História da Igreja

O Concílio Vaticano II e o Dia Mundial das Comunicações

“Precisamos preservar o dom da comunicação como a mais profunda verdade do homem, à qual devemos orientar também toda a inovação tecnológica”. Papa Leão XIV

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Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

14 MAI 2026 - 12H18 (Atualizada em 14 MAI 2026 - 13H14)

Reprodução/ Lothar Wolleh

O Papa João XXIII havia acabado de celebrar a missa na Basílica de São Paulo fora dos Muros, no dia 25 de janeiro de 1959, quando pediu aos cardeais que não se retirassem, porque precisava lhes fazer uma importante comunicação.

Os cardeais se reuniram então na sala capitular do mosteiro beneditino ao lado da Basílica e, apenas 90 dias após sua eleição como Papa, João XXIII lhes comunicou os três propósitos para o seu pontificado: trabalhar na renovação do Código de Direito Canônico (CIC), convocar um sínodo para a Igreja de Roma e realizar um Concílio Ecumênico.

Falando em latim, em baixa voz, vários cardeais ali presentes não compreenderam bem a importante notícia que o papa havia acabado de lhes dar e sua participação num ato histórico que mudaria para sempre a Igreja. Mais tarde, a notícia foi dada a toda a Igreja e a convocação oficial do concílio foi formalizada pela Constituição Apostólica “Humanae Salutis”, em 25 de dezembro de 1961.

Depois de uma intensa fase de preparação, o Concílio foi oficialmente aberto em 11 de outubro de 1962, transformando-se na 21.ª Assembleia Ecumênica da Igreja Católica. João XXIII, porém, faleceu em 1963, durante o concílio, sendo sucedido por Paulo VI, que continuou e concluiu os trabalhos em 1965.

Realizado em 4 sessões, entre 1962 e 1965 — outubro a dezembro de 1962 (iniciada por João XXIII), setembro a dezembro de 1963 (primeira sob Paulo VI), setembro a novembro de 1964 e setembro a dezembro de 1965 —, o número de padres conciliares variou a cada sessão, mas a maior presença se deu na última sessão, com 2.625 padres conciliares, entre bispos e superiores maiores.

Motivações e realizações do concílio

Ao convocar o concílio, João XXIII propôs que seu principal objetivo fosse a atualização (aggiornamento) da Igreja e sua abertura para o mundo contemporâneo.

Desta forma, o concílio se transformou num marco para a Igreja Católica, promovendo a renovação litúrgica, a maior valorização dos leigos, abrindo-se ao diálogo inter-religioso e ecumênico, com uma abordagem mais pastoral, a fim de atender às necessidades humanas contemporâneas.

Com sua experiência provada pelos muitos anos de trabalho em realidades bem diversas e complexas, João XXIII percebeu que a Igreja precisava de um "novo Pentecostes" para que pudesse se aproximar do mundo moderno, tornando sua doutrina mais acessível e transparente.

Diferentemente de concílios anteriores, não buscou combater heresias ou propor dogmas, mas apresentar a fé católica de forma compreensível ao homem contemporâneo.

O Concílio produziu 16 documentos fundamentais, que foram sendo apresentados conforme as sessões iam acontecendo, divididos em 4 Constituições, 9 Decretos e 3 Declarações. Entre eles se destaca o “Decreto Inter Mirifica” sobre os Meios de Comunicação Social, publicado no dia 4 de dezembro de 1963.

Reprodução/ Lothar Wolleh Reprodução/ Lothar Wolleh

Criação do Dia Mundial das Comunicações

Dando continuidade às proposições do Decreto Inter Mirifica, em 1964, ainda durante o concílio, o Papa Paulo VI criou a Pontifícia Comissão para as Comunicações Sociais, hoje Dicastério para a Comunicação, por meio do documento “In fructibus multis”, com a finalidade de coordenar e estimular realizações a partir das propostas que foram levantadas pelos Padres Conciliares para a área das comunicações.

Após receber o parecer de presidentes de Comissões Episcopais em 1964 e 1965, a Pontifícia Comissão criou o Dia Mundial das Comunicações Sociais, em 1966, com a aprovação do Sumo Pontífice. E, no dia 7 de maio de 1966, celebrou-se pela primeira vez, no mundo inteiro, o Dia Mundial das Comunicações Sociais.

Lá se vão 63 anos de publicação do Decreto Inter Mirifica, 60 anos da celebração do primeiro Dia Mundial das Comunicações e, pela 60.ª vez, temos mais uma mensagem escolhida pelo Santo Padre para nos orientar.

O Dia Mundial das Comunicações e sua repercussão

A criação da Pontifícia Comissão e a celebração do Dia das Comunicações, com uma mensagem motivadora do Santo Padre a cada ano, significam um reconhecimento da importância dos meios de comunicação na Igreja e na sociedade, com os desafios éticos inerentes a eles, desafios esses que vão se renovando a cada ano, como temos na atualidade as fake news e a manipulação advinda com as redes sociais.

Ao mesmo tempo, busca-se que o uso da tecnologia, que evolui rapidamente de tal forma que não a podemos acompanhar, seja um caminho de promoção dos valores humanos, éticos e espirituais.

Nos primeiros anos, o tema escolhido para a mensagem do papa era mais global, ajudando as pessoas a compreenderem o que é a comunicação, como ela se faz na Igreja e na sociedade, sua importância e os desafios inerentes a ela. A mensagem se tornou a promotora de uma série de iniciativas concretas no campo da comunicação a cada ano.

Em 1967, o Papa escolheu como tema: “Os meios de comunicação social”. No ano seguinte, o tema geral foi: “A imprensa, o rádio, a televisão e o cinema para o progresso dos povos”; já em 1970, o Papa abordou a temática: “As comunicações sociais e a juventude”.

Os anos foram passando sem faltar uma mensagem sequer. Quando chegamos ao ano 2000, João Paulo II nos propôs: “Proclamar Cristo nos meios de comunicação social no alvorecer do novo milênio”, seguindo a temática do grande Jubileu do ano 2000.

Em 2013, primeiro ano do pontificado do Papa Francisco, já tivemos um tema mais sensível e de grande atualidade: “Redes sociais: portais de verdade e de fé; novos espaços para a evangelização”. Esse tema foi sendo desdobrado nos anos seguintes.

Reprodução/ CNBB Reprodução/ CNBB

E para 2026, recebemos a primeira participação de Leão XIV, com a Mensagem para o 60º Dia das Comunicações Sociais: “Preservar vozes e rostos humanos”. Na mensagem, o Papa Leão faz a introdução com a expressão:

“O rosto e a voz são traços únicos, distintivos de cada pessoa; manifestam a própria identidade irrepetível e são o elemento constitutivo de cada encontro.” Papa Leão XIV, Mensagem para o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais

Depois da Inter Mirifica vieram outros documentos sobre comunicação; muitas iniciativas brotaram, a Igreja passou a acreditar mais e a investir em comunicação, haja vista a quantidade de rádios, canais de TV, portais e sites católicos, as milhares de iniciativas nas redes sociais, com a ação de um incontável número de comunicadores religiosos e leigos.

Uma coisa é certa: não é mais possível pensar a evangelização sem a comunicação e sem a ação responsável dos comunicadores católicos. E tudo começou com a criação do Dia das Comunicações, com a mensagem motivadora do Santo Padre, que se renova a cada ano!

Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

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