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A movimentação em Ceuta e a crise migratória na Europa

Entenda como a crise migratória em Ceuta expõe desafios da Europa diante do avanço da imigração africana!

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Escrito por Pe. José Inácio Medeiros, C.Ss.R.

02 SET 2026 - 12H31 (Atualizada em 02 SET 2026 - 13H03)

studio v-zwoel/ Adobe Stock

Entre fins de julho e início de agosto, durante cinco dias, cerca de 72 mil imigrantes entraram ao mesmo tempo na Espanha e em ondas sucessivas atravessaram a fronteira entre o Marrocos e o enclave espanhol de Ceuta, criando uma crise de caráter continental, obrigando a União Europeia a se reunir em caráter de urgência para debater não apenas essa situação específica, mas toda a questão migratória na Europa.

Ceuta e Melilla são duas cidades espanholas que ficam no território do norte da África, tendo sido conquistadas por Espanha e Portugal na guerra contra a ocupação moura na Península Ibérica, no século XV.

CarmenJ/ Adobe Stock CarmenJ/ Adobe Stock Mapa mostrando o Estreito de Gibraltar, Espanha, Portugal e Marrocos

Os dois enclaves são especialmente sensíveis, tanto do ponto de vista geopolítico como pelos movimentos demográficos como se viu no período que foi bastante agitado.

A história de Ceuta

A história de Ceuta abrange mais de três mil anos de disputas pela influência estratégica no Estreito de Gibraltar, estreita faixa de mar que separa a Europa do Norte da África.

Localizada na ponta sudoeste da Península Ibérica, Gibraltar é um pequeno território ultramarino de aproximadamente 07 quilômetros quadrados, pertencente ao Reino Unido desde 1713. Fazendo fronteira apenas com a Espanha ao norte, possui vista para o estreito do mesmo nome que conecta o Oceano Atlântico ao Mar Mediterrâneo. Nele, está situado a cidade de Gibilterra com cerca de 40 mil habitantes.  

Colonizada primeiramente por fenícios, cartagineses, romanos e visigodos, Ceuta passou ao domínio muçulmano no século VIII. Em 1415, porém, foi conquistada por Portugal, passando a integrar o território da Coroa Espanhola em 1668, após o Tratado de Lisboa. Até hoje segue como possessão espanhola.

Tantos os fenícios como gregos e cartagineses, que eram excelentes comerciantes, ali criaram feitorias comerciais e aproveitaram a excelente posição geográfica de Ceuta para expandir o comércio em todo o Mediterrâneo.

Quando Roma derrotou Cartago, se tornando dona de todo o Mar Mediterrâneo que passou a ser chamado de “Mare Nostrum” (Nosso Mar), Ceuta se tornou parte da província romana da Mauritânia Tingitana (Septem Fratres) e, mais tarde, base militar bizantina no reinado de Justiniano I.

No século VIII, Ceuta foi conquistada pelos muçulmanos passando a servir como ponto de partida para a invasão da Península Ibérica a partir de 711, pelo general Tariq ibn Ziyad.

pablogallard0/ Adobe Stock pablogallard0/ Adobe Stock Vista aérea da cidade de Ceuta

Séculos mais tarde, uma armada portuguesa liderada pelo Rei Dom João I e pelos infantes, tomou Ceuta em 14 dias de agosto de 1415, marcando o início da expansão ultramarina portuguesa que desceu em direção à África e Brasil.

Mais tarde, a consolidação da União Ibérica, com o domínio da Coroa Espanhola sobre Portugal, fez com que Ceuta passasse à soberania espanhola. Durante a união das duas coroas (1580–1640), a cidade esteve sob o mando da Casa de Habsburgo, mas quando Portugal recuperou a independência, Ceuta optou por manter a lealdade à Coroa de Espanha, laço formalizado pelo Tratado de Lisboa em 1668.

Já em nossos tempos, quando a Espanha e a França estabeleceram o protetorado em Marrocos em 1912, Ceuta já era parte integrante do território metropolitano espanhol havia séculos. Após a independência de Marrocos em 1956, Ceuta continuou sob soberania de Espanha, recebendo o estatuto de cidade autonoma em 1995.

Crise migratória

A entrada em massa de imigrantes no mês de agosto pelos portões que separam a Europa da África não é novidade. Os espanhóis estão bastante acostumados a grandes ondas de pessoas chegando ao mesmo tempo pelas fronteiras, tanto de Ceuta quanto de Melilla, mas nenhum movimento havia sito tão envolvente como esse.

O maior movimento de migrantes em tão pouco tempo de Marrocos para Ceuta, com a pretensão de atingir outras partes da Europa a partir de lá, levou a uma série de ajustes de contas políticas, não somente na Espanha como no restante do continente europeu.

Inicialmente, o governo espanhol optou por não desgastar a relação com seu vizinho Marrocos. O primeiro ministro espanhol Pedro Sánchez chegou a falar de "violação territorial" da Espanha, mas no fim de semana, seu Ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, defendeu o governo marroquino e o bate-boca aconteceu no interior do país.

Depois, veio ainda as dificuldades com o governo italiano que acusou a Espanha de ter facilitado a entrada de imigrantes, sem tomar as devidas medidas regulatórias.

A crise migratória continua ganhando novos contornos com a atuação de redes de tráfico humano que teriam incentivado a travessia em massa para a região espanhando, como boatos de falsas promessas de legalização, uma vez que a Espanha é um dos países da Europa que tem uma política migratória mais flexível, tendo prometido a legalização da situação de 500 mil imigrantes ilegais no país.

Além do mais, a tragédia resultou em mais de 70 mortos entre afogados e pessoas pisoteadas durante as tentativas de cruzar a fronteira.

Reprodução/ Vatican Media Reprodução/ Vatican Media Viagem Apostólica de Leão XIV à Espanha e seu encontro com os Migrantes

A crise, cujos reflexos ainda continuam, também expôs as profundas divergências políticas sobre imigração dentro da Europa. Partidos populistas, especialmente de direita, têm utilizado os acontecimentos em Ceuta para atacar políticas migratórias mais abertas, como a adotada pela Espanha, propondo mais rigidez e fechamento, pois em quase todos os países europeus o número de imigrantes que chegam é maior a cada ano.

Em junho, quando de sua viagem à Espanha, no dia 12, o Papa Leão XIV esteve em Santa Cruz de Tenerife, nas Ilhas Canárias, outro ponto de entrada para o continente, justamente para chamar atenção para o drama das viagens dos imigrantes em todo o Mar Mediterrâneo.

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