História da Igreja

O Desenvolvimento da Arquitetura Gótica

Termo foi utilizado pela primeira vez pelo pintor Rafael enquanto escrevia um relatório para o papa Leão X

Padre Inácio Medeiros C.Ss.R.

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

16 DEZ 2022 - 09H41 (Atualizada em 16 DEZ 2022 - 10H27)

No período final da Idade Média, já perto do final do século XII, surgiu um novo estilo arquitetônico no norte da Europa, mais precisamente na França: a arquitetura gótica. Caracterizada pela suntuosidade das construções, ligada ao caráter religioso do estilo, a arquitetura gótica expandiu-se em boa parte do continente nos séculos posteriores, substituindo o estilo românico que vigorou nos primeiros séculos da Idade Média.

A arquitetura gótica desenvolveu-se justamente a partir das construções do estilo românico, substituindo algumas de suas limitações.

A arquitetura românica caracterizava-se por abóbodas arredondadas sustentadas por arcos semicirculares. Em razão dessas características, as construções românicas necessitavam de pesadas e grandes estruturas para poderem se manter de pé. Os grossos pilares de pedra garantiam essa sustentação, mas limitavam a altura das construções e dificultavam a entrada de luz, em decorrência da necessidade de manter as paredes com poucas aberturas. No estilo românico eram poucas as janelas e quase sempre o edifício religioso tinha uma só porta.

Para superar essa limitação, os arquitetos que inicialmente criaram a arquitetura gótica desenvolveram uma técnica para tornar mais leves as estruturas, ampliando as dimensões da construção.

Os dois estilos foram desenvolvidos em vista da construção dos templos religiosos. Desta forma, as basílicas românicas e as catedrais góticas seriam o grande legado da Idade Média no campo da arquitetura e da arte religiosa. Muitas delas hoje fazem parte do patrimônio artístico universal.

Shutterstock
Shutterstock
Catedral da Sé em São Paulo


Origem do estilo gótico

O termo gótico foi usado num sentido pejorativo por Giorgio Vasari, em 1530, fazendo referência ao saque de Roma pelos godos, considerados bárbaros, por não terem a cultura dos romanos. Ele considerava o novo estilo como coisa de uma raça de menor qualidade e uma invasão ao estilo que até então predominava. Os primórdios desse estilo, entretanto, remontam ao tempo dos francos.

Durante o império de Carlos Magno e de seus filhos, algumas abadias começaram a ser construídas com uma maior ousadia arquitetônica, tornando-se lugar de sepultamento do imperador, de reis e altos dignitários. Algumas delas se transformam, inclusive, em lugares de peregrinação.

O passo decisivo se deu com a reconstrução da abadia de Saint-Denis, no território da França atual. Sua concepção arquitetônica não seguia o rigor das abadias até então construídas, que tinham um despojamento total, primando pela simplicidade, com ausência de elementos mais aprimorados.

O termo gótico foi usado de forma positiva pelo pintor italiano Rafael, por volta de 1518, num relatório ao papa Leão X no qual falava sobre a conservação de monumentos antigos. O genial pintor considerou que os arcos em ogiva, próprios do estilo gótico, lembravam a curvatura das árvores que formavam as cabanas primitivas dos habitantes das florestas germânicas.

Basílica de Saint-Denis e o pleno vigor arquitetônico

No dia 11 de junho de 1144, se deu a inauguração do coro da Basílica de Saint-Denis, marcando o nascimento da arte gótica. A cerimônia de inauguração teve como convidados o rei da França os grandes personagens da corte, do clero e todas as altas personalidades do reino. Os arcebispos, maravilhados pela luz dos vitrais e pelo arrebatamento das estruturas, levaram a ideia para suas dioceses de origem, com o desejo de reconstruir suas próprias catedrais dentro do peculiar estilo de Saint-Denis.

O estilo arquitetônico que caracterizava o coro de Saint-Denis foi batizado de ogival por causa do padrão estético de seus arcos. Também chegou a receber o nome de arte francesa, dada sua origem. Somente na renascença italiana é que passou a se chamar arte gótica, mas como uma depreciação que associava esse estilo de arquitetura a algo “apenas digno das tribos bárbaras dos godos”.

Isogood_patrick/ Shutterstock
Isogood_patrick/ Shutterstock
Catedral de Saint Denis, na França


Características do estilo gótico

Os arquitetos que se apropriaram do estilo gótico desenvolveram as chamadas abóbodas ogivais. Com isso, foi possível construir as naves centrais e laterais das catedrais de forma mais ampla. Como forma de sustentação, os arcos das abóbadas perderam o formato de semicírculo, passando a serem formados a partir da junção de dois segmentos de círculos, sendo chamados então de ogivas. Esta inovação permitiu aumentar a altura das construções, pois a técnica permitia uma maior flexibilidade de tamanho e ousadia.

Para sustentar os arcos, as grandes colunas de sustentação não eram mais necessárias, sendo possível conseguir a sustentação com colunas mais finas, formadas por nervuras e feixes de pedra, que davam uma sensação de leveza a toda a construção. Além dessas estruturas, foram desenvolvidos os chamados arcobotantes nas paredes externas, utilizados para sustentar o peso da abóboda da nave central por sobre os tetos das naves laterais.

Essas inovações permitiram retirar grande parte das paredes laterais, que foram trocadas por janelas adornadas com ricos vitrais.

A mudança conceitual e as novas técnicas possibilitaram a entrada de luz no ambiente, dando um novo aspecto ao templo, com os raios solares passando pelos vitrais, inundando o templo de cores vivas. As rosáceas colocadas sobre as grandes portas de entrada se tornaram outro elemento característico.

As esculturas colocadas nos pórticos das catedrais ganharam vida, expressavam movimento, passando a ser outro elemento característico do estilo gótico.

A altura e suntuosidade das construções imprimiam uma sensação de diminuição do ser humano, com o propósito de mostrá-lo pequeno diante de Deus. As torres construídas em forma de agulha também serviam como reverência a Deus, porque direcionavam os olhos para os céus.

A primeira catedral gótica foi a de Saint-Denis, na França, porém, a mais famosa e conhecida se tornou a catedral de Notre Dame, em Paris.

O termo gótico, que a princípio foi cunhado de forma pejorativa comparado com o estilo clássico, sendo considerado um estilo bárbaro, “monstruoso”, com seu nome derivado dos godos, a partir do século XVIII, passou por um processo de reavaliação, inicialmente na Inglaterra e posteriormente na França, Alemanha, Itália, e de lá para o mundo.

Apesar de não termos monumentos em estilo gótico puro no Brasil, pois aqui o primeiro estilo arquitetônico marcante foi o barroco, a Catedral da Sé, em São Paulo, pode ser considerada um representante desse estilo, devido à somatória de elementos que apresenta.

Escrito por
Padre Inácio Medeiros C.Ss.R.
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma, já trabalha nessa área há muitos anos, tendo lecionado em diversos institutos. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

1 Comentário

Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.

0

Boleto

Carregando ...

Reportar erro!

Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou de uma informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:

Por Redação A12, em História da Igreja

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente.

Carregando ...