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O que se passa no Afeganistão?

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Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

20 OUT 2026 - 15H35 (Atualizada em 20 OUT 2026 - 17H02)

trentinness / AdobeStock

O dia 15 de agosto marcou os cinco anos da retomada do poder pelo Talibã no Afeganistão, após a retirada das tropas norte-americanas em 2021. Hoje, cerca de 14 milhões de afegãos enfrentam insegurança alimentar aguda, com os direitos das mulheres sistematicamente eliminados ou reduzidos.

Meninas são proibidas de ir à escola e universidades, mulheres são banidas de espaços públicos e, em 2024, foi aprovada uma lei restritiva que as proíbe até mesmo de falar em público.

A situação está sendo classificada por analistas estrangeiros como um verdadeiro “apartheid de gênero”, em referência ao cruel regime de segregação racial que por muitos anos aconteceu na África do Sul.

A crise econômica também se agravou intensamente com desemprego em alta e inflação crescente, enquanto a ajuda internacional, especialmente dos EUA, foi praticamente cortada desde 2025. O cenário tem impulsionado o aumento dos casamentos infantis e violação grave dos direitos humanos tolerada pelo regime talibã.

Durante muito tempo o Afeganistão foi presença diária nos meios de comunicação devido aos muitos problemas que o país enfrentava desde os anos de 1990, com a Guerra do Afeganistão e presença dos Estados Unidos. Hoje pouco aparece na mídia internacional voltada para outros interesses. Aquilo que se passa nesse país asiático pouco aparece e não chama mais atenção.

A Guerra do Afeganistão

O conflito começou em dezembro de 1979, quando a União Soviética invadiu o país para apoiar um governo comunista local e conter guerrilheiros islâmicos chamados mujahidin. O conflito durou dez anos, gerando grande desgaste militar aos soviéticos, com forte apoio financeiro dos Estados Unidos aos rebeldes, terminando com a retirada da URSS em 1989.

Uma revolução feita em 1978 colocou um partido marxista no poder, mas o novo regime enfrentou forte resistência popular por tentar impor reformas laicas e radicais. Temendo perder sua zona de influência bem na fronteira, a União Soviética invadiu o país em 27 de dezembro de 1979.

Tropas soviéticas tomaram a capital Cabul, executaram o líder afegão Hafizullah Amin, substituindo-o por Babrak Karmal. Os soviéticos controlaram as grandes cidades e estradas, mas passaram a sofrer constantes ataques da guerrilha, que fugiu para o interior montanhoso. Os rebeldes mujahidin foram armados e preparados pelos Estados Unidos, recebendo armas, dinheiro e treinamento secreto dos Estados Unidos, Paquistão, Arábia Saudita e China.

O uso de mísseis antiaéreos fornecidos pelos EUA neutralizou a vantagem aérea soviética, especialmente os helicópteros, transformando a guerra em um atoleiro que passou a ser chamado de "Vietnã soviético", recordando o que havia acontecido com os Estados Unidos no Vietnã, de onde saíram completamente derrotados.

É nesse contexto que aparecem figuras como Osama Bin-Laden e a organização Al-Qaeda, que depois se voltaram contra os Estados Unidos, que financiavam e armavam o movimento.

A violência extrema causou mais de um milhão de mortes de civis afegãos e milhares de baixas soviéticas, com altos custos econômicos e pressão internacional. O líder soviético Mikhail Gorbachev decidiu então retirar as tropas.

O acordo de Genebra selou a retirada completa, que terminou em fevereiro de 1989, deixando o Afeganistão em frangalhos e abrindo caminho para uma violenta guerra civil.

A invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos

A invasão do Afeganistão pelos EUA começou no dia 7 de outubro de 2001, numa operação chamada "Liberdade Duradoura". Seu objetivo era derrubar o regime Talibã, que havia voltado ao poder, e destruir a Al-Qaeda, responsável pelos ataques de 11 de setembro que derrubaram as Torres Gêmeas em Nova Iorque. Em poucas semanas, o governo talibã caiu, mas a presença americana transformou-se numa ocupação de quase 20 anos marcada pela insurgência e instabilidade que duraram até sua retirada final em agosto de 2021. Os EUA iniciaram bombardeios estratégicos em outubro de 2001, combinados com o apoio à Aliança do Norte, a oposição afegã ao Talibã.

Mais uma vez os líderes talibãs e os combatentes da Al-Qaeda fugiram para áreas montanhosas ou para o vizinho Paquistão. Inicialmente, Osama bin Laden conseguiu escapar, sendo depois localizado e morto por forças especiais dos EUA em 2011, no Paquistão.

Com a atenção dos EUA voltada também para a Guerra do Iraque em 2003, o Talibã conseguiu se reorganizar no território paquistanês e iniciar uma forte guerrilha contra o novo governo afegão. Os EUA e aliados tentaram estabelecer um governo democrático centralizado em Cabul, treinando forças de segurança locais, investindo em infraestrutura, educação e direitos civis, mas o conflito prolongou-se por duas décadas, resultando em milhares de mortes entre militares estrangeiros, forças afegãs e civis, além de um desgaste econômico e político massivo. Em 2020, o governo dos EUA assinou um acordo com o Talibã para a retirada gradual das tropas americanas.

Como foi a retirada dos Estados Unidos do Afeganistão

Os Estados Unidos não aprenderam com a Guerra do Vietnã, da qual saíram apressadamente, nem com a derrota da antiga União Soviética, que também saiu de forma atordoada do Afeganistão. Sua saída, concluída em 30 de agosto de 2021, foi um processo caótico e traumático que encerrou 20 anos de guerra.

Com a saída das forças estrangeiras desde o ano anterior, o Talibã avançou rapidamente pelo país em uma ofensiva relâmpago. As forças de segurança afegãs, apesar do treinamento recebido por décadas pelos EUA, desmoronaram sem resistência coordenada e o presidente afegão fugiu do país.

Milhares de civis afegãos, temendo a volta do regime extremista, lotaram o Aeroporto Internacional na tentativa de escapar. Imagens chocantes correram o mundo, mostrando as pessoas se agarrando a aviões militares em movimento e o desespero por vistos.

A evacuação sob comando militar foi uma das maiores da história recente, retirando cerca de 123 mil pessoas em duas semanas. O último voo militar americano decolou de Cabul nos minutos finais de 30 de agosto de 2021. Bilhões de dólares em equipamentos militares foram deixados para trás, e a retirada foi duramente criticada internamente nos EUA por falhas de planejamento e inteligência.

Apesar dessa história de décadas, o Afeganistão voltou a ser aquilo que já era, e a situação das pessoas, sobretudo das mulheres, é muito crítica, e os olhos do mundo não veem.

Leia também: A contínua crise do Haiti

Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

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