Quem pensou que a seca somente acontecia no Nordeste do Brasil ou em vastas regiões da África e Oriente Médio está redondamente enganado, pois também a Europa está sendo afetada por uma das maiores secas de todos os tempos.
O drama da seca agrava-se com ondas de calor intenso e falta de chuva, reduzindo o nível de rios que são vitais para o continente, como o Reno, o Danúbio e o Pó. Essa escassez ameaça o transporte fluvial, a geração de energia, a agricultura e o acesso seguro à água potável em várias regiões do continente.
A drástica diminuição do volume de água nos grandes rios europeus começa a provocar consequências diretas na economia e, por tabela, no dia a dia da população.
Segundo os analistas, a seca está provocando os mais baixos níveis, segundo a medição histórica, nos rios Reno e Danúbio, provocando a dificuldade na navegação e, com isso, a interrupção do tráfego de barcos de carga. Além disso, os países mais afetados pela seca já enfrentam riscos reais de cortes e restrições no abastecimento de água potável e produção de energia.
Prejuízos severos para plantações devido à falha nos sistemas de irrigação também já são perceptíveis e, além da falta de água nos rios, o calor prolongado e o solo seco criam um cenário propício para desastres ecológicos e problemas urbanos.
Em vários países, como Espanha, Portugal, Grécia, Albânia e outros, já se nota um aumento drástico do número de incêndios florestais de grande intensidade, atingindo grandes áreas, com a consequente perda de florestas, plantações e da vida animal e vegetal.
Com a destruição de milhares de hectares de vegetação, muitos vilarejos estão sendo evacuados e algumas cidades já se encontram cobertas por densa fumaça, afetando a saúde respiratória de moradores. E, claro, a queda na produção de alimentos básicos e o temor de colheitas perdidas forçarão a Europa a comprar os produtos faltantes no mercado internacional, podendo favorecer, inclusive, o Brasil e os países do Mercosul, mas com a possibilidade real do aumento do custo de vida e da inflação.
A seca que está assolando o continente europeu (e não só) deverá se tornar a seca mais grave dos últimos 500 anos por ser mais intensa, persistente, afetando uma área muito maior.
Pessoas envolvidas com o meio ambiente, cientistas e ecologistas, principalmente, há muito vinham alertando os governos sobre a diminuição da camada de ozônio e as graves consequências que isso acarretaria ao clima mundial. Infelizmente, as medidas protetivas têm se mostrado insuficientes, com as alterações climáticas se agravando a cada ano, com o aumento da estiagem em vários continentes.
Existem aqueles que acreditam que não está longe o dia em que o objetivo das guerras não será mais o de expansão ou econômico, mas sim para a obtenção de água. Em vez de navios petroleiros singrando os mares, poderemos ter navios transportando o líquido precioso em seus tanques.
A população europeia já percebeu que os verões estão se tornando cada vez mais extremos, à medida que a crise climática provocada pela ação humana impulsiona temperaturas sem precedentes. As ondas de calor brutais e sucessivas têm drenado a umidade do solo e dos cursos de água, e a seca tem oferecido pouco alívio.
O Rio Danúbio, o segundo mais longo da Europa, que atravessa 10 países no seu percurso, desde a Alemanha até o Mar Negro, atingiu níveis recordes de baixa, forçando alguns países, como a Hungria, a racionar energia elétrica. A situação pode piorar se os níveis do rio continuarem diminuindo.
Outros rios europeus também estão sofrendo, incluindo o Pó, na Itália, e o Loire, na França, ambos com níveis excepcionalmente baixos em alguns trechos.
Os cientistas alertam que estes níveis recordes de baixa nos rios poderão ser ultrapassados repetidamente no futuro. Para eles, o aquecimento climático contínuo, os extremos hidrológicos que estamos vivendo agora poderão ser apenas “a ponta do iceberg”, e a gestão dos recursos hídricos se tornará cada vez mais desafiadora, transformando-se numa séria questão estratégica.
A única forma de limitar estes extremos vividos agora pela Europa, mas que já são conhecidos em outros continentes, é reduzir rapidamente as emissões de gases que produzem o efeito estufa. Diminuindo a produção de calor em todos os setores da sociedade, fatalmente o planeta voltará a se resfriar, alcançando níveis menos preocupantes, possibilitando a normalização do clima. Além disso, é preciso pensar e apoiar políticas de longo prazo, em vez de medidas paliativas de curto prazo.
A guisa de conclusão, pensamos agora em nosso Brasil, que é o detentor da maior reserva de água potável do planeta. Como estamos cuidando desse imenso reservatório?
O Brasil detém cerca de 12% de toda a água doce superficial e subterrânea do planeta, possuindo a maior reserva hídrica do mundo. Contudo, esse volume é distribuído de forma muito desigual pelo território nacional, gerando contrastes extremos entre a abundância da região Norte e a escassez relativa em áreas densamente povoadas do Sul.
A região norte concentra cerca de 68% a 70% dos recursos hídricos do país, impulsionada pela Bacia Amazônica, mas abriga uma parcela menor da população nacional. O Sudeste e o Nordeste, por sua vez, reúnem a maior parte da população brasileira, mas dispõem de uma porcentagem bem menor da água total do país, cerca de 6% e 3%, respectivamente.
Faz-se necessário recordar que o Brasil abriga a parte majoritária do chamado Aquífero Guarani e o vasto Sistema Aquífero Grande Amazônia (SAGA), um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do planeta já descoberto.
Milhões de brasileiros ainda sofrem com as falhas no acesso à água tratada e própria para consumo, o que evidencia que a alta disponibilidade na natureza não garante por si só uma distribuição mais igualitária, sobretudo nas grandes cidades.
Para não enfrentarmos situações muito parecidas com as que a Europa está vivendo agora, é preciso continuar limitando o desmatamento e a degradação de matas ciliares, que afetam diretamente a regulação do ciclo hidrológico.
Com a globalização, não podemos “ficar olhando apenas para nosso umbigo”, preocupados apenas com os nossos problemas, sabendo que o problema de um acaba por se transformar em problema de todos!
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