Por Joana Darc Venancio Em Igreja Atualizada em 17 JAN 2018 - 14H41

O que seria do homem sem a virtude?


“A virtude moral é adquirida em resultado do hábito: “Como Eu vos fiz, assim façais também vós” (Jo 13,15)

No desenvolvimento dos hábitos devemos apostar na possibilidade de uma formação que garanta um comportamento moral constitutivo de uma nova realidade social. É preciso trazer ao contexto, uma dimensão do aprendizado da ética, que são os preceitos morais, que podem ser definidos como comportamento virtuoso. O Catecismo da Igreja Católica ensina:

AS VIRTUDES: "Ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, tudo o que há de louvável, honroso, virtuoso ou de qualquer modo mereça louvor" (Fl 4,8). A virtude é uma disposição habitual e firme para fazer o bem. Permite à pessoa não só praticar atos bons, mas dar o melhor de si. Com todas as suas forças sensíveis e espirituais, a pessoa virtuosa tende ao bem, procura-o e escolhe-o na prática. "O objetivo da vida virtuosa é tornar-se semelhante a Deus”.( §1803)


A Igreja, através do Catecismo, descreve a virtude como uma disposição habitual. É preciso apresentar a impossibilidade de instrução destes preceitos como forma de conteúdos a serem ensinados e aprendidos. Aristóteles, grande Filósofo Clássico, em sua Obra “Ética a Nicômaco”, ao refletir sobre as disposições morais para o aprendizado da ética, já deixa claro que o discurso sobre o que é ser ético, na tentativa de ensinar a ser ético, se desfoca de como se adquire os preceitos morais, os hábitos virtuosos, que é pelo hábito. Jesus, de forma muito clara, ensina na passagem do lava-pés na Última Ceia: "Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós." (Jo 13,15).

Aristóteles nos oferece a possibilidade de confrontar-nos com o lugar comum mais explícito acerca do tema da obra: o aprendizado dos preceitos morais. Ao apresentar uma concepção de homem, que foge à reflexão feita hoje, por grande parte daqueles que têm na educação seu principal interesse, Aristóteles não somente desloca o problema dos preceitos morais – apresentando-os como disposições – como também dá um novo rumo à própria reflexão. Uma reflexão mais ampla sobre a educação, sua extensão e seus sujeitos.

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É naturalmente aceita também, a constatação de que estamos em um momento histórico que clama pela ética. É urgente, fundamental e necessária a retomada do rumo perdido pela sociedade atual. Todos devem reavaliar suas posturas, sua conduta moral. O individualismo, tão presente nas relações da sociedade contemporânea, é indicado como um dos responsáveis por esta estrutura social. Aristóteles (2002. p. 85) afirma que:

(...) as pessoas amáveis convivem com as demais da maneira certa, mas é com vistas ao que é honroso e conveniente que elas visam a não causar desgostos ou a contribuir para o prazer. Elas parecem efetivamente preocupadas com os prazeres e desgostos no convívio social, e sempre que não lhes for honroso ou for prejudicial contribuir para o prazer, elas se recusarão a fazê-lo.

O que seria do homem sem a virtude? Seria um homem vazio? Diante da visão aristotélica, poderíamos dizer que sim, pois este não poderia ser completado na realidade vivenciada nas mais variadas situações individuais e coletivas. Essa última, própria de sua condição social. Aristóteles considera o homem como um “animal político”, em vista de que ele nunca está sozinho, está sempre em sociedade, seja em casa, nas ruas, em todo o lugar.

O homem virtuoso pensa antes de agir. Não age por extinto, mas através da moral e da ética. É através da virtude que o homem, como ser racional, pode assim chegar a um consenso para uma vida política respeitável e verdadeira. E O catecismo da Igreja Católica reforça:

As virtudes humanas são atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições habituais da inteligência e da vontade que regulam nossos atos, ordenando nossas paixões e guiando-nos segundo a razão e a fé. Propiciam, assim, facilidade, domínio e alegria para levar uma vida moralmente boa. Pessoa virtuosa é aquela que livremente pratica o bem. As virtudes morais são adquiridas humanamente. São os frutos e os germes de atos moralmente bons; dispõem todas as forças do ser humano para entrar em comunhão com o amor divino. (§1804)

Para Aristóteles a Ética precede a moral, pois esta antecipa as ações humanas e é a condição primeira para a condição virtuosa. A condição da virtude é a superação da condição do vício. Uma ou outra somente pode ser adquirida pelo hábito, ou seja, pela vivência no éthos, no comportamento diário quando aprendemos pela imitação do outro e repetimos como comportamento pessoal, tornando-se assim, uma “segunda natureza”, assim como prevê Aristóteles quando passamos do vício para a virtude. Aristóteles (2002. p. 40) também afirma:

(...) há duas espécies de virtude, a intelectual e a moral. A primeira deve, em grande parte, sua geração e crescimento ao ensino, e por isso requer experiência e tempo; ao passo que a virtude moral é adquirida em resultado do hábito (...) É evidente, pois, que nenhuma das virtudes morais surge em nós por natureza, visto que nada que existe por natureza pode ser alterado pelo hábito. Por exemplo, a pedra que por natureza se move para baixo não pode adquirir o hábito de ir para cima (...) Não é, portanto, nem por natureza nem contrariamente à natureza que as virtudes se geram em nós; antes devemos dizer que a natureza nos dá a capacidade de recebê-las, e tal capacidade se aperfeiçoa com o hábito.

Desde o primeiro capítulo da “Ética a Nicômaco”, a felicidade é dada como “uma atividade da alma conforme a virtude perfeita” (2002.p.36). Toda a obra parece investigar a natureza da virtude, com o objetivo de compreender melhor a natureza da felicidade.

Mas e nós? Sobre nossas atitudes cotidianas (na família, na escola, no trabalho, na rua, na pastoral...), poderíamos afirmar que nelas valorizamos a ética, sendo virtuosos? Se pudéssemos elencar todos os nossos comportamentos, dos mais simples aos mais complexos, será que eles seriam bom exemplos para a virtude tornar-se hábito na vida daqueles que Deus nos confiou? Independente da resposta dada, peçamos ao Pai que nos ajude a seguir, mais e mais, o exemplo de Jesus (cf. Jo 13,15).

Escrito por
Joana Darc Venancio (Redação A12)
Joana Darc Venancio

Pedagoga, Mestre em educação e Doutora em Filosofia. Especialista em Educação a Distância e Administração Escolar, Teóloga pelo Centro Universitário Claretiano. Professora da Universidade Estácio de Sá. Coordenadora da Pastoral da Educação e da Catequese na Diocese de Itaguaí (RJ)

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