Em outubro, completaram-se dez anos do falecimento de Cláudio Pastro, artista responsável por inúmeras obras presentes no interior do Santuário Nacional de Aparecida. Em memória de seu legado, o A12 produziu uma página especial que destaca sua contribuição artística para a Basílica e, agora, apresenta uma comunidade religiosa que tem suas criações como referência.
As Irmãs de Maria Stella Matutina formam um instituto religioso católico romano de vida contemplativa e não enclausurada. A comunidade está presente em quatro continentes e 17 países, incluindo o Brasil, onde possui mosteiros nas cidades de Valença (RJ) e Aracaju (SE).
Entre os pilares da espiritualidade do instituto está o trabalho manual e artístico, por meio do qual as religiosas expressam sua fé e colocam seus talentos a serviço da Igreja. Para compreender como as obras de Cláudio Pastro influenciam a produção artística da comunidade, o A12 conversou com a Irmã Clara Maria, religiosa francesa que atualmente vive no mosteiro de Rivarolo Canavese, na região do Piemonte, no norte da Itália.
Assim como outras irmãs da comunidade, ela conheceu as obras do artista no Santuário Nacional de Aparecida durante o período em que viveu no mosteiro de Valença (RJ), no Brasil.
Leia a seguir a entrevista completa e entenda por que a arte de Cláudio Pastro vai além da referência estética, mas também teológica e espiritual para as Irmãs.
– Quais são os pilares da espiritualidade das Irmãs de Maria Stella Matutina?
Irmã: Nossa vida, enraizada na tradição monástica, é marcada pela oração do Ofício Divino, pela adoração eucarística, pelo trabalho manual e pelo estudo bíblico. Damos grande importância à formação integral da pessoa humana ao longo de toda a vida, para que nossa consagração assuma todas as dimensões da magnífica humanidade da qual nos fala o Santo Padre (trabalho, diálogo, escuta, confiança, liberdade e responsabilidade).
Embora preservemos uma verdadeira clausura, gostamos de compartilhar nossa vida de oração e nossa formação com aqueles que desejam e vêm buscar renovação espiritual à sombra de nossos mosteiros. Às vezes, também somos chamadas a conduzir momentos de oração fora de nossos conventos.
+ Conheça mais sobre o trabalho e arte desenvolvidos pela Congregação
– Qual é a importância do trabalho na espiritualidade e na missão da congregação?
Irmã: O trabalho manual é, antes de tudo, essencial para o equilíbrio da pessoa. Ele nos permite mobilizar todas as potencialidades humanas a serviço de Deus e dos outros, por meio tanto dos serviços humildes de cada dia quanto da transmissão do belo em nossos ateliês de arte.
O trabalho também é, para nós, a concretização do voto de pobreza: trabalhar nos permite suprir, em parte, nossas necessidades e, dessa maneira, queremos cooperar com a Providência Divina.
– O trabalho é o mesmo em todos os locais de missão das irmãs ou assume características próprias de cada missão?
Irmã: Nosso trabalho reflete aquilo que vivemos: nossa vida de oração e nosso amor pela Palavra de Deus. Nesse sentido, ele é marcado pela mesma simplicidade e profundidade, independentemente do lugar onde é realizado.
Entretanto, assume, com muito realismo, o contexto em que é desenvolvido. A inspiração das irmãs é frequentemente enriquecida pela cultura que descobrem em seu local de missão, assim como pela natureza que as rodeia, que não é a mesma na Europa, no Brasil ou na Ásia...
– O que é indispensável na criação de uma obra de arte que realmente comunique a fé?
Irmã: Para que uma obra de arte comunique verdadeiramente a fé, é necessário que aquele que a realiza esteja habitado por essa fé. É muito difícil para um artista julgar se seu trabalho realmente reflete sua fé, que é, antes de tudo, um dom de Deus.
Mas o artista cristão que vive sua arte como uma missão sabe que deve transmitir uma mensagem que o ultrapassa. Ele é responsável por vivificar, fazer crescer e purificar essa fé que deseja transmitir, por meio da oração e do estudo da Palavra de Deus.
Esse é o magnífico exemplo que Cláudio Pastro nos deixou.
– Quando e em qual contexto a congregação teve contato com as obras de Cláudio Pastro no Santuário de Aparecida?
Irmã: Quando as primeiras irmãs chegaram ao Brasil, em Salvador, na Bahia, ouviram falar das obras de Cláudio Pastro e do Santuário de Aparecida. Antes de conseguirem visitar o local, durante vários anos, esse encontro aconteceu por meio de fotografias em livros!
Muito rapidamente, o nome de Cláudio Pastro começou a circular em todos os nossos conventos, na Europa e em outros lugares, e ele se tornou uma referência para nós em nossos trabalhos de arte litúrgica.
– Quais aspectos de sua arte chamaram a atenção de vocês? Por quê?
Irmã: O que mais nos impressionou, inicialmente, foi a pureza de um desenho que deixa todo o espaço para o essencial. Encontrávamos nessa simplicidade um eco daquilo que desejamos viver: o mistério de Deus está no centro, e todo o restante deve conduzir a Ele.
Sob essa luz, gostamos de descobrir uma arte que busca toda a sua inspiração na Palavra de Deus, conferindo, assim, à Revelação uma expressão visual muito pura, ao mesmo tempo teológica e encarnada.
Há também, na obra de Cláudio Pastro, uma maravilhosa união entre tradição e modernidade. Encontramos nela toda a riqueza da simbologia primitiva, sublimada por seu estilo único e original.
– De que maneira essa inspiração se concretiza no trabalho de vocês atualmente? Somente na cerâmica ou também em outras linguagens artísticas?
Irmã: Muitas irmãs se inspiraram nas obras de Cláudio Pastro para criar, por exemplo, decorações para círios pascais ou ornamentos litúrgicos.
Cláudio Pastro é inimitável! Mas, ao contemplarmos frequentemente suas obras e também ao lermos seus escritos, procuramos nos deixar ensinar por ele, como por um mestre que nos mostra o caminho de uma arte inteiramente a serviço da contemplação, pois é dela que essa arte nasce.
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– Existe alguma obra que tenha um significado especial para vocês? Qual é a história por trás dela?
Irmã: O Santuário de Aparecida nos é especialmente querido. Gostamos de parar diante de cada afresco, com a Bíblia na mão, para contemplar, «com os olhos» de Cláudio Pastro, a vida de Cristo, o mistério da Igreja, a história das mulheres santas da Bíblia que prefiguram a Virgem Maria, etc.
As diferentes representações do Cordeiro nos tocam especialmente. Ele é verdadeiramente o Cordeiro Redentor, imolado e vitorioso, de quem nos fala São João no Apocalipse.
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