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Mudanças de fronteiras e mudanças na história

Entenda como decisões tomadas há séculos continuam gerando impactos políticos, sociais e culturais ao redor do mundo!

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Escrito por Pe. José Inácio Medeiros, C.Ss.R.

31 AGO 2026 - 15H01

Reprodução/ Sutori

As fronteiras não podem ser vistas apenas como linhas traçadas nos mapas. Em muitos momentos da história elas redefiniram países, separaram povos e mudaram o rumo da humanidade.

Na antiguidade era bastante comum que os impérios tivessem continuamente suas fronteiras em movimentação, conforme avançavam as conquistas de povos vizinhos, mas com o advento dos Estados modernos as fronteiras se estabeleceram e raramente passam por um processo de alteração. Ao longo da história antiga e recente tivemos, porém, alguns fatos que provocaram verdadeiras mudanças na história.

O Tratado de Tordesilhas

Foi um acordo celebrado entre Portugal e Espanha e assinado no dia 7 de junho de 1494. Por ele, o mundo de "além-mar" foi dividido em duas áreas de influência. O acordo estabeleceu uma “linha imaginária” localizada a 370 léguas a oeste do arquipélago de Cabo Verde. As terras descobertas ou a descobrir a leste dessa linha pertenciam a Portugal. As terras descobertas ou a descobrir a oeste dessa linha pertenceriam à Espanha.

António Duarte/ Adobe Stock António Duarte/ Adobe Stock Imagem representando um tratado

O acordo foi criado para resolver disputas após as viagens exploratórias de Cristóvão Colombo (que chegou à América em 1492 em nome da Espanha), garantindo que Portugal tivesse espaço para navegar no Atlântico Sul a caminho das Índias.

Como o meridiano passava a cerca de 370 léguas da costa africana, ele acabou cortando o litoral leste da América do Sul. Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao território brasileiro em 1500, a maior parte da área oriental do que hoje é o Brasil já estava na área de domínio português.

Com o avanço da colonização e das expedições de exploração, os portugueses ultrapassaram a linha imaginária de Tordesilhas. O acordo foi posteriormente substituído pelo Tratado de Madri em 1750, que reconheceu a expansão do território português na América, dando a Portugal a maior parte do atual território brasileiro que seria posteriormente aumentado através de tratados que redefiniram as fronteiras com os atuais países da América Latina.

A Partilha da Índia

Durante um longo período, o território que hoje forma a Índia e o Paquistão era parte do vasto Império Britânico, até que o processo de independência no período posterior à Segunda Guerra Mundial resultou na criação de dois países distintos.

Após a guerra, o Império Britânico estava enfraquecido e sem condições políticas ou financeiras de manter a sua maior colônia. Sob forte pressão de movimentos nacionalistas, a independência tornou-se inevitável, ocorrendo em 1947. A divisão foi desenhada por um advogado britânico, Cyril Radcliffe, que não conhecia a região. As fronteiras foram traçadas, dividindo as províncias de Punjab e Bengala com base nos censos religiosos.

Photo Agency/ Adobe Stock Photo Agency/ Adobe Stock Mapa da Índia e dos países vizinhos no sul da Ásia

Com as novas fronteiras, de 12 a 15 milhões de pessoas que estavam do "lado errado" iniciaram uma migração em massa que resultou em graves conflitos sectários que provocaram diversos massacres. Estima-se que a movimentação tenha provocado a morte de cerca de 1 milhão de pessoasA criação de regiões autônomas também foi caótica, resultando em disputas territoriais que geram tensões ainda hoje, como as que acontecem na região da Caxemira até hoje.

A divisão da Coreia

A divisão das duas Coreias ocorreu quase no final da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Após o Japão sair derrotado da guerra, perdendo o controle da península coreana, os aliados dividiram o território pelo paralelo 38, com o norte ficando sob ocupação e influência da União Soviética e o sul, dos Estados Unidos (capitalista).

Esse arranjo, inicialmente pensado como uma ocupação temporária, consolidou-se em 1948 com a criação de dois governos independentes: a República da Coreia (Coreia do Sul) e a República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte).

KimVermaat/ Adobe Stock KimVermaat/ Adobe Stock A fronteira altamente militarizada entre as duas Coreias e a vila da paz das Nações Unidas em Panmunjom no meio

A situação se complicou, pois, em junho de 1950, a Coreia do Norte invadiu o Sul para tentar unificar o país sob o regime comunista, dando início à Guerra da Coreia. Os Estados Unidos e forças da ONU entraram no conflito para apoiar o Sul, enquanto a China e a União Soviética apoiaram o Norte.

