Um estado teocrático, diferentemente do estado laico, é aquele em que o poder político é exercido por líderes religiosos, sendo baseado em doutrinas religiosas, sem distinção clara entre religião e Estado. As leis, a política pública e a moral da sociedade são fundamentadas em escrituras sagradas e os costumes são regulados pelo poder religioso.
Um estado laico, por sua vez, é uma nação neutra em matéria religiosa, que não adota uma religião oficial, garantindo a liberdade de crença e culto para todos. Nele, o poder político é distinto da influência religiosa, assegurando igualdade de tratamento para crentes e não crentes.
No passado distante, em tempos da Idade Média e início da Idade Moderna, existiu a união entre o poder espiritual, representado pelo Papa, e o poder temporal, representado pelo imperador, graças à chamada Lei das Duas Espadas. Essa junção, que vigorou muito na Europa, ajudou a criar a conceituação de “cristandade”, que foi muito vivenciada, sobretudo, na América Latina colonial.
No Brasil colonial e imperial, a religião católica era a oficial e o cristianismo era considerado “a religião do Estado”, tanto assim que o imperador era tido como “defensor perpétuo da Igreja e da religião”. Apenas em 1891, com a primeira constituição republicana e com o fim da Lei do Padroado, essa situação foi modificada.
Na atualidade, existem alguns países que ainda podem ser considerados como estados teocráticos. O caso mais representativo é o do Irã, onde predomina o ramo xiita do islamismo, que é mais radical. O islamismo é a religião oficial e todas as demais religiões ou igrejas, como o cristianismo, ainda que mais ou menos toleradas, são minoritárias. No Irã, a figura dos aiatolás ocupa um lugar central na vida religiosa, política e social, e um deles ocupa a figura de Líder Supremo.
O aiatolá é um título concedido a pessoas estudiosas de alto nível, reconhecidas pelo seu conhecimento teológico e jurídico. A autoridade do líder supremo ultrapassa o campo espiritual e alcança a estrutura do Estado, influenciando decisões de governo, normas de convivência e até comportamentos cotidianos das pessoas.
Os aiatolás sempre existiram, mas com a Revolução Islâmica de 1979, o sistema político concedeu a esses líderes um forte papel institucional, com o seu líder supremo concentrando a maioria dos poderes em suas mãos, se transformando no elemento-chave do funcionamento do Estado iraniano.
Existe a constituição, existe um presidente e um corpo governamental formado por diversos organismos, mas o poder maior concentra-se nas mãos da suprema autoridade religiosa, que se torna a referência para a interpretação da lei islâmica. Considerado “pessoa inspirada divinamente”, os fiéis seguem à risca os seus ensinamentos e, se preciso for, pagam com a própria vida as consequências desse seguimento.
O aiatolá emite pareceres jurídicos e religiosos sobre os mais variados assuntos, exercendo grande influência sobre o comportamento dos seguidores e determinando a organização das estruturas de poder do país.
Parte fundamental de um estado teocrático, e isso se vê claramente no Irã, é o ensino religioso, pois ele perpetua o poder de seus líderes, forma novos seguidores, preparando pessoas para a liderança e reforçando o papel da religião no contexto geral do país.
Aiatolá Khomeini
Na República Islâmica do Irã, a autoridade do aiatolá, enquanto líder supremo, tem uma influência direta na política. A própria constituição prevê que sua figura detém a palavra final em diversas áreas, inclusive, com poder de veto. Isso significa que as próprias decisões de governo passam por sua aprovação.
É o líder supremo que indica os ocupantes dos principais cargos do país nas esferas política, militar, judiciária e de comunicação. Ele também exerce influência sobre o Conselho dos Guardiães, órgão que avalia as leis aprovadas pelo Parlamento e filtra candidaturas para eleições, podendo orientar o rumo de reformas internas, o grau de abertura econômica, o relacionamento com outros países e a resposta a crises internas.
O poder do aiatolá como líder supremo é vitalício e sua influência atinge também o dia a dia dos cidadãos, emanando normas relativas ao seu viver, regras de comportamento em família e em sociedade. Através das “fatwas”, que são as interpretações das leis, decisões do campo religioso que parecem bastante abstratas ganham efeitos concretos em rotinas domésticas, no trabalho e na educação.
No campo cultural, a figura e o pensamento do aiatolá influenciam produções artísticas, debates acadêmicos, o sistema educacional e o conteúdo dos programas de rádio, televisão, filmes e publicações. As redes sociais e os conteúdos emitidos e propagados pela internet são totalmente controlados. Em períodos de maior tensão política, discursos de um aiatolá podem estimular mobilizações populares, reforçar campanhas oficiais ou tentar apaziguar manifestações nas ruas.
A relação entre Estado, religião e sociedade, no caso iraniano, passa obrigatoriamente pelo papel desempenhado por esses clérigos muçulmanos de alta hierarquia. E como o ramo xiita é avesso a mudanças e transformações, o estado iraniano é bastante fechado, o pensamento discordante é censurado e perseguido, como se viu nas manifestações ocorridas a partir de dezembro de 2026.
O cerceamento de opinião e o controle das comunicações explicam também o apoio e a aceitação dos grupos opositores, alguns inclusive defensores da volta da monarquia, aos bombardeios feitos por Israel e pelos Estados Unidos que levaram à morte do líder supremo já substituído pelo seu filho e à morte de outras lideranças civis e militares do país.
A compreensão do cenário iraniano contemporâneo e das mudanças que poderão surgir com o encerramento das hostilidades, com um possível acordo entre os beligerantes, passa necessariamente pela compreensão do modo de funcionamento de um Estado teocrático, do papel de seu líder supremo e da organização do grupo religioso radical por ele representado.
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