O dia 15 de agosto marcou os cinco anos da retomada do poder pelo Talibã no Afeganistão, após a retirada das tropas norte-americanas em 2021. Hoje, cerca de 14 milhões de afegãos enfrentam insegurança alimentar aguda, com os direitos das mulheres sistematicamente eliminados ou reduzidos.
Meninas são proibidas de ir à escola e universidades, mulheres são banidas de espaços públicos e, em 2024, foi aprovada uma lei restritiva que as proíbe até mesmo de falar em público.
A situação está sendo classificada por analistas estrangeiros como um verdadeiro “apartheid de gênero”, em referência ao cruel regime de segregação racial que por muitos anos aconteceu na África do Sul.
A crise econômica também se agravou intensamente com desemprego em alta e inflação crescente, enquanto a ajuda internacional, especialmente dos EUA, foi praticamente cortada desde 2025. O cenário tem impulsionado o aumento dos casamentos infantis e violação grave dos direitos humanos tolerada pelo regime talibã.
Durante muito tempo o Afeganistão foi presença diária nos meios de comunicação devido aos muitos problemas que o país enfrentava desde os anos de 1990, com a Guerra do Afeganistão e presença dos Estados Unidos. Hoje pouco aparece na mídia internacional voltada para outros interesses. Aquilo que se passa nesse país asiático pouco aparece e não chama mais atenção.
O conflito começou em dezembro de 1979, quando a União Soviética invadiu o país para apoiar um governo comunista local e conter guerrilheiros islâmicos chamados mujahidin. O conflito durou dez anos, gerando grande desgaste militar aos soviéticos, com forte apoio financeiro dos Estados Unidos aos rebeldes, terminando com a retirada da URSS em 1989.
Uma revolução feita em 1978 colocou um partido marxista no poder, mas o novo regime enfrentou forte resistência popular por tentar impor reformas laicas e radicais. Temendo perder sua zona de influência bem na fronteira, a União Soviética invadiu o país em 27 de dezembro de 1979.
Tropas soviéticas tomaram a capital Cabul, executaram o líder afegão Hafizullah Amin, substituindo-o por Babrak Karmal. Os soviéticos controlaram as grandes cidades e estradas, mas passaram a sofrer constantes ataques da guerrilha, que fugiu para o interior montanhoso. Os rebeldes mujahidin foram armados e preparados pelos Estados Unidos, recebendo armas, dinheiro e treinamento secreto dos Estados Unidos, Paquistão, Arábia Saudita e China.
O uso de mísseis antiaéreos fornecidos pelos EUA neutralizou a vantagem aérea soviética, especialmente os helicópteros, transformando a guerra em um atoleiro que passou a ser chamado de "Vietnã soviético", recordando o que havia acontecido com os Estados Unidos no Vietnã, de onde saíram completamente derrotados.
É nesse contexto que aparecem figuras como Osama Bin-Laden e a organização Al-Qaeda, que depois se voltaram contra os Estados Unidos, que financiavam e armavam o movimento.
A violência extrema causou mais de um milhão de mortes de civis afegãos e milhares de baixas soviéticas, com altos custos econômicos e pressão internacional. O líder soviético Mikhail Gorbachev decidiu então retirar as tropas.
O acordo de Genebra selou a retirada completa, que terminou em fevereiro de 1989, deixando o Afeganistão em frangalhos e abrindo caminho para uma violenta guerra civil.
A invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos
A invasão do Afeganistão pelos EUA começou no dia 7 de outubro de 2001, numa operação chamada "Liberdade Duradoura". Seu objetivo era derrubar o regime Talibã, que havia voltado ao poder, e destruir a Al-Qaeda, responsável pelos ataques de 11 de setembro que derrubaram as Torres Gêmeas em Nova Iorque. Em poucas semanas, o governo talibã caiu, mas a presença americana transformou-se numa ocupação de quase 20 anos marcada pela insurgência e instabilidade que duraram até sua retirada final em agosto de 2021. Os EUA iniciaram bombardeios estratégicos em outubro de 2001, combinados com o apoio à Aliança do Norte, a oposição afegã ao Talibã.
Mais uma vez os líderes talibãs e os combatentes da Al-Qaeda fugiram para áreas montanhosas ou para o vizinho Paquistão. Inicialmente, Osama bin Laden conseguiu escapar, sendo depois localizado e morto por forças especiais dos EUA em 2011, no Paquistão.
Com a atenção dos EUA voltada também para a Guerra do Iraque em 2003, o Talibã conseguiu se reorganizar no território paquistanês e iniciar uma forte guerrilha contra o novo governo afegão. Os EUA e aliados tentaram estabelecer um governo democrático centralizado em Cabul, treinando forças de segurança locais, investindo em infraestrutura, educação e direitos civis, mas o conflito prolongou-se por duas décadas, resultando em milhares de mortes entre militares estrangeiros, forças afegãs e civis, além de um desgaste econômico e político massivo. Em 2020, o governo dos EUA assinou um acordo com o Talibã para a retirada gradual das tropas americanas.
Os Estados Unidos não aprenderam com a Guerra do Vietnã, da qual saíram apressadamente, nem com a derrota da antiga União Soviética, que também saiu de forma atordoada do Afeganistão. Sua saída, concluída em 30 de agosto de 2021, foi um processo caótico e traumático que encerrou 20 anos de guerra.
Com a saída das forças estrangeiras desde o ano anterior, o Talibã avançou rapidamente pelo país em uma ofensiva relâmpago. As forças de segurança afegãs, apesar do treinamento recebido por décadas pelos EUA, desmoronaram sem resistência coordenada e o presidente afegão fugiu do país.
Milhares de civis afegãos, temendo a volta do regime extremista, lotaram o Aeroporto Internacional na tentativa de escapar. Imagens chocantes correram o mundo, mostrando as pessoas se agarrando a aviões militares em movimento e o desespero por vistos.
A evacuação sob comando militar foi uma das maiores da história recente, retirando cerca de 123 mil pessoas em duas semanas. O último voo militar americano decolou de Cabul nos minutos finais de 30 de agosto de 2021. Bilhões de dólares em equipamentos militares foram deixados para trás, e a retirada foi duramente criticada internamente nos EUA por falhas de planejamento e inteligência.
Apesar dessa história de décadas, o Afeganistão voltou a ser aquilo que já era, e a situação das pessoas, sobretudo das mulheres, é muito crítica, e os olhos do mundo não veem.
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