Janeiro (1739)
- Maranhão (1732)
- Mariana (1748)

Também nesse ponto havia uma maior vantagem dos religiosos por contarem com maior disponibilidade de recursos humanos e econômicos.

O Cabildo Eclesiástico

Era o organismo que fazia a articulação entre o bispo e o clero, entre a Igreja e as autoridades civis.O cabildo da Igreja Metropolitana ou catedral era formado pelas seguintes autoridades:

- Deão = Encarregado da reza do oficio e culto divino:
- Arcedeão ou arquideão = Responsável das atividades pastorais, pelo exame dos candidatos ao sacerdócio e visitar as dioceses na ausência do Bispo;
- Chantre ou Mestre do Coro;
- Mestre-Escola = Era um expert com filosofia e teologia, fazia as pregações na catedral e outorgava os graus onde havia ensino universitário;
- Tesoureiro = Responsável pelos bens e administração;
- Outras Dignidades = Canônicos.

O Cabildo dava o respaldo às atividades pastorais do bispo e sua importância aumentava muito em caso de Sede Vacante, funcionando como um Co-Governo. A maioria dos bispos criolos ou nativos saiu dos Cabildos Catedralícios.

Os Cabildos se tornaram importantes historicamente por mostrar o nível coletivo da consciência do clero e como em geral os membros do cabildo eram nomeados pelo Conselho das Índias, isto muitas vezes era motivo de conflitos entre o bispo e o cabildo, recorrendo-se com frequência às Audiências em busca de solução. Alguns deões das dioceses mais ricas chegavam a ganhar mais que toda a renda de uma diocese pobre.

O Cabildo constituía-se como a instituição máxima de uma Igreja, sendo o representante do clero diocesano, apesar das outras instituições como os curas, pois estes até 1540 tinham um título muito precário, sem todos os requisitos exigidos pelo Direito Canônico. Só em 1541 as paróquias foram organizadas. 

As ordens religiosas

Foto de: reprodução. 

Inácio de Loyola

Inácio de Loyola, fundador dos jesuítas,
com um livro das regras onde se lê
o lema da sua Ordem:
Ad maiorem Dei gloriam
(Para a maior glória de Deus)

Como já falei em outras ocasiões, tiveram um papel de destaque na evangelização, especialmente as 4 grandes ordens: Franciscanos, Dominicanos, Agostinianos e Mercedários (Na América os Jesuítas só chegariam no final do século XVI). Na Hispano-América nota-se a ausência das ordens Monásticas.

No Brasil há o predomínio dos jesuítas, beneditinos, carmelitas e capuchinos, notando-se também uma presença mais numerosa de missionários estrangeiros (Franceses, holandeses e italianos). Sobre os religiosos o controle do Padroado era menor, por isso sempre houve conflitos com os colonizadores que culminarão na expulsão dos Jesuítas no século XVII. Os religiosos sempre agiram com maior autonomia.

As leis dos Reinos das Índias falam dos religiosos em 93 leis e sempre com o intuito de controlar a sua ação.

O número de religiosos que a princípio era pequeno, começou a aumentar bastante a partir da criação do Conselho das Índias. Em 1598 já haviam passado à América cerca de 5 mil religiosos (2.200 Franciscanos, 1.670 Dominicanos, 470 Agostinianos, 300 Mercedários, 360 Jesuítas e 50 Carmelitas).

Todas as despesas com viagens e transportes corriam por conta do estado. Para um missionário chegar ao México se gastava de 150 a 170 ducados, para chegar ao Peru a despesa ficava entre 260 e 300 ducados. De todas as ordens a melhor organizada e mais poderosa era a dos Franciscanos. Era a única com um comissário junto ao Conselho das Índias. Em 1700, dos 11 mil religiosos que havia na América, 5 mil eram franciscanos e eles se amoldaram mais às exigências do Padroado. 

Conflitos na Igreja Americana

Os religiosos se apoiavam mais na estrutura civil, por isso os encomenderos preferiam ter seus índios nas Doutrinas dos religiosos. O episcopado se apoiava mais em Roma. Aqui entre nós a exceção ficava com os Jesuítas, ligados mais diretamente a Roma.

Foto de: reprodução. 

Açao Catequetica

A defesa dos indígenas e as isenções dos religiosos
sempre foram motivo de conflito com os colonizadores.

Pelo Breve "Exponi Nobis" de 09 de maio de 1522 o papa concedeu uma Missão Pontifica para os religiosos. Por ele, os religiosos podiam gozar uma serie de privilégios em terra de missão, com poderes extraordinários comparáveis aos de um Bispo (onde não havia sido constituído um poder episcopal).

Estes privilégios e esta exceção serviu também de motivo para outros conflitos, o que vai levar ao reforço da jurisdição episcopal X Reforço da Isenção dos Religiosos.

 

Padre Inácio Medeiros, C.Ss.R.  
Mestre em História da Igreja   
pela Universidade Gregoriana  

Escreve série sobre a  
História da Igreja no Brasil  
para o A12.com

Escrito por
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R. (Arquivo redentorista)
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R

Redentorista da Província de São Paulo, graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma, já trabalha nessa área há muitos anos, tendo lecionado em diversos institutos. Atua na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da Província de São Paulo.

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