Por Vinícius Paula Figueira Em Igreja

Família peregrina e obediente

No Domingo após o Natal, dentro da oitava, o último domingo do ano civil, a Igreja celebra a festa da Sagrada Família de Nazaré: Jesus, Maria e José, a Família peregrina e obediente. O evangelho próprio do dia (cf. Lc 2,40-52) fala sobre o drama da “perda” (ou encontro?) do Menino no Templo. O texto começa afirmando que a família de Nazaré estava cumprindo um tradicional ato religioso de ir à Jerusalém para a festa da Páscoa. Ao retornar, notaram a ausência de Jesus, mas alimentavam a esperança do filho estar na caravana. Ledo engano.

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Angustiados, começaram a sondar parentes e conhecidos acerca do paradeiro do Menino e nada... Voltaram a Jerusalém, e depois de três dias, o encontraram em “meio” aos doutores da Lei, discutindo com eles. Maria e José ao encontrá-lo começam a interrogá-lo: “Meu filho, que nos fizeste?! Eis que teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição?” Jesus responde com uma pergunta cortante: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?”. Maria ficou sem entender nada.

Para Jesus, estar em Nazaré ou no Templo de Jerusalém era como estar em casa. Ele estava perdido aos olhos de Maria e de José, mas encontrado aos olhos do Pai. Logo, o “Menino Perdido” se encontrava ali, cumprindo sua vocação de “ouvir” e “interrogar” os entendidos da Lei; ficaram encantados com a aguda inteligência do Menino. Após o “diálogo” entre o Menino e sua Mãe, o texto afirma que Jesus era-lhes obediente, desceu para Nazaré com os pais ainda mais aflitos e perplexos. Certamente, ao longo do caminho de retorno a Nazaré Jesus esclareceu muitas coisas, não obstante as terríveis dificuldades dos pais em compreender a postura do Filho. Lucas conclui o relato dizendo que “Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens”.

Ao debruçarmos sobre este relato, podemos reconhecer dois aspectos importantes: a peregrinação da família de Nazaré até Jerusalém e a obediência de Jesus para com os pais. Dizia a saudosa Cora Coralina: “O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher”. O grande ensinamento para a vida da família de Nazaré não aconteceu na partida de Nazaré nem na saída de Jerusalém; o maior aprendizado aconteceu na travessia destes dois momentos singulares do relato. “Perder” Jesus permitiu a Maria transcender a angústia que se apossou dela; a dura experiência permitiu-lhe compreender “algo” mais acerca da missão de Jesus no mundo. A peregrinação e o drama da perda de Jesus robusteceu a fé e humanizou ainda mais a família de Nazaré.

 

"Como é importante para as nossas famílias peregrinar juntos, caminhar juntos e ter a mesma meta em vista".

O Papa Francisco, ao meditar sobre a realidade da Família, diz-nos: “Como é importante para as nossas famílias peregrinar juntos, caminhar juntos e ter a mesma meta em vista! Sabemos que temos um percurso comum a realizar; uma estrada, onde encontramos dificuldades, mas também momentos de alegria e de consolação”. A. de Saint-Exupéry, com fineza poética disse: “Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção”. É verdade! O Pontífice reconhece que “a peregrinação não termina quando se alcança a meta do santuário (Jerusalém), mas quando se volta para casa e se retoma a vida de todos os dias, fazendo valer os frutos espirituais da experiência vivida”.

O outro aspecto do episódio é a obediência de Jesus, que mesmo sabendo não ter cometido nenhuma “transgressão”, respeita e percebe a “angústia” dos pais e caminha com eles. Jesus cumpriu seu papel de Filho e Maria de educadora. Jesus era humano-divino, por isso “devia” estar envolvido com as coisas do Pai, mas ele também era divino-humano, por isso “devia” também obediência às tradições, aos costumes e aos valores que norteavam a vida da família. A obediência é prova “clara e distinta” de humildade e de docilidade. Abrir mão das nossas vontades não é coisa fácil! No entanto, é a chave para se alcançar a maturidade humana e espiritual de um ser humano. A obediência é um dos assuntos candentes das Escrituras. A vida de Jesus foi pontilhada pela obediência ao Pai, até o extremo (cf. Fil 2,8). Podemos concluir sem medo de errar que a obediência de Cristo até as últimas consequências resultou em nossa salvação.

Ao contemplarmos rapidamente o contexto cultural onde se move a família moderna, notamos, por exemplo, que a obediência é um quesito que se arruinou por completo. Nunca os relacionamentos foram tão problemáticos e confusos. Marido e mulher preferem se atacar ao invés de se respeitarem e dialogarem. Para os filhos, obedecer o Pai é uma afronta à liberdade, pois o mundo ensina que prazeroso é avançar o sinal, é ser libertino e rebelde. Noções como a de obediência, ética, disciplina, respeito estão se esvaindo. O resultado é devastador. Deveríamos pensar um pouquinho: “Ninguém sente falta do que não conhece, mas arca com suas consequências” (Içami Tiba). A atitude aflita e indignada de Maria desencadeou, certamente, no coração de Jesus muitas e fecundas reflexões.

Por que Jesus não falou com Maria que iria ficar ali tratando das coisas do Pai? Ele teria evitado o desconforto deles. Faltou disciplina!? O saudoso Içami lembra que “disciplina não é a obediência cega às regras, como um adestramento, mas um aprendizado ético, para se saber fazer o que deve ser feito, independentemente da presença de outros. Aliada à ética, a disciplina gera confiança mútua nas pessoas – um dos fortes componentes do amor saudável que traz progresso à humanidade”. Jesus aprendeu a ser ainda mais humano com a atitude de Maria. Não é à toa que Ele crescia em sabedoria, estatura e graça. Tudo, porque ele foi obediente e soube acolher na fé os “reclames” dos pais.

Ao refletir sobre a família de Nazaré, percebemos que ela foi Sagrada, não porque foi livre de problemas, ventos contrários, desconfortos, contradições, mas porque soube viver e administrar tudo à luz da fé e daquilo que Paulo escreveu: “o amor é o vínculo da perfeição” (cf. Cl 3,14). Hoje, assistimos estarrecidos que em muitas situações o ambiente familiar se tornou árido e um reduto de estranhos: próximos fisicamente, mas distantes e cada qual no seu mundinho. Realidade melancólica, ainda mais se considerarmos as novas gerações!

Mas Deus tem o poder de “fazer novas todas as coisas” (cf. Ap 21,5). O papa não dorme e deseja oxigenar o mundo dos homens e das mulheres com o Dom da misericórdia. Diz-nos: “No Ano da Misericórdia, devemos acolher cada família cristã para se tornar um lugar privilegiado onde se experimenta a alegria do perdão. O perdão é a essência do amor, que sabe compreender o erro e pôr-lhe remédio”. Oremos, pois, para que a nossas famílias compreendam, pelas peregrinações da vida, o real valor do amor e da obediência, pilares que sustentam na teoria e na prática o desejo de Deus acerca da Família, hoje tão vilipendiada e ferida.

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Escrito por
Vinicius Figueira - Colunista (Arquivo Pessoal)
Vinícius Paula Figueira

Crítico, apaixonado por escrever, a ponto de escolher e se graduar em comunicação social pela Rede Kroton. Moro em Iconha, Espírito Santo, onde atuo como Coordenador Paroquial da Comunicação (PASCOM), e trabalho com Publicidade e Propaganda.

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