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A continuada crise do Haiti

Mesmo diante da violência e das crises política e econômica, o futebol surge como símbolo de esperança e orgulho nacional. Confira!

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Escrito por Pe. José Inácio Medeiros, C.Ss.R.

16 JUN 2026 - 11H10 (Atualizada em 16 JUN 2026 - 11H43)

dlrz4114/Adobe Stock

O Haiti, localizado na região do Caribe, é considerado o país mais pobre das Américas. Segundo dados atualizados, possui uma população de aproximadamente 12 milhões de habitantes e divide a Ilha de Hispaniola com a República Dominicana.

Peter Hermes Furian/Adobe Stcok Peter Hermes Furian/Adobe Stcok Mapa do Haiti

Há muito tempo o país está mergulhado numa crise que parece não ter mais fim, vivendo hoje numa grande instabilidade, com a população dominada pela violência comandada por cerca de 200 gangues, submetidas a duas facções principais. Elas praticam todo tipo de crimes indo dos assassinatos e estupros aos saques e sequestros.

A crise humanitária na nação caribenha se deve muito aos ataques armados dessas gangues que agora não estão mais limitadas a alguns pontos mais críticos, atingindo áreas antes consideradas refúgios seguros.

Cerca de 1,5 milhões de pessoas permanecem deslocadas e o país somente perde para a Venezuela em termos de imigrantes que buscaram refúgio em outros países, inclusive no Brasil. O número dos deslocados internos já representa quase 12% da população e mais da metade desse contingente é composto por mulheres e crianças.

Para combater o caos, forças internacionais têm atuado para apoiar a segurança local, mas a estabilização do país continua sendo um enorme desafio. O próprio Brasil enviou, em nome da ONU, uma Força de Paz denominada de “Capacetes Azuis” que permaneceu no país entre 2004 e 2017.

Raízes da crise

A situação extrema acontece a partir da combinação de fatores históricos e contemporâneos que se somam.

Desde a independência, o país tem sofrido com ditaduras, golpes de Estado e corrupção sistêmica. A crise institucional se agravou, sobretudo, após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021, gerando um vácuo de poder que paralisou a maioria das instituições governamentais.

Bem antes disso, o século 19 presenciou uma sucessão de governantes, alguns deles vitalícios. Mas seu poder durava pouco e acabavam derrubados por revoltas, assassinados ou exilados.

A segunda metade do século 20 foi marcada pelos governos ditatoriais de François "Papa Doc" Duvalier (1907-1971), seguido pelo seu filho Jean-Claude conhecido como “Baby Doc" (1951-2014). A ditadura dos Duvalier durou 29 anos. Nesse período, a corrupção esvaziou os cofres do país e a repressão policial resultou em cerca de 30 mil mortos ou desaparecidos.

Entre 1986 e 2020, o país teve 18 governantes que pouco atuaram para debelar a crise que se torna cada dia mais catastrófica.

A partir do esvaziamento do poder, cresceu a ação do crime organizado, com facções armadas assumindo o controle de várias regiões do território haitiano, impondo bloqueios de estradas, dificultando o acesso da população a alimentos, água e ajuda humanitária, além de praticarem extorsão, sequestros e violência generalizada.

Ao se tornar o primeiro país independente do mundo fundado após uma revolta de pessoas escravizadas em 1804, o Haiti sofreu um boicote internacional, encabeçado pela França, a antiga metrópole. Para ser reconhecido como país independente, foi obrigado a pagar uma pesada indenização à França, o que gerou uma dívida impagável que drenou sua economia por mais de um século e da qual ainda hoje se sente as consequências com o empobrecimento generalizado da população. Estudiosos calculam que a dívida chegaria a cerca de US$ 21 bilhões em valores atualizados.

Airmaria/Adobe Stock Airmaria/Adobe Stock Cité Soleil, Haiti

Para complicar a situação, o país é muito vulnerável aos fenômenos climáticos e ambientais. Terremotos devastadores, como o de 2010, no qual morreu a Dra. Zilda Arns, fundadora e mentora da Pastoral da Criança, e sucessivos furacões abalam repetidamente o país, destruindo sua infraestrutura. A ajuda internacional é sempre pequena diante das necessidades e não chega a resultar em reconstrução a longo prazo.

Violência gera deslocamentos

Um surto de violência ocorrido na área de Cité Soleil, em Porto Príncipe, no mês de maio contribuiu para deslocar mais de 18 mil pessoas em apenas alguns dias, que se somaram ao elevado número de deslocados internos na capital para mais de 300 mil pela primeira vez.

A soma das dificuldades provocadas pela violência armada gera os deslocamentos em massa, insegurança alimentar aguda, retornos forçados em grande escala, perigos climáticos e instituições sob pressão em todos os níveis. Mais de 270 mil haitianos dos cerca de 1,5 milhões que viviam no exterior foram forçados a retornar ao país em 2025, e outros 110 mil já retornaram em 2026.

Para piorar a situação, agora em julho começa a temporada de furacões no Oceano Atlântico se estendendo até o fim de novembro e todos rezam para que o país possa ser poupado de maiores destruições.

ChrisOvergaard/Adobe Stock ChrisOvergaard/Adobe Stock A cidade pobre de Porto Príncipe, no Haiti, após a destruição causada pelo terremoto

Futebol traz esperança

Neste ano o Haiti viu nascer uma tênue esperança devido ao esporte. O país, depois de mais de 50 anos, se classificou para o Mundial de futebol de 2026. A primeira vez que o país se classificou havia sido em 1974, com os jogos da copa sendo disputados na Alemanha Ocidental. Nas partidas disputadas marcou um único gol contra a Itália.

Justlight/Adobe Stock  Justlight/Adobe Stock Torcedor haitiano

Por aquelas felizes coincidências a qualificação da seleção nacional aconteceu em 18 de novembro, bem no dia do aniversário de sua independência e os habitantes do país, por um ligeiro momento, olharam verdadeiramente para a mesma direção.

A vitória ocorreu em meio à impossibilidade de a seleção haitiana jogar em seu próprio estádio, na cidade de Porto Príncipe, devido à violência e instabilidade política do país. Mas o Haiti terá pela frente como adversário o Brasil, com o qual jogará no dia 19 de junho.

A maioria dos jogadores convocados para formar a seleção nacional vivem fora do país, muitos não por vontade própria, mas na condição de exilados.

Nos períodos em que acontecem os campeonatos mundiais, parece que o mundo vive um pouco mais de tranquilidade e de paz. Que essa paz possa chegar de forma definitiva para esse povo sofredor e que a reconstrução do país possa verdadeiramente se iniciar. 

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