A guerra terminou em 1953 com a assinatura de um cessar-fogo, mas sem um tratado de paz formal. Isso significa que, tecnicamente, os dois países ainda estão em guerra. O armistício estabeleceu uma nova linha de fronteira, protegida por uma Zona Desmilitarizada Coreana, uma faixa de segurança que corta a península e divide os dois lados, que até hoje não se entendem.

Divisão do Vietnã

O processo de divisão do Vietnã ocorreu em 1954, no fim da Primeira Guerra da Indochina. O país foi temporariamente cortado ao meio pelo paralelo 17, que o separou em duas nações com orientações ideológicas totalmente opostas.

A França, que dominava a região, sai derrotada na Primeira Guerra da Indochina, e a divisão deveria ser uma medida temporária, ficando estipulado que eleições gerais ocorreriam em 1956 para unificar o país sob um único governo.

O governo do Vietnã do Sul, porém, com incentivo dos Estados Unidos, recusou-se a realizar o pleito, sepultando a ideia de uma reunificação pacífica. A tensão política e ideológica deu origem à Guerra do Vietnã e, apesar da intervenção direta dos Estados Unidos, após anos de intensos combates e forte oposição interna nos Estados Unidos, as tropas americanas começaram a se retirar na década de 1970. O conflito terminou em 30 de abril de 1975, com a queda de Saigon, a capital do Sul, pelas forças norte-vietnamitas.

Com a vitória do Norte, o país foi oficialmente reunificado em 1976, formando a República Socialista do Vietnã, que permanece unificada até os dias atuais.

Queda do Muro de Berlim

A queda do Muro de Berlim ocorreu na noite de 9 de novembro de 1989. Na década de 1980, a crise econômica e a falta de liberdade na Alemanha Oriental geraram grandes protestos, com a população exigindo reformas democráticas e o direito de viajar livremente.

Reprodução/ GETTY AFP Reprodução/ GETTY AFP Milhares de pessoas quebrando o Muro de Berlim em 1989

Na noite do dia 9 de novembro, milhares de pessoas do lado oriental correram para os postos de controle a fim de passar para o lado ocidental. Sem ordens claras, os guardas de fronteira, acuados pelo tamanho da multidão, acabaram cedendo e abriram as passagens. Logo em seguida, as pessoas começaram a subir no muro e a quebrá-lo usando marretas e picaretas.

A Alemanha havia sido dividida em dois países após a Segunda Guerra, com o lado ocidental ficando sob a influência dos aliados capitaneados pelos norte-americanos e o lado oriental sob o controle da União Soviética. As diferenças entre os dois países eram gritantes e, mesmo após quase 40 anos, muitas marcas da divisão ainda permanecem, apesar da unificação que aconteceu na sequência da queda do muro.

Dissolução da Iugoslávia

A dissolução da Iugoslávia, que havia sido iniciada na década de 1990, se transformou num processo complexo marcado pela ascensão de nacionalismos, desigualdades econômicas e vácuo de poder deixado pela morte do líder Josip Broz Tito em 1980. A fragmentação do país resultou em uma série de conflitos sangrentos e na criação de vários estados independentes.

Em 1991, Eslovênia e Croácia declararam independência. A Macedônia também se separou pacificamente logo depois, enquanto a Bósnia e Herzegovina declarou independência em 1992. A separação da Croácia e, principalmente, a da Bósnia e Herzegovina desencadearam guerras brutais marcadas por "limpeza étnica" e violência entre sérvios, croatas e bósnios.

A Iugoslávia deixou oficialmente de existir em 2003, sendo substituída pela união de Sérvia e Montenegro. Em 2006, esses dois também se separaram. Mais tarde, em 2008, o Kosovo que era uma província autônoma da Sérvia declarou sua própria independência.

Apesar da atual estabilização da região, os conflitos ainda não foram de fato resolvidos.

Mundo em mudança

Assim como aconteceu nos casos acima citados, muitas fronteiras atuais são resultado de guerras, tratados e acordos políticos que aconteceram há séculos, mas continuam influenciando o mundo até hoje. Em diversas regiões, sobretudo na África e Ásia, conflitos territoriais ainda persistem pelo fato de fronteiras terem sido traçadas de forma artificial, separando povos e tribos amigas ou juntando numa só nação povos e tribos que eram inimigos. Significa que outras mudanças ainda poderão acontecer. 

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