Por Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R Em História da Igreja Atualizada em 21 SET 2017 - 09H41

História da Igreja na América Latina: O cristão em tempos coloniais

PÁGINAS DE HISTÓRIA DA IGREJA AMÉRICA LATINA
Parte 26

A vida cotidiana do povo cristão em tempos coloniais

Na cristandade latino-americana se produziu como que um dualismo entre a hierarquia católica bem articulada com o estado e o povo cristão. A vida cotidiana do povo tinha marcas religiosas em suas estruturas mais profundas, ou seja, a orientação da vida era religiosa e o sagrado se fazia presente na existência de cada dia.

Porém, o catolicismo das classes dominantes que era baseado no catolicismo popular hispano-lusitano foi translado simplesmente à América Latina, não deixando muito espaço para a originalidade. O Concílio de Trento havia uniformizado os ritos, não deixando muito espaço ao novo. Toda a religiosidade Pré-Hispânica era vista como coisa pecaminosa, fruto da ignorância, feitiçaria e tinha que ser extirpada. Mas o povo soube reconstruir as estruturas de sua fé e assim surgiu o dualismo entre o catolicismo oficial, mais ritualístico e frio versus catolicismo popular com suas muitas expressões mais acessíveis à condição das pessoas. 

Principais expressões do "Catolicismo Popular"

Sacralização do tempo - A liturgia oficial da Igreja se impôs junto com a conquista e com a evangelização os ciclos agrários foram sendo perpetuados pelos ciclos litúrgicos. Mas no hemisfério Sul as duas coisas não correspondiam, pois quando se celebrava a vida e o renascimento na páscoa, por exemplo, a natureza estava morrendo com a chegada do outono.

Neste processo de sacralização do tempo ganha uma importância as festas litúrgicas. O calendário anual e a vida do povo é marcado pelas muitas festas que se celebravam, destacando-se entre elas a festa do padroeiro.

A sacralização do tempo fazia com que a semana tivesse um ritmo especial e alguns meses passam a ter uma dedicação especial, como o mês de maio.

Sacralização do espaço - Por causa desta influência do religioso no dia a dia das pessoas, o espaço também era sacralizado. A igreja era sempre construída no centro das aldeias e das cidades que surgiam e a praça da matriz torna-se ponto de convergência de toda a vida social. O catolicismo popular, ao contrário, nasceu dos espaços periféricos como as senzalas e quilombos.

Em relação ao catolicismo que foi sendo implantado nas América os santuários e lugares de peregrinação vão ganhando um relevo especial, bem como o fenômeno das aparições que, em geral, nascem fora dos espaços centrais como cidades.Com isso, os lugares sagrados considerados "Pagãos" vão sendo cristianizados e muitas procissões são vistas como conquista dos espaços centrais.

Ao longo dos séculos vão se multiplicando as expressões e práticas religiosas do cristianismo popular, apesar do esforço da Igreja oficial em conquistar e regularizar estas expressões.

Cidade do México
Cidade do México: Nas cidades coloniais da América Espanhola o espaço central
era sempre ocupado pelo edifício religioso.
 

Os destinatários das praticas do catolicismo popular

A quem se destinava essas expressões religiosas?

Seus destinatários são aqueles que respondem às necessidades cotidianas dos sujeitos. Por este fenômeno, aos poucos o catolicismo popular adquire uma força de atração muito grande e as pessoas vão praticando e valorizando essas expressões ao lado daquelas que são quase que impostas pela oficialidade.

As práticas da Pré-História americana, anteriores à chegada dos brancos europeus, são ligadas com o catolicismo popular Ibérico e formam sistemas de praticas particulares. Hoje é possível identificar algumas de suas características principais: Neste catolicismo popular são poucas as referências à Santíssima Trindade e a Deus Pai, pois ele sempre foi considerado muito distante a abstrato.

Nos tempos coloniais são também poucas as referências feitas ao Espírito Santo e das pessoas da Trindade Santa a mais conhecida é a quem mais se recorre é Jesus Cristo, haja visto os muitos santuários e lugares de culto dedicados ao "Bom Jesus". Mas a sua figura é colocada em posição inferior à Virgem Maria, de quem existentes abundantes práticas religiosas, expressas sobretudo em seus títulos.

Do catolicismo popular vão surgindo um incontável número de expressões religiosas pouco fundamentadas nas Sagradas Escrituras ou na doutrina da Igreja como o culto aos defuntos ou as "Almas Benditas" e a crença nos demônios. 

