Por Pe. César Moreira, C.Ss.R. Em Igreja

Entrevista: Dramaturgo fala sobre paixão pelo teatro e projeto de formação de plateia

Foto de: Rodolfo Magalhães

Caio de Andrade - Foto Rodolfo Magalhaes

Dramaturgo, diretor e produtor teatral, Caio de
Andrade construiu sua carreira no Rio de Janeiro.
Formado em jornalismo, trabalhou na TV Manchete
e SBT.

Quem assistiu a alguma peça teatral passou por uma experiência interessante. Acho até que única. Porque fez a leitura da realidade de um modo vivo, real através da história contada na encenação que mexe com os sentimentos, a inteligência, a razão.

Não é à toa que é fácil ficar viciado em teatro! Quem pode falar desse assunto é o dramaturgo, diretor e produtor teatral, Caio de Andrade, com quem conversamos. 

Padre César Moreira: É ou não é fácil ficar viciado em teatro?

Caio de Andrade: Mais do que um vício, o teatro é uma vocação. Eu, por exemplo, conheci o teatro na minha adolescência. A primeira vez que eu vi um espetáculo profissional de teatro eu tinha 13 anos. Lembro-me que era ‘Santo Inquérito’, de Dias Gomes, com Regina Duarte.

Quando vi um espetáculo dessa proporção eu já sabia o que queria fazer. É uma questão de identificação com aquele tipo de arte. Essa arte milenar vem perpetuando os anos e resistindo a crises. Então alguma magia tem nisso ou já teria sido uma prática abandonada ao longo dos anos.

Padre César Moreira: Que se quer com as peças teatrais? Que objetivos autores e artistas têm com o teatro?

Caio de Andrade: O que se quer, em última instancia, é exercitar o teatro. Quando vou escolher um texto para montar uma peça, escrever ou como diretor artístico, eu escolho com alguns critérios. Você tem anseio de destacar alguma questão, que pode ser íntima, ou um momento histórico, como é o meu caso. Eu sempre trabalhei e escrevi sobre questões histórias, sendo um ponto bastante claro na minha trajetória no teatro.

Eu acredito que no teatro se quer discutir um determinado tema, contar uma história, trazer uma discussão, provocar alguma atitude que se ache relevante discutir naquele momento. O artista tem que ser coerente com o que acredita. O que se quer, antes de tudo, é saciar uma vontade que se tem como artista.

Padre César Moreira: São relativamente poucas as apresentações teatrais. Apenas um público privilegiado tem acesso a elas. Por quê?

Caio de Andrade: A cultura no Brasil é muito pouco cuidada. Temos algumas leis de incentivo, mas o país é muito grande e a questão cultural é muito diversificada, fragmentada, diferente.

É preciso que possamos ter mais incentivos. No momento em que vivemos uma crise, a educação e a cultura deveriam ser celebrados, valorizados, pois com educação e cultura as pessoas ganham novas possibilidades, ficam mais críticas e podem colaborar melhor com o país.

Muitas vezes a história é cíclica, como agora vemos retornar a questão dos imigrantes. E o teatro fala disso também. O teatro fala do movimento da humanidade. Se as pessoas podem contemplar uma peça, um espetáculo elas vão refletir. O teatro é um lugar de reflexão, onde a ficção apresenta uma possibilidade de você rediscutir a sua vida, da sua cidade, da sua comunidade, do país e do mundo. São espaços de reencontro do ser humano em ele mesmo.

O Brasil tem um déficit muito grande com a cultura e a educação. O teatro é um espaço para discutir a verdade, mesmo que ficcionada, envolvida em uma fantasia, de uma brincadeira que se leve para outra época ou outro lugar. Mas se você se propõe discutir determinadas questões no palco você seguramente vai abrir um caminho maravilhoso para rediscutir o seu mundo e o das pessoas.

Padre César Moreira: Como surgiu e qual o objetivo do ‘Palco da História’?

Caio de Andrade: Essa ideia já vem de muito tempo. Eu me mudei para o Rio de Janeiro com 17 anos, passei grande parte da minha vida na capital carioca.

Já trabalhando e dirigindo espetáculos fui convidado pelo Centro Cultural Banco do Brasil, instituição cultural importantíssima, para desenvolver um projeto de formação de plateia, ou seja, trazer adolescentes, jovens e crianças para o teatro.

No Rio de Janeiro comecei a desenvolver esse projeto com o nome de ‘História Em Cena’.

O Mandarim do Imperador - Caio de  Andrade

‘O Mandarim do Imperador’ (1997) foi então a primeira peça do projeto que tinha como compromisso a formação de plateia. O texto fala da mudança do regime monárquico para o republicano, essa nova aventura política que o Brasil experimentou e seus primeiros anos e suas consequências.

Esse projeto frutificou. No ano seguinte montamos uma peça chamada ‘A rua da fortuna’ e no seguinte ‘O Jeca voador’. Cada um tinha uma história diferente com referência histórica. Centenas de crianças, jovens e educadores passaram pelo teatro. Conseguimos muitos prêmios. Então eu fui contemplado com uma bolsa para estudar teatro e educação em Londres, na Inglaterra, e o projeto foi interrompido.

Há dois anos vim para Lorena (SP) para implementar um projeto de formação teatral. Trazendo como espelho o ‘História Em Cena’, colocamos em prática o projeto ‘Histórias do Brasil’, juntamente com a Companhia Palco da História, grupo teatral que eu formei com atores da região.

Nossa primeira peça foi uma remontagem do espetáculo que fiz em 1997 ‘O Mandarim do Imperador’. Alunos de escolas públicas ou privadas são convidados a participar. Os educadores recebem um material para ser visto em sala de aula e logo após a apresentação das peças nós realizamos um debate com os alunos. Nós conversamos sobre o espetáculo, a sua temática e também sobre ‘o fazer teatral’, sobre essa magia.

O teatro sempre desperta muitas curiosidades nas crianças e também se pode despertar novos talentos. Porque um novo ator ou um novo dramaturgo pode nascer nas plateias?

Colunista - Padre César Moreira

Escrito por
Padre Antônio César Moreira Miguel (Arquivo redentorista)
Pe. César Moreira, C.Ss.R.

Sacerdote, jornalista, radialista e escritor com muitos anos de atividade nos meios de comunicação social. Foi diretor geral da Rede Aparecida de Comunicação e fundou a Rede Católica de Rádio, hoje atua na área de assistência social da Província de São Paulo.

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Por Polyana Gonzaga, em Igreja

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