A mensagem do Papa Francisco para o 55º Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado em 16 de maio deste ano, urge como uma necessidade para todos nós, principalmente nestes tempos pandêmicos. Momento em que a indiferença e a falta de amor ao próximo parecem imperar e colaborar para a propagação de um vírus, que ganha força à medida que a falta de autocuidado e preocupação com o outro se tornam mais frequentes.
Leia MaisMensagem do Papa pelo 55º Dia das Comunicações Sociais Com o tema “'Vem e verás’ (Jo 1,46): Comunicar encontrando as pessoas onde estão e como são”, o pontífice faz um convite aos comunicadores para que saiam ao encontro da realidade, a fim de narrá-la com transparência e honestidade. Algo que deve se concretizar “tanto na redação dum jornal como no mundo da web, tanto na pregação comum da Igreja como na comunicação política ou social” [1].
Trata-se, porém, de um chamado que vai além e se estende para cada um de nós, enquanto cidadãos responsáveis pelo meio em que estamos inseridos e por todos aqueles que habitam conosco na Casa Comum.
Assim, embora a data oficial já tenha passado, o apelo do Papa deve ser concretizado não apenas em nossas mentes como em nossas ações, por meio do estabelecimento de um compromisso sólido com as mais diversas realidades existentes, a fim de que possamos conhecê-las verdadeiramente.
As inúmeras telas de smartphones, computadores, notebooks e televisores, muitas vezes, ao exibirem uma série de tragédias e injustiças sociais, ao invés de nos aproximar dessas situações, produzem um efeito inverso, ao se revelarem uma barreira que não permite uma aproximação real dos cenários exibidos. Sem contar que o excesso imagético midiático aniquila, gradativamente, nosso senso de comoção pelo sofrimento alheio, principalmente se não fizermos parte dele.

A “frieza” das redações jornalísticas também acaba contribuindo com tal indiferença, como nos recorda o pontífice, ao ressaltar que “os gêneros da entrevista e da reportagem perdem espaço e qualidade em troca de uma informação pré-fabricada (...) que cada vez menos consegue interceptar a verdade das coisas e a vida concreta das pessoas” [2].
O Papa também aborda uma crise editorial presente nas agências comunicacionais, instalada a partir de informações construídas somente diante do computador, “sem nunca sair à rua, sem ‘gastar a sola dos sapatos’, sem encontrar pessoas para procurar histórias ou verificar com os próprios olhos determinadas situações” [2].
Leia MaisA idealização do passado que não vivemosMas aqui não se trata de um chamado somente para aqueles que fazem parte da esfera jornalística, afinal, todos somos convidados a gastar as solas de nossos sapatos, já que também contribuímos para o distanciamento da realidade quando compartilhamos notícias falsas ou superficiais sobre os problemas existentes.
Especialmente no meio virtual, assumimos o papel de comunicadores e, por isso, devemos agir com responsabilidade e compromisso com a transparência. Como nos diz o pontífice: “O método ‘vem e verás’ é o mais simples para se conhecer uma realidade; é a verificação mais honesta de qualquer anúncio, porque, para conhecer, é preciso encontrar, permitir à pessoa que tenho à minha frente que me fale, deixar que o seu testemunho chegue até mim” [3].
Por isso, pequenas ações como visitar asilos, orfanatos, comunidades, entre diversos outros lugares, conversar com pessoas em situação de rua, por exemplo, nos abrem a possibilidade de sermos transformados pelo contato com as situações que, muitas vezes, julgamos mal por não conhecê-las.
E, antes de pensarmos em qualquer ajuda financeira ou material, o compromisso do diálogo com as pessoas presentes nesses espaços deve se constituir premissa fundamental no encontro com a realidade. Uma atitude que começa e se engrandece a partir do saber ouvir o outro com a mente e coração abertos. São os testemunhos dessas pessoas que ampliam nossa visão de mundo e fazem florescer em nós o senso de empatia e o amor ao próximo.

Mesmo que a exigência do distanciamento social ainda não permita tais encontros, podemos encontrar outras formas, como um diálogo virtual – pois, neste caso, a tela aproximará distintas realidades – e nos prepararmos para os encontros presenciais, quando for possível. Afinal, como nos diz o pontífice, “na comunicação, nada jamais pode substituir, de todo, o ver pessoalmente. Algumas coisas só se podem aprender, experimentando-as” [8]
Além disso, muitas vezes, quando nos deparamos com as narrativas midiáticas, nos esquecemos que não se trata da realidade, mas de sua reconstrução em imagens e/ou palavras segundo o ponto de vista de um jornalista, fotógrafo ou editoria. Tudo não passa de imagens, que nos apresentam uma versão da realidade, mas não esta em si. Óbvio que não devemos, a partir de agora, ir a campo para verificar a veracidade de todas as informações.
No entanto, analisar os diversos pontos de vista e narrativas construídas sobre determinado tema, a partir de uma pesquisa aprofundada, é um começo e, claro, quando se trata de realidades distantes de nós, como já ressaltado, é valido sim vivenciá-las por meio do encontro real. Como diz o Papa no encerramento de sua mensagem: “... o desafio que nos espera é o de comunicar, encontrando as pessoas onde estão e como são” [10].
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