No Advento e na Quaresma, períodos de preparação e conversão, a liturgia recorda que Cristo escolheu nascer no meio de nós e, mesmo sendo Ele o Filho de Deus, dificuldades foram vividas.
Não havia local para receber Maria e José na hospedaria, e uma estrebaria foi o local livre onde uma manjedoura acolheu o Menino Jesus.
Recordamos também que Aquele que não tinha onde reclinar a cabeça (cf. Mt 8, 20) nos convida à conversão, transformando nossa indiferença em acolhida aos que sofrem sem um teto.
A Campanha da Fraternidade 2026, que acontecerá durante a Quaresma (de 18 de fevereiro a 2 de abril), falará sobre “Fraternidade e Moradia”, iluminada pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).
Em 1993, a Igreja no Brasil já havia refletido o mesmo tema. Hoje, essa escolha retoma uma conversa que não parece ter visto grandes melhoras, e faz uma convocação à Igreja e toda a sociedade para refletir sobre o direito à moradia digna como direito fundamental e expressão concreta da fé.
O assessor do Setor de Campanhas da CNBB, Pe. Jean Poul Hansen, explicou em entrevista ao site da CNBB, que a escolha do tema foi motivada por um pedido da Pastoral da Moradia e Favela e acolhida pelo Conselho Episcopal Pastoral da CNBB (Consep). O lema, segundo ele, ilumina teologicamente o debate, a partir do mistério da encarnação.
“Deus veio morar entre nós, e isso fundamenta a dimensão social da nossa fé. A Campanha da Fraternidade nos convida a construir aqui, entre nós, sinais do Reino de Deus, promovendo dignidade, especialmente nas realidades onde ela é negada”, afirmou.
O Brasil registra mais de 90 milhões de unidades habitacionais, segundo o Censo 2022 do IBGE, um aumento de 34% em relação a 2010.
No entanto, essa evolução na quantidade de moradias não resolve as desigualdades, nem para que tenham acesso a uma qualidade dessas habitações.
O déficit habitacional ainda é expressivo: cerca de 6,2 milhões de domicílios não atendem às condições adequadas de moradia, o que representa mais de 8% das habitações ocupadas no país.
Esse número se agrava especialmente entre famílias de baixa renda, que muitas vezes enfrentam coabitação forçada, moradias precárias ou compromissos excessivos com aluguel.
A moradia inadequada nem sempre aparece apenas como falta de teto. Em 2022, um quinto dos brasileiros vivia em domicílios alugados, o que também reflete vulnerabilidades, pois muitos dedicam grande parte da renda para pagar aluguel.
Outro dado que chama atenção é a vulnerabilidade documental: 13,5% das moradias privadas não têm documentação formal, o que fragiliza os direitos de quem vive ali, sobretudo entre grupos mais pobres e historicamente marginalizados.
Em 1993, a Campanha da Fraternidade destacou o direito à terra e à moradia como condição essencial para a vida digna. A mensagem do Papa João Paulo II à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) daquele ano lembrava que o ser humano precisa de um lugar para viver, ser acolhido pela família e participar da vida social com dignidade.
Mais de três décadas depois, a realidade brasileira de moradia continua sua busca por mudanças significativas. O crescimento do número de unidades residenciais não eliminou as desigualdades no acesso à moradia digna. O Brasil ainda enfrenta um déficit habitacional que afeta milhões de domicílios e, consequentemente, milhares de famílias.
Assim como nos anos de 1990, o direito de “morar” ainda ecoa como um pedido por justiça social e humanidade. Para a Igreja no Brasil, a reflexão se mantém atual porque, embora o país tenha avançado em alguns indicadores, muitas pessoas ainda vivem em condições precárias ou lutam para manter um lar.
Jesus entrou na história humana de forma completamente diferente de um rei, mas como alguém que compartilhou a vida de um lar simples. Essa realidade desafia os fiéis a olharem para todas as pessoas que vivem na fragilidade da moradia.
Seja no Advento ou na Quaresma, faça uma reflexão profunda, um tempo de espera e reflexão, para que o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14) seja um movimento de acolher o Cristo que vive nos irmãos e uma motivação para trabalhar por uma moradia digna para todos.
add_box O Advento é diferente da Quaresma? Entenda!
Fonte: CNBB/IBGE/Conlutas
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