Por Wallison Rodrigues Em Música

Calar-se diante do mistério

É preciso aprender a se calar

Convidaram-me a escrever sobre a arte de compor. Interessante, já li muita coisa sobre o assunto, em pouca experiência de vida. Noto que existem palavras direcionadas ao letrista/poeta e existem palavras próprias ao músico/compositor. É um universo da linguagem que parte da questão textual – bíblica – à “rima”. Um mundo musical que vem da própria palavra litúrgica a uma qualidade harmônico-sonora. Ir. Miria T. Kolling, em seu artigo – “O ministério dos compositores”[1] – já nos agraciou bastante sobre esse assunto. Às vezes caímos na tentação de fazer nossas leituras procurando nos textos os métodos práticos para desenvolver tal ofício. Insiste: É preciso de vivência de comunidade! Como os próprios documentos da CNBB[2] tem se preocupado bastante. Alguns já me perguntaram como compor... Estive refletindo e digo que não é só viver e celebrar na comunidade. Só isso, nem sempre nos faz um bom compositor, músico ou poeta. Na maioria das vezes é preciso aprender a “calar”. Talvez o mais difícil!

Estamos num tempo “misterioso”! Às vezes cercado de muito barulho, em que nós somos os sujeitos ativos de tal fenômeno. O ambiente a nossa volta está poluído de falas, de gestos... Onde o ‘silêncio’ na vida se torna sinônimo de ‘solidão’. Em casa após o trabalho, ligamos a TV, o rádio, a Internet, entre outros meios para não sentirmos sozinhos, mesmo em meio às outras pessoas. Viajamos para lindos lugares, encontramos grandes famosos, deparamos com situações inusitadas... Mas não vivemos ou escutamos aquele momento procurando extrair o máximo de suas riquezas. Simplesmente, tiramos foto. Fotos que instantaneamente são postadas em redes sociais. Estas quando muito curtidas/compartilhadas, revelam sinais de que valeu a pena aquela situação ou lugar. Sim, interessante! No entanto, para compor é preciso ir além desta vivência do mundo em que somos assediados a viver na comunidade.

compositorQuando simplesmente obervamos e descrevemos o mistério num papel, corremos o sério risco de empobrecê-lo, reduzi-lo, entre outros perigos que se dão por um contato superficial. Existem sentimentos que brotam do momento, talvez pela quantidade de pessoas, ou a força da palavra ou até mesmo pela vibração da comunidade. Mas, isso não é ainda o néctar da manifestação mistérica. É preciso olhar e sentir além. Este exercício se dá com o silêncio. É preciso calar-se diante do mistério e deixar ser interpelado. Não estou falando de um ritual mágico, aonde tudo vai acontecendo sem você se dar conta, com um brilho místico, de luzes e sons. Não! É algo mais comum, muito simples. De tão simples é inexplicável. E aí nos damos conta que o mistério celebrado não cabe numa pauta. Mas, tentamos em nossa fragilidade expressar o que vimos, sentimos e ouvimos.

O mistério na liturgia nos convida a ver – Ele se dá a nós, se manifesta, ele se releva aos nossos olhos, no modo em que nós podemos o compreender; O mistério nos convida a sentir – Ele se faz presente aos sentidos, de um modo muito íntimo e também comunitário. Não me perguntem como senti-lo! Mas, acredito que a cada um, nas possibilidades de cada pessoa, Ele se manifesta a fim de fazer próximo à vida. Por fim, o mistério nos clama a ouvir – Ele quer “falar”, sempre tem algo a dizer... É o momento em que o Espírito que fala em nós. Talvez um modo de se revelar, porque Ele sabe o como e o que dizer a nós. Este último talvez seja a parte mais difícil: aprender a calar. Um silêncio que não é vazio, mas cheio de significado. Um silêncio que se faz em letra e música na vida do compositor. É aqui, neste momento que o Espírito age frutuosamente na missão do poeta/músico.

Por que se calar? Porque o compositor não escreverá para si, ou de si mesmo ou a partir de si... Sempre sobre o Mistério: Deus! Sendo assim, o que escrever? Os sentimentos? Não. Sentimentum, do latim, quer dizer opinião, uma afeição ligada ao sentir. Se a música (poesia e melodia) é um condutor que leva a comunidade à vivência do Mistério, nada melhor do que ela estar intimamente ligada ao próprio Mistério. Por isso, o uso da Sagrada Escritura, lugar onde Ele se revela intimamente a nós. Bem, mas este seria outro assunto.

Por ora, reflitamos: Como me coloco diante do Mistério celebrado? Eu sei me calar? Quando sei que posso falar do Mistério? Neste tempo atual, é fácil encontrar-me com o Mistério? Quais são as minhas experiências? Se você compõe, como você descreveria sua experiência/ministério? Sabia que também para cantar qualquer música é importante se calar diante dela? Já fez essa experiência?

Sugestão de leitura sobre o silêncio: O Silêncio na liturgia: sonoridade de Deus, de Pe. Fernando N. Gioia. Disponível em: https://goo.gl/uX0Yzd

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[1]Disponível em: https://www.a12.com/musica/formacao/detalhes/o-ministerio-dos-compositores. Acessado em 12/07/2015.
[2] Por exemplo, cf. Doc. 79 – A Música Litúrgica no Brasil

Abraços musicais de
Wallison Rodrigues

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