Por Mariana Mascarenhas - Redação A12 Em Mundo Atualizada em 17 SET 2020 - 14H17

Cancelamento de pessoas: o ser humano julgado sem critérios

Pepsco Studio/Shutterstock
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Cancelar: verbo transitivo direto definido no dicionário Aurélio como “tornar sem efeito, anular, eliminar, suspender”.

O termo, normalmente, está atribuído a algo inanimado que pode ser cancelado, como a assinatura de um jornal ou um passaporte, cujos exemplos são citados no dicionário. No entanto, principalmente no âmbito virtual, o vocábulo passou a ser utilizado, cada vez mais, para pessoas. Isso mesmo! Embora soe estranho cancelar alguém, principalmente quando observamos a definição acima – afinal nenhum ser humano deveria ser “anulado”, “eliminado” ou “suspenso” –, nunca se falou tanto no cancelamento de pessoas como agora.

Mas, afinal, o que realmente significa tal expressão? Trata-se do ato de boicotar um indivíduo pelo fato de ele ter feito algo que, na visão do “cancelador”, está errado. A questão é que não existe critério algum para tal anulação e, graças às redes sociais, ela ganha uma repercussão incontrolável, considerando o alcance que ela pode ter. Além disso, elas servem de incentivo para tal comportamento, já que muitos o fazem por sentirem-se protegidos ao se “camuflarem” em perfis falsos, sendo que muitos são feitos, unicamente, para atacar o outro. Assim, quanto maior for a repercussão das críticas, mais a reputação do cancelado será atingida.

É importante ressaltar, também, que o ato de cancelar alguém, mesmo que não tenha sido definido dessa forma anteriormente, sempre existiu na humanidade; inclusive como forma de indivíduos mais poderosos imporem suas ideias sobre os demais, “anulando” aqueles considerados perigosos, por se oporem a tais ideias.

Lightspring/Shutterstock
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Quando se trata de figuras públicas, as chances de o cancelamento acontecer são ainda maiores, devido à exposição constante. Assim, qualquer deslize cometido por elas e divulgado nas redes virtuais pode transformar radicalmente suas vidas, acarretando em prejuízos financeiros, como perda de patrocinadores, etc.

Porém, não são apenas os famosos que sofrem com tais julgamentos, pois os anônimos também estão sujeitos ao cancelamento. Se você ofender alguém em um espaço público, por exemplo, e estiver sendo filmado(a), caso a gravação seja postada na internet, há grandes chances de você ser cancelado(a), dependendo da situação. No entanto, por mais que determinadas ações de alguns cancelados sejam consideradas repugnantes, é preciso analisar um fator em questão: o perigo de tentar fazer justiça com as próprias mãos e/ou ainda se rebaixar ao nível daquele que estamos cancelando.

Um exemplo de tal afirmação ocorreu há algumas semanas, quando um morador de um condomínio residencial na região de Valinhos, interior de São Paulo, humilhou um entregador, desmerecendo-o socialmente. A situação foi filmada e postada nas redes, gerando uma grande comoção nacional e a indignação de muitos internautas com a forma como o entregador foi ofendido. A indignação foi tamanha que muitas pessoas passaram a ofender o morador pelo seu peso.

Leia MaisIntolerância, tolerância e prudênciaÉ inquestionável a indignação com a atitude desse morador que desvalorizou um ser humano, a qual pode, sim, ser criticada. No entanto, ao insultar a pessoa, muitos cometem o mesmo ato o qual estão condenando. Eis a questão: se tivermos que cancelar algo, devemos cancelar o “pecado” e não o “pecador”.

Obviamente que, se alguém cometeu um erro, como um crime, por exemplo, deverá responder judicialmente, porém, muitos “canceladores” ocupam o posto de julgadores, na ânsia de fazer justiça com as próprias mãos. Há sérios riscos em tal comportamento, que podem, inclusive, prejudicar pessoas inocentes. Alguns exemplos: em 2014, uma mulher foi espancada até a morte em Guarujá, litoral de São Paulo, após divulgarem fotos suas nas redes sociais, atrelando-a a práticas de bruxaria e sequestro de crianças. No entanto, tudo não passava de boatos. Recentemente, um homem também foi morto com sete tiros, depois que sua imagem foi divulgada num programa de TV como suspeito de um crime.

Outro caso, que virou até objeto de estudo nos cursos de jornalismo, aconteceu em 1994. Dois proprietários de uma escola, chamada Escola Base, foram acusados de abuso sexual de alunos, sem provas concretas. Após a divulgação do caso na mídia, a repercussão foi gigantesca e resultou no fechamento da instituição. Algum tempo depois, a inocência dos proprietários foi comprovada. Eis o perigo de julgarmos sem conhecermos.

Portanto, é necessário que tenhamos empatia com todos, o que não significa concordar com determinados atos cometidos pelos indivíduos, mas, condenar e cancelar o ato e não o ser humano, principalmente quando não conhecemos a totalidade dos fatos. Recordemos, assim, o que nos disse o Papa Francisco em uma de suas homilias, proferida em janeiro deste ano de 2020:

“O nosso estilo de vida, o nosso modo de julgar os outros deve ser plenamente cristão, isto é, generoso e repleto de amor, e não motivo de humilhações, porque com a mesma medida com a qual julgamos, também nós seremos julgados ao final da nossa existência.”

Que, ao invés de apontar o dedo para julgar e cancelar, possamos, então, estender a mão ao próximo, para ajudá-lo a ser uma pessoa cada vez melhor.

Escrito por
Mariana Mascarenhas (Mariana Mascarenhas)
Mariana Mascarenhas - Redação A12

Mariana da Cruz Mascarenhas é Jornalista e Mestra em Ciências Humanas. Atua como Assessora de Comunicação e como Articulista de Mídias Sociais, economia e cultura.

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