Os Santos da América Latina

Os primeiros tempos do catolicismo na América Latina, se não muitos, ofereceu para a Igreja diversos exemplos de santidade e entre todos podemos citar:

- São Luis Beltrão, OP (+ 1581) - Missionário da Nova Granada
- São Turíbio de Mongrovejo (+1606) - Bispo de Lima
- São Francisco Solano, OFM (+1610) - Missionário
- Santa Rosa de Lima (+1617) - Terciária Dominicana de Lima
- São Pedro Claver, SJ (+1628) - Mártir das reduções
- São José de Anchieta (+1597) - Brasil
- São Martinho de Porres (+1639) - Mulato dominicano

Aos poucos vai se formando dois "Ethos" ou duas tradições religiosas distintas, tendo de um lado o "ethos" do conquistador, herdado pelos encomenderos, pelos senhores de escravos e de outro o popular que veio da somatória de elementos das culturas dominadas que se juntaram com elementos do catolicismo patriarcal. A ética patriarcal de dominação ocupa a cidade alta (centro) e o "Etho" dos vencidos, do índio e do africano ocupava o campo e as margens da cidade (periferia). Esta é a ética dos empobrecidos, dos marginalizados. Todos aceitam a mesma religiosidade, mas de modo diverso.

Foto de: reprodução. 

Santa Rosa de Lima

Até mesmo os santos latino-americanos
ganham características europeias.

 

Aspecto comunitário da vida cotidiana

A vida cotidiana do catolicismo popular da cristandade era essencialmente comunitária. Apesar das distinções sociais a religiosidade era sempre praticada em comum.O projeto de colonização e evangelização se apoiava essencialmente em 2 polos - A família e a Cidade.A Famíliaera de característica patriarcal urbana ou do senhor de engenho (casa grande). As cidadessão pontos protegidos por exércitos, de onde partiam todos os caminhos e de onde brotava a organização da vida cotidiana e se desenrolava a vida política. Em 1630 haviam cerca de 120 cidades, vilas ou povoações em toda a América Latina.

Família - A princípio se queria incentivar os casamentos mistos, porém estes fracassaram. As mulheres brancas não se casavam com índios e o homem branco explorou a mulher índia e mais tarde a negra.

No geral o sistema patriarcal era machista ao extremo e o adultério e a poligamia eram vícios muito frequentes para os quais se fazia até mesmo uma "vista grossa".Na sociedade colonial existia a família aristocrática rural. Ao lado da casa grande existia uma igreja ou capela e um capelão (pároco ou doutrineiro). O filho primogênito era aquele que herdava os bens.

A família dos grandes mineiros tinha uma organização mais burguesa, frequentemente urbana. O mesmo se pode dizer dos grandes comerciantes.Ao lado destas se coloca a vasta classe média urbana cujos membros ocupavam ofícios e formavam grêmios e corporações para defender os seus interesses. Existiam também os trabalhadores do campo e mineiros.

Estratificação Social da Nova Espanha
A estratificação de classes na América Colonial dificultava a Ascenção social.

Depois destas se colocam as famílias dos Hispano-Lusitanos pobres ou empobrecidos.Estas famílias praticavam um catolicismo letrado, expresso na leitura de livros devocionais, catecismos, obras de piedade e até de leitura da Bíblia.Separadas delas (na América existe racismo sim!) estavam as famílias indígenas, somente que para elas valia o todo, a coletividade. Aprenderam a levantar a capela da doutrina, com ou sem o cura (Vigário) e aprenderam a viver a vida religiosa de modo autônomo.

As famílias indígenas que viviam mais próximas da cidade foram se mestiçando, adquirindo práticas religiosas próprias.Só nas reduções houve vida indígena autônoma.

A família dos escravos praticamente não existiu, pois a senzala destruía os laços familiares. Aos senhores de engenho, o matrimônio entre escravos não era de interesse e nem incentivados.

Entre as famílias aristocráticas praticava-se muito os chamados casamentos políticos e entre índios e escravos se multiplicavam os casamentos ou uniões para aumentar o numero de braços, pois esta era a mão de obra da colônia.

Situação da mulher - Na colônia predominou uma moral dualista que vai fundamentar as práticas características do machismo.A mulher índia ou negra devia estar a serviço do senhor, em todos os sentidos.Só o senhor aristocrata podia "pular a cerca", e o homem das classes oprimidas devia suportar o ultraje de sua mulher ou filha.

Nas famílias cristãs da colônia a ordem do dia estava marcada pelos momentos de oração, pois a família formava a consciência cristã.

Colunista padre Inácio 

 

Escrito por
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R. (Arquivo redentorista)
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R

Redentorista da Província de São Paulo, graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma, já trabalha nessa área há muitos anos, tendo lecionado em diversos institutos. Atua na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da Província de São Paulo.

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