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A perseguição religiosa e a Guerra Cristera no México

Com a constituição anticlerical, o país sofreu uma das mais duras perseguições religiosas de todos os tempos!

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Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

04 NOV 2026 - 10H32 (Atualizada em 04 NOV 2026 - 16H48)

Imagem Star Way / Adobe Stock

Depois de décadas de pressão contra a Igreja Católica, a Constituição Mexicana de 1917 estabeleceu um dos precedentes mais graves de perseguição religiosa no país, desconsiderando a história, os direitos e o estatuto jurídico da Igreja, estabelecendo restrições significativas ao culto. A Constituição, considerada a mais anticlerical das Américas, incorporou artigos destinados a submeter totalmente a Igreja ao controle absoluto do Estado.

As restrições do governo federal mexicano tornaram-se cada vez mais drásticas e, em 31 de julho de 1926, entrou em vigor a lei sobre crimes e delitos em matéria de culto religioso e disciplina externa, promulgada pelo então presidente do México, Plutarco Elías Calles, ficando por isso conhecida como Lei Calles.

A resposta da Igreja foi drástica, sem precedentes e combinada entre todos os arcebispos e bispos mexicanos: em 31 de julho de 1926, com a rejeição da Lei Calles pela Santa Sé e de "qualquer ato que possa significar ou ser interpretado pelos fiéis como uma aceitação da própria lei", o culto público foi suspenso em todo o México.

A eclosão da guerra

Fonte: Memórica México / acervo histórico digital Fonte: Memórica México / acervo histórico digital

Os fiéis pegaram em armas em várias partes do país contra o governo federal e em defesa da fé, no que ficou conhecido como Guerra Cristera. O povo, sobretudo os camponeses, foi o que mais lutou numa espécie de guerrilha, especialmente nos estados de Jalisco, Guanajuato, Michoacán, Colima e outros estados centrais do México.

A resistência Cristera foi coordenada pela Liga Nacional para a Defesa da Liberdade Religiosa, conhecida como A Liga, tanto até mesmo por militares de carreira entre seus organizadores.

A guerra terminou no dia 21 de junho de 1929, com os acordos estabelecidos entre o arcebispo mexicano Leopoldo Ruiz y Flores, delegado apostólico do Papa Pio XI; o bispo de Tabasco, Pascual Díaz, e o então presidente do país, Emilio Portes Gil, sucessor de Plutarco Elías Calles.

Os acordos não significaram modificações na Constituição de 1917 ou na “Lei Calles”, mas estabeleceram uma linha de ação pela qual o governo federal se comprometia a não aplicar as leis para perseguir fiéis, enquanto os bispos retomavam os cultos e os cristeros depunham as armas.

A perseguição, porém, estava longe de terminar, pois muitos cristeros se recusaram a depor as armas e a perseguição, os assassinatos de padres e fiéis continuaram por mais alguns anos.

Fonte: El Inforamador Fonte: El Inforamador

Segundo a Conferência Episcopal Mexicana (CEM), cerca de 200 mil mártires deram a vida defendendo sua fé: crianças, jovens, idosos, camponeses, operários, profissionais, padres, religiosos e leigos, diversos deles já beatificados ou canonizados pela Igreja.

Apenas em 1992, depois de uma reforma constitucional e da entrada em vigor da Lei das Associações Religiosas e do Culto Público, é que as autoridades mexicanas reconheceram a personalidade jurídica da Igreja. A partir de então, por exemplo, a Igreja pôde ter templos no México, mas todos os construídos antes de 1992, inclusive a Basílica de Guadalupe, pertencem ao Estado.

A legislação atual proíbe associações religiosas e ministros de ter ou operar estações de rádio, estações de televisão ou qualquer tipo de telecomunicações, e operar qualquer meio de comunicação de massa. A lei só permite a publicação de materiais religiosos impressos.

“Viva Cristo Rei!”

Imagem YuI / Adobe Stock Imagem YuI / Adobe Stock

O grito de “Viva Cristo Rei!”, que identificava os cristeros surgiu como um teste feito por soldados federais quando prendiam alguém por professar a fé, uma vez que a pessoa devia decidir se jurava fidelidade a Deus ou ao Estado. O grito se tornou um sinal claro de sua opção e, na maioria das vezes, levava à morte de quem ousava desafiar o Estado.

Na época da guerra não havia uma clara definição, com muita discussão teológica sobre se era possível guerrear e defender a fé com armas. Se a maioria dos bispos e padres se colocaram ao lado dos cristeros, com padres pegando também em armas, houve aqueles que rejeitaram essa decisão, chegando a denunciar quem o fizesse.

A Guerra Cristera no México foi um confronto armado direto entre um Estado que buscava a secularização forçada e uma sociedade que se recusava a renunciar à sua identidade católica. Esse episódio sangrento deixou um legado de mártires e uma ferida histórica que marca até agora a complexa relação entre Igreja e Estado no México moderno.

Uma exortação da Conferência Episcopal Mexicana (CEM)

Numa de suas mensagens ao Povo de Deus, a CEM fez uma exortação para que se "honre a memória da resistência cristera". A conferência episcopal disse que o centenário do movimento (1926-2026) “não pode ser uma mera comemoração nostálgica”, mas “um exame de consciência e um compromisso renovado”.

Dizem os bispos: “Nossos mártires nos perguntam hoje: estamos preparados para defender nossa fé com o mesmo radicalismo? Perdemos nosso senso do sagrado? Nos acostumamos a uma cultura que quer relegar a fé à esfera privada?”.

Pela declaração, pode-se perceber que, em certo sentido, as perseguições religiosas e a Guerra Cristeira ainda são uma ferida aberta que precisa cicatrizar.

Nos dias atuais, a Igreja Católica no México desfruta de grande influência cultural e social, com a maioria da população se declarando católica. O México é o terceiro maior católico do mundo, atrás apenas do Brasil e dos Estados Unidos. A relação formal com o Estado é baseada no princípio da separação entre Igreja e Estado. A Constituição mexicana estabelece um Estado laico rigoroso e, por ele, as igrejas não podem possuir meios de comunicação próprios, os ministros de culto não têm direito a voto passivo (não podem candidatar-se a cargos políticos) e têm restrições quanto ao voto ativo, e o ensino público é laico, proibindo o ensino religioso nas escolas oficiais.

Em sua ação pastoral, a Igreja enfrenta grandes desafios devido à violência do crime organizado e dos cartéis do narcotráfico, que operam com alta impunidade em várias regiões e frequentemente visam sacerdotes e agentes pastorais. Paralelamente, a instituição atua em defesa das vítimas de desaparecimentos e lida com pressões em comunidades indígenas, mantendo forte presença cultural centrada na devoção a Nossa Senhora de Guadalupe.

A Conferência Episcopal Mexicana frequentemente cobra reforços na segurança e apoia comunidades atingidas por conflitos armados locais.

O número de sacerdotes cresce com limitações frente às demandas da população, e ocorrem reestruturações internas em ordens religiosas e dioceses.

Conheça a história de Nossa Senhora de Guadalupe

Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

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