Os conflitos no Oriente Médio e em alguns países africanos têm colocado a Europa no centro de uma grave crise migratória. Guerras por dominação política e interesses econômicos criaram cenários de destruição, fome e morte, levando milhares de pessoas a buscar refúgio. A travessia do Mar Mediterrâneo se tornou o caminho mais utilizado, resultando em tragédias frequentemente noticiadas pela imprensa internacional.
Imagens de corpos de vítimas de naufrágios, como a do menino sírio, chocam o mundo e se tornam estatísticas de um drama humano. Famílias inteiras arriscam suas vidas em embarcações superlotadas em busca da paz que não encontram em sua terra natal.
Em diversos discursos, o Papa Francisco tem defendido veementemente o acolhimento dessas famílias. Na Organização das Nações Unidas, em Nova York, e em orações como o Angelus, ele pediu que conventos, mosteiros, paróquias e igrejas da Europa ofereçam assistência e refúgio aos imigrantes.
Curiosamente, a crise de refugiados de guerra ou políticos não é um tema novo para a Igreja. No Brasil, durante as décadas de 1960, 1970 e 1980, a instituição protagonizou uma ação social efetiva em um contexto parecido, embora em menor proporção: a ascensão de regimes militares na América Latina.
Com a ditadura militar, a realidade do país mudou drasticamente. Decretos e medidas do governo deram início aos “anos de chumbo”, marcados por censura política e cultural, perseguição a partidos e líderes políticos, e a destituição de sindicatos. Muitos opositores foram presos ou forçados a buscar refúgio nos Estados Unidos, ou em outros países da Europa.
No final da década de 1960, o Brasil vivia uma grave crise política e econômica. Após a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961, o vice-presidente João Goulart, com seu perfil reformista, assumiu o poder. Suas “reformas de base” (sociais, econômicas e trabalhistas) foram vistas pelo setor militar como uma ameaça de instauração do comunismo, levando ao golpe de 1964.
Dom Eugênio Salles em reunião com o presidente Emílio Médici
O período de governo militar, que se estendeu até 1985, foi marcado por uma relação complexa entre Estado e Igreja. Três importantes bispos se destacaram por sua atitude e zelo pastoral, tornando-se ícones do episcopado brasileiro e mundial: Dom Eugênio de Araújo Sales (Arcebispo do Rio de Janeiro), Dom Helder Câmara (Arcebispo de Recife e Olinda) e Dom Paulo Evaristo Arns (Arcebispo de São Paulo).
Durante a República, a Igreja desenvolveu seu papel social de forma autônoma. No período da ditadura, com toda a repressão e violência, seus principais líderes começaram a desenvolver uma “oposição silenciosa” ao regime instaurado.
O presidente Castelo Branco chegou a considerar Dom Eugênio o bispo mais perigoso do Brasil. Ele se opôs abertamente ao regime e proibiu missas em celebração ao golpe. O cardeal acolheu e protegeu muitos refugiados e perseguidos políticos. Bem informado, ele conseguiu até mesmo prevenir o sequestro de Dom Waldir, Bispo de Volta Redonda, em 1977.
Segundo o jornalista José Maria Mayrink, Dom Eugênio interveio inúmeras vezes, hospedando fugitivos do regime no Palácio São Joaquim, sede da Cúria Metropolitana do Rio. Em um ato de repúdio, ele rejeitou uma homenagem e uma medalha de honra oferecidas pelo governo militar. Dom Eugênio se tornou amigo de João Paulo II, que o apoiou nessas ações. Durante sua visita ao Brasil em 1980, o Papa atacou aqueles que perseguiam a liberdade de culto e de expressão.
Em São Paulo, o Cardeal Arns também teve um papel fundamental. Como bispo auxiliar, em 1969, ele visitou religiosos dominicanos presos e torturados, denunciando a situação de violação dos direitos humanos. Uma vez eleito Arcebispo de São Paulo, em 1970, ele celebrou uma missa com os detidos antes mesmo de sua posse.
Sua nomeação não agradou os líderes militares. Dom Paulo Evaristo Arns foi um dos pioneiros das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), grupos que, além de questões religiosas, discutiam assuntos sociais, trabalhistas e de direitos humanos. Ele foi criticado por defender “bandidos” e por sua proximidade com presos políticos, como um jovem sindicalista chamado Luiz Inácio Lula da Silva, que ele visitou na cadeia.
No Nordeste, a voz de Dom Helder Câmara ecoava de Recife. Com hábitos simples, ele denunciava a fome e o descaso que assolavam a região. Em tempos de Ato Institucional n.º 5 (AI-5), que restringia a liberdade, ele teria dito: “Se dou pão aos pobres, sou santo. Se mostro o motivo da fome, sou comunista.”
O regime militar o tratava como um “morto-vivo”, e a censura proibia qualquer artigo, notícia ou foto do religioso. Dom Helder, no entanto, manteve sua proximidade com jovens estudantes e trabalhadores e se tornou um dos fundadores da CNBB. Atualmente em processo de beatificação, ele é lembrado como “Pai dos Pobres” e um grande ícone da Igreja do Brasil.
O convite do Papa Francisco para acolher refugiados e cuidar dos pobres encontra um breve, mas marcante, paralelo em nossa história recente. Ele nos lembra de uma Igreja que, diante dos mais variados contextos históricos, foi atuante nas questões sociais. Bispos que, de fato, saíram da “sacristia” para combater uma ordem imposta à custa de perseguições e torturas.